segunda-feira, 6 de setembro de 2010

#ÓpioSonoro | Pra gostar de "música de vitrola"

Eu tenho a estranha mania (existem manias que não sejam estranhas?) de querer incutir a nossa cultura musical na cabeça das pessoas. Faço isso sem o menor constrangimento. Pode parecer ou ser pretensioso, mas sou ávido em doar pedacinhos da bagagem cultural - pequena, bom lembrar - que adquiri nos meus 20 e poucos anos. E hoje vou iniciar uma série de conversinhas, como quem não quer nada, querendo propagar - adivinhem! - a música popular brasileira. Até hoje, o blog tinha um player, que virou enfeite - não era atualizado há dezenas de séculos. Então, pra dar mais dinamismo à esta pobre e esquecida página (um dia ainda escrevo um samba-canção), inventei de criar uma coluna que vai ferver: muita música vai tocar aqui.

Para início de conversa, com muita dificuldade, vou apresentar 10 - das centenas de - canções "antigas" e essenciais da extensa antologia poética-musical brasileira. Sem muito lero-lero: quero falar, principalmente, àqueles que torcem os ouvidos para o cancioneiro verde-amarelo e que chamam grandes clássicos de "música de vitrola" (sem o pejorativo, até gosto do epíteto). Se por acaso você, que está lendo essa ladainha, é um dos tais, faça o seguinte: continue a leitura, escute as músicas, e mais: goste muito!

1 - Carinhoso - Sinceridade: é vergonhoso não conhecer o hit poético de Alfredo da Rocha Vianna, o Pixinguinha. Mas feio ainda é cantarolar um "lá-lá-lá" para a canção que deve ser conhecida até no Alaska. Tida como uma das maiores poesias musicais de todos os tempos, a melodia nasceu em 1917, e somente 20 anos depois ganharia a letra, obra de João de Barro, o Braguinha. Todo cantor brasileiro que se preza quer cantar "Carinhoso". Na minha opinião, a versão de Marisa Monte e Paulinho da Viola é imbatível. Clique e - com perdão do trocadilho - seja acariciado pela poesia do grande ídolo de Vinícius de Moraes.

2 - Asa Branca - Além do rock dos anos 80 e da música new wave, minha infância foi embalada pelas notas do acordeão necessário de Luiz Gonzaga, que compôs esta música em parceria com Humberto Teixeira. A composição é cinquentona, mas continua a narrar as tristezas de boa parte do sertão brasileiro. Para quem não sabe, asa-branca é um pássaro que habita nas florestas, cerrados e caatinga, e simboliza paz, saudade e exílio. Sem mais firulas. Aperte o play já!

3 - Chega de saudade - Bem capaz que algum dia, quando você estiver em New York, jantando num restaurante bem bacana, o fundo musical do ambiente terá um piano ou um saxofone tocando o lamento mais bonito da bossa nova. Altaneiro voo poético de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

4 - O mundo é um moinho - Há quem diga que Cartola escreveu tudo isso para convencer uma das filhas a não sair de casa. Mas eu prefiro ficar com a opinião de Aldir Blanc, que em artigo para o Estadão escreveu tudo: "O mundo é um moinho resume a lúcida amargura de Cartola".

5 - Ronda - Certa noite, num bar qualquer da Avenida São João (SP), uma mulher, com olhos de caçador, chamou a atenção de Paulo Vanzolini. Ela procurava alguém, foi o que pensou o boêmio. Assim nasceu esta música (nos anos 40), que foi gravada em 1953 por Inezita Barroso, mas somente nos anos 70 o Brasil se rendeu à canção - desta vez, emoldurada pela voz de Márcia. As interpretações de Maria Bethânia e Jamelão são imperdíveis.

6 - Chão de estrelas - Poema do jornalista Orestes Barbosa - musicado pelo cantor Silvio Caldas. Palavras do poeta Guilherme de Almeida: "(...) é quanto basta para que haja ainda um poeta na terra". E para Manuel Bandeira, "tu pisavas nos astros distraída" é o verso mais bonito que já se ouviu.

7 - A noite do meu bem - Clássico do gênero samba-canção, a letra traz a aura da poesia triste, lancinante, trágica e ao mesmo tempo tão bela de Dolores Duran, que morreu muito jovem, aos 29 anos (1959). Parceria com Tom Jobim.

8 - O samba da minha terra - Ninguém nunca foi tão criativo com os aversivos ao samba como Dorival Caymmi. Não gosta de samba? O baiano cantou na lata: "bom sujeiro não é; é ruim da cabeça ou dente do pé". O Bando da Lua fez a primeira gravação nos anos 40. Em 61, o recado ficou mais forte na voz suave e na batida do violão charmoso de João Gilberto.

9 - Com que roupa? - A mãe de Noel Rosa não sabia que não existe aprisionamento para quem é poeta de verdade. Para ver o filho longe das noitadas, escondeu todo o vestuário do sambista. Não deu outra: da simples pergunta "com que roupa eu vou?", Noel fez o samba, que também - conforme confidenciava para amigos - bradava, com metáforas, contra a pobreza do país.

10 - Aquarela do Brasil - Essa até gringo sabe cantar. Na época da composição, final dos anos 30, a letra foi um acinte para os esquerdistas, pois vivíamos o Estado Novo, que tinha Getúlio Vargas bradando que o Brasil estava entre as sete maravilhas do mundo. O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) usou a canção para divulgar o país tupiniquim a outras nações. Bom para Ary Barroso, o autor, que iniciou carreira internacional, chegando a ser indicado ao Oscar , em 1944, na categoria de melhor música - com Rio de Janeiro, feita especialmente para o filme Brazil.

É isso. Muitos delírios ao som dessa playlist "vitrolesca".


Algumas informações: Revistas Bravo! e Rolling Stone
Imagem: Tirei daqui

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3 comentários:

  1. Que post leviano! Cadê Adoniran Barbosa, Ernesto Nazareth, Antonio maria, Nelson Cavaquinho e tantos outros?

    Gostaria de salientar que a seleção acima não é um ranking. Citei aleatóriamente.

    Daniel Barbosa

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  2. Um post leviano, de fato. Mas uma leviandade mais do que bem vinda. E, definitivamente, Carinhoso à lá Marisa é hors concour.

    Abraço

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  3. rapaz, mto bom seu post. aprendi e conheci coisas aqui. de todas, ronda com maria bethânia é realmente imperdível. abraço!

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