sexta-feira, 9 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas


No prefácio de Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (Mônica Martinez, 2008), o professor Edvaldo Pereira Lima apresenta a proposta do Jornalismo Literário Avançado – segmento que liquefaz jornalismo e literatura –, que se aproxima da proposição do biografismo; se entrelaça com a visão de Martinez; e está enquadrado com os pressupostos do New Journalism – construção cena a cena, diálogos, reconstituição minuciosa, alternância de foco narrativo, dentre outros. Segundo ele, “trata-se de uma abordagem – sustentada conceitual e metodologicamente – que busca conceder à narrativa jornalística de profundidade uma visão de mundo complexa, sistêmica, integrada. Na complexidade, o mundo é encarado sob uma ótica em que o objetivo e o subjetivo convivem, na qual os elementos do consciente e os conteúdos do inconsciente transitam”.

Em outras palavras, entendo que, no caso do jornalismo, a literatura pode, senão abolir, atenuar o que Luiz Milman, jornalista e mestre em Filosofia, chama de ‘noticiarismo’, ou seja, a industrialização da notícia, a preocupação em fazê-la circular rapidamente, resultando em um fazer jornalístico pouco consistente – o que leva jornalistas veteranos a acreditarem que o jornalismo contador de histórias morreu, como concebeu Pedro Bial. E o mal do noticiarismo atinge, principalmente, a reportagem, “modalidade jornalística deprimida nas redações de hoje”, conforme Milman.

Diante da volumosa demanda de informações – agora ainda mais estratosférica com o boom das redes sociais –, a reportagem não tem forças suficiente para “disputar” com a insana e irrefreável industrialização da notícia. E, ironia ou não, é na literatura que o segmento encontra espaço, substância e retorna ao intuito principal, o de se aprofundar nas histórias, e destas garimpar outras, moldando-as a uma linguagem fugidiça ao corriqueiro .

Para o jornalista e escritor Juremir Machado Silva, “o grande problema do jornalismo contemporâneo vem do seu ideal de expressão (conteúdo) máxima, com expressividade (forma) mínima. Em outras palavras, o jornalismo quer dizer muito com pouca literatura. Houve uma fase em que a ruptura com o modelo literário se impunha e significou uma libertação para o texto jornalístico. Hoje o fosso existente determina, cada vez mais, um desconhecimento pelo jornalista, da textura literária das palavras. A ambiguidade esconde-se, travessa, na superfície dos textos que dizem aos seus autores o que eles não podem interpretar”.

Interpretar: em uma palavra, pode-se dizer que este é um dos fundamentos do jornalismo literário ou jornalismo não periódico. No dia a dia, jornalistas se defrontam com milhões de histórias e personagens, todos rudimentares à prática do ofício. Porém, é inegável que existem histórias e personagens que, naturalmente, não consentem que lhes seja arrancada sua magia, como refletiu Martinez. Mercantilização e imediatismo não têm vigor diante deles. Nesse contexto, entram em cena, por exemplo, as biografias, os livros-reportagem, que exercitam o que, em regra, o jornalismo cotidiano não ousa experimentar, conforme a crítica de Daniel Piza, que diz: “é preciso [o jornalismo] perder o medo de usar palavras menos óbvias, fugir ao lugar-comum, costurar melhor descrições e argumentos, acrescentar pitadas de humor, ironia e até lirismo, usar recursos como metáforas, trocadilhos e mudanças de andamento. É preciso diversificar os gêneros. [...] O jornalismo deve perder a submissão ao que considera ser realidade, a submissão às versões oficiais e ideológicas sobre os fatos, para conseguir ir além deles. O resultado, a língua agradece”.

Entretanto, tal atrevimento exige que o jornalista, antes de ser contador de histórias , seja um escafandrista. É preciso mergulhar nos fatos, na história, nas memórias, no improvável e, principalmente, na magia. Afinal, as palavras de Piza deixam às claras que o contador de histórias deve estar agasalhado de muita argúcia, um dos requisitos basilares para burilar narrativas consistentes e instigantes.


MERGULHE:

Dois gêneros separados pela mesma língua, in: Jornalismo e Literatura - A Sedução da Palavra" (Escrituras, 2003) – De Daniel Piza


A miséria do jornalismo brasileiro: as (in) certezas da mídia. Petrópolis: Vozes, 2000 – De Juremir Machado da Silva


A metodologia do jornalismo: breve excurso sobre a natureza de um conflito. Revista Tendências na Comunicação. Porto Alegre: L&PM, 1998 – De Luiz Milman



Na foto: Nelson Rodrigues [www.jornale.com.br]

Escafandro: SXC

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


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