quinta-feira, 28 de outubro de 2010

#Delíryos | Ah, esperança, meu tarja preta...

Às vezes eu tenho invejo daquelas pessoas que vivem com o potenciômetro de esperança no último marcador. É paradoxal o que sinto quando vejo alguém com essa vibe, todo engomado no verdíssimo figurino das expectativas. Ao mesmo tempo em que acho tão imbecil, acho bonito, parvo, encantador, néscio...

Mesmo assim, vez ou outra me pego acelerando o meu ponteiro. Sinto o comichar do serelepe bichinho da esperança fazendo folia com as minhas ilusões. E será sempre assim. Maldição do bom, velho e imprescindível Shakespeare, que amaldiçoou (foi maldição, sim!): "os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança". Ah, esperança, meu tarja preta...





Imagem: SXC
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domingo, 3 de outubro de 2010

#Delíryos | Romance de la luna



Ao som de castanholas que estalavam baixinho, eu flutuava na névoa multicor do dancing quando ela surgiu e me enjaulou em suas retinas, negramente emolduradas. Um trago mais forte e uma sufocante fumaceira realçaram no meu rosto sombrio o apetite que aquela entidade flamenca, envolta em sedas rubras, despertara no meu peito embebido de fugazes emoções.

Ela, olimpiana, delineando os primeiros passos, incandesceu o olhar devorador da horda de muares que respirava cada gesto do seu corpo, que sexualizava com o timbre sôfrego de Camarón. Mas foi no desvanecer das luzes do abismal cabaré, e no latejar de gozo musical do meu membro rígido, que naquela noite, à luz da lua, ela fez a sua melhor performance.






Foto: SXC
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