segunda-feira, 19 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 3) | Para contar uma história de vida


Na literatura de realidade, o primeiro passo – muito óbvio - para se contar uma história de vida é a escolha do personagem, que, inequívoco, vem escoltado por muitas tramas. Mesmo os jornalistas contadores de histórias que são donos de espessa bagagem profissional e detentores de estimável repertório cultural, na construção de suas narrativas de não-ficção, não são regidos pela altivez ou por qualquer sentimento presunçoso, não fogem das "regras" necessárias para arquitetar suas tramas. Todos trilham árduos caminhos, ou mergulham em densos mares na azáfama de contar uma história. Pelo menos, é o que pede o bom senso.

Antes de tudo, é preciso ajuizar que
todos os fios das histórias - que a personalidade da narrativa traz - estão intricados. Desembaraçá-los é ofício artesanal. É preciso passar por cima de todas as convicções e de supostos conhecimentos acerca do que se pretende narrar. A primeira delas diz respeito à trajetória do protagonista da história, de uma biografia – para citar um gênero (que também poderia ser perfil ou ensaio biográfico). Pode-se dizer que o personagem - elemento que será aprofundado em outros posts - , no início do trabalho biográfico, é uma caricatura em seu mais alto traço de deformidade. O biógrafo tem o compromisso de aperfeiçoar esta figura – evidente, como teorizou Pierre Bourdieu, em A ilusão biográfica (1998), que é impossível delineá-la em sua totalidade. Porém, engajado na arte do biografismo, o narrador de vidas é capaz de extrair o sumo de seu personagem. Ou seja, levantar proeminentes fragmentos que constituem o biografado, ou, segundo a concepção de Ruy Castro, “revelar o ser humano para quem se habituou a só ver o heroi e mostrar o heroi para quem só teve a chance de conhecer o ser humano" (declaração dada ao jornalista Maurício Stycer, em 1995, quando lançou Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha).

E, por citar Castro, será que o biógrafo - mesmo sendo um dos peritos da imprensa, profundo amante da literatura e do teatro - , ao produzir, por exemplo, a biografia de Nelson Rodrigues, se privou de rastrear, impetuosamente, a trajetória do seu anjo pornográfico? A pergunta poderia ser desnecessária, porém é indispensável para enfatizar que
o jornalista contador de histórias deve seguir alguns princípios epistemológicos do jornalismo responsável. São eles: pesquisas, exploração de fontes, entrevistas, seleção de material e, por fim, a construção da narrativa.
O jornalista-biógrafo Lira Neto, autor de O poder e a peste - a vida de Rodolfo Teófilo (2000), Castello – a marcha para a ditadura (2004), O inimigo de rei – uma biografia de José de Alencar (2006) e Maysa – Só numa multidão de amores (2007), conta como foi seu mergulho na construção deste último trabalho:

"Para escrever este livro, pesquisei em cerca de 100 mil recortes de jornais e revistas: entrevistas, artigos, críticas, notas, reportagens. Textos em português, inglês, francês, italiano, espanhol. Os recortes, fornecidos pela família da cantora e que foram colecionados pela própria Maysa, fizeram o mapeamento completo de sua trajetória artística. Também tive acesso irrestrito aos diários íntimos dela. Escritos confessionais, anotações sobre o cotidiano, a vida familiar, os romances, os bastidores de carreira, a forma singular de uma mulher incomum ver o mundo. Havia também uma tentativa inacabada de autobiografia, poemas, letras de música, algumas delas inéditas (NETO, 2007, p. 336)".

Pelo relato de Lira Neto, fica perceptível a profundidade da indefessa pesquisa que o autor desenvolveu para escrever a biografia da cantora Maysa. Evidente que nem todos os personagens vão oferecer esta gama de fontes. Tudo vai depender da ‘"statura" do biografado – no caso de Maysa, nem seria preciso citar que estamos falando de um dos maiores cartazes da música popular brasileira. No entanto, mesmo para personagens de ‘"porte menor" (bom lembrar que esses não existem, pois estamos falando de seres humanos) , a técnica de pesquisa deve se aproximar da praticada por Lira Neto:
é preciso estancar todas as fontes.


NO PRÓXIMO POST: O caráter das fontes

Outros textos da série


#Jornalismo&Literatura (parte 1) | O jornalismo contador de histórias

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas



Imagem: tirei daqui

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


Share |

Nenhum comentário:

Postar um comentário