sexta-feira, 23 de julho de 2010

#Delíryos | Um viva aos 25 centímetros de Garrincha!

Ih, vamos acabar com o climinha de mistério e desconfiança que traz o título deste post: sim, trata-se de uma aclamação à quilomegragem masculina de Garrincha, ao pênis de Garrincha, ao órgão genital de Garricha, à benga de Garrincha, ao pau de Garrincha, enfim, como lhe apraz chamar aquilo que o eterno craque tinha no meio das pernas tortas pernas. "Aquilo" vírgula! Senti uns 25 centímetros de inveja por parte do redator deste textículo... Além de ter satisfeito - vá lá saber - um estádio de mulheres, o falo do jogador sustenta este blog, faz pulsar este negócio aqui; todos os dias traz algum curioso que, tomado por desejos mais que enfurecedores (exagero?), digita na barra de busca do velho Google: "Garrincha 25 cm", "pênis do Garrincha", "foto do pinto do Garrincha". Googlão, velho amigo, não perde tempo: direciona a pessoa insana para o Opiofagia (por isso a ode no título - comemoração tardia).

Tardia porque tem sido assim desde 23 de fevereiro de 2009, quando publiquei A "quilometragem masculina" de Garrincha (que você, por favor, leia somente quando quando finalizar este texto). Penso que decepciono aqueles que têm avidez pela trosoba do moço nascido em (e de) Pau Grande (vilarejo vizinho de
Petrópolis, Rio de Janeiro) - principalmente para os exigentes, que querem porque querem fotografia do instrumento do rapaz. Terei sempre essa dívida com vocês... Mas, na tentativa de amenizar as correções linguísticas e binárias (de bit) de tal pendência, farei um acréscimo nas informações. Últimos dos moicanos do futebol da era garrinchesca lembram do jogador em banhos nos vestiários e comprovam tais especulações sobre as medidas do ponta-direita (informação vaga, eu sei - meio Nelson Rubens, Sônia Abrão e Leão Lobo). E em 1958, brasileiros, garbosos e felizes com a vitòria do Brasil na Copa do Mundo, cantarolavam a marcha carnavalesca que exaltava a "estrela solitária", que na época namorava a vedete Angelita Martinez - esta, nos shows, trocou a preposição "em" para "de", na letra que dizia: "Mané, que nasceu em Pau Grande...".

E para quem pensa que eu estou querendo gozar com a piroca do futebolista, veja abaixo o relatório que mostra o assunto mais atraente nos últimos setes dias. (Pensando o quê? Eu mato a cobra e mostro o... ah, mostro não. Aqui não).



Foto: Blog Década de 50
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 3) | Para contar uma história de vida


Na literatura de realidade, o primeiro passo – muito óbvio - para se contar uma história de vida é a escolha do personagem, que, inequívoco, vem escoltado por muitas tramas. Mesmo os jornalistas contadores de histórias que são donos de espessa bagagem profissional e detentores de estimável repertório cultural, na construção de suas narrativas de não-ficção, não são regidos pela altivez ou por qualquer sentimento presunçoso, não fogem das "regras" necessárias para arquitetar suas tramas. Todos trilham árduos caminhos, ou mergulham em densos mares na azáfama de contar uma história. Pelo menos, é o que pede o bom senso.

Antes de tudo, é preciso ajuizar que
todos os fios das histórias - que a personalidade da narrativa traz - estão intricados. Desembaraçá-los é ofício artesanal. É preciso passar por cima de todas as convicções e de supostos conhecimentos acerca do que se pretende narrar. A primeira delas diz respeito à trajetória do protagonista da história, de uma biografia – para citar um gênero (que também poderia ser perfil ou ensaio biográfico). Pode-se dizer que o personagem - elemento que será aprofundado em outros posts - , no início do trabalho biográfico, é uma caricatura em seu mais alto traço de deformidade. O biógrafo tem o compromisso de aperfeiçoar esta figura – evidente, como teorizou Pierre Bourdieu, em A ilusão biográfica (1998), que é impossível delineá-la em sua totalidade. Porém, engajado na arte do biografismo, o narrador de vidas é capaz de extrair o sumo de seu personagem. Ou seja, levantar proeminentes fragmentos que constituem o biografado, ou, segundo a concepção de Ruy Castro, “revelar o ser humano para quem se habituou a só ver o heroi e mostrar o heroi para quem só teve a chance de conhecer o ser humano" (declaração dada ao jornalista Maurício Stycer, em 1995, quando lançou Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha).

E, por citar Castro, será que o biógrafo - mesmo sendo um dos peritos da imprensa, profundo amante da literatura e do teatro - , ao produzir, por exemplo, a biografia de Nelson Rodrigues, se privou de rastrear, impetuosamente, a trajetória do seu anjo pornográfico? A pergunta poderia ser desnecessária, porém é indispensável para enfatizar que
o jornalista contador de histórias deve seguir alguns princípios epistemológicos do jornalismo responsável. São eles: pesquisas, exploração de fontes, entrevistas, seleção de material e, por fim, a construção da narrativa.
O jornalista-biógrafo Lira Neto, autor de O poder e a peste - a vida de Rodolfo Teófilo (2000), Castello – a marcha para a ditadura (2004), O inimigo de rei – uma biografia de José de Alencar (2006) e Maysa – Só numa multidão de amores (2007), conta como foi seu mergulho na construção deste último trabalho:

"Para escrever este livro, pesquisei em cerca de 100 mil recortes de jornais e revistas: entrevistas, artigos, críticas, notas, reportagens. Textos em português, inglês, francês, italiano, espanhol. Os recortes, fornecidos pela família da cantora e que foram colecionados pela própria Maysa, fizeram o mapeamento completo de sua trajetória artística. Também tive acesso irrestrito aos diários íntimos dela. Escritos confessionais, anotações sobre o cotidiano, a vida familiar, os romances, os bastidores de carreira, a forma singular de uma mulher incomum ver o mundo. Havia também uma tentativa inacabada de autobiografia, poemas, letras de música, algumas delas inéditas (NETO, 2007, p. 336)".

Pelo relato de Lira Neto, fica perceptível a profundidade da indefessa pesquisa que o autor desenvolveu para escrever a biografia da cantora Maysa. Evidente que nem todos os personagens vão oferecer esta gama de fontes. Tudo vai depender da ‘"statura" do biografado – no caso de Maysa, nem seria preciso citar que estamos falando de um dos maiores cartazes da música popular brasileira. No entanto, mesmo para personagens de ‘"porte menor" (bom lembrar que esses não existem, pois estamos falando de seres humanos) , a técnica de pesquisa deve se aproximar da praticada por Lira Neto:
é preciso estancar todas as fontes.


NO PRÓXIMO POST: O caráter das fontes

Outros textos da série


#Jornalismo&Literatura (parte 1) | O jornalismo contador de histórias

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas



Imagem: tirei daqui

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


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sexta-feira, 9 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas


No prefácio de Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (Mônica Martinez, 2008), o professor Edvaldo Pereira Lima apresenta a proposta do Jornalismo Literário Avançado – segmento que liquefaz jornalismo e literatura –, que se aproxima da proposição do biografismo; se entrelaça com a visão de Martinez; e está enquadrado com os pressupostos do New Journalism – construção cena a cena, diálogos, reconstituição minuciosa, alternância de foco narrativo, dentre outros. Segundo ele, “trata-se de uma abordagem – sustentada conceitual e metodologicamente – que busca conceder à narrativa jornalística de profundidade uma visão de mundo complexa, sistêmica, integrada. Na complexidade, o mundo é encarado sob uma ótica em que o objetivo e o subjetivo convivem, na qual os elementos do consciente e os conteúdos do inconsciente transitam”.

Em outras palavras, entendo que, no caso do jornalismo, a literatura pode, senão abolir, atenuar o que Luiz Milman, jornalista e mestre em Filosofia, chama de ‘noticiarismo’, ou seja, a industrialização da notícia, a preocupação em fazê-la circular rapidamente, resultando em um fazer jornalístico pouco consistente – o que leva jornalistas veteranos a acreditarem que o jornalismo contador de histórias morreu, como concebeu Pedro Bial. E o mal do noticiarismo atinge, principalmente, a reportagem, “modalidade jornalística deprimida nas redações de hoje”, conforme Milman.

Diante da volumosa demanda de informações – agora ainda mais estratosférica com o boom das redes sociais –, a reportagem não tem forças suficiente para “disputar” com a insana e irrefreável industrialização da notícia. E, ironia ou não, é na literatura que o segmento encontra espaço, substância e retorna ao intuito principal, o de se aprofundar nas histórias, e destas garimpar outras, moldando-as a uma linguagem fugidiça ao corriqueiro .

Para o jornalista e escritor Juremir Machado Silva, “o grande problema do jornalismo contemporâneo vem do seu ideal de expressão (conteúdo) máxima, com expressividade (forma) mínima. Em outras palavras, o jornalismo quer dizer muito com pouca literatura. Houve uma fase em que a ruptura com o modelo literário se impunha e significou uma libertação para o texto jornalístico. Hoje o fosso existente determina, cada vez mais, um desconhecimento pelo jornalista, da textura literária das palavras. A ambiguidade esconde-se, travessa, na superfície dos textos que dizem aos seus autores o que eles não podem interpretar”.

Interpretar: em uma palavra, pode-se dizer que este é um dos fundamentos do jornalismo literário ou jornalismo não periódico. No dia a dia, jornalistas se defrontam com milhões de histórias e personagens, todos rudimentares à prática do ofício. Porém, é inegável que existem histórias e personagens que, naturalmente, não consentem que lhes seja arrancada sua magia, como refletiu Martinez. Mercantilização e imediatismo não têm vigor diante deles. Nesse contexto, entram em cena, por exemplo, as biografias, os livros-reportagem, que exercitam o que, em regra, o jornalismo cotidiano não ousa experimentar, conforme a crítica de Daniel Piza, que diz: “é preciso [o jornalismo] perder o medo de usar palavras menos óbvias, fugir ao lugar-comum, costurar melhor descrições e argumentos, acrescentar pitadas de humor, ironia e até lirismo, usar recursos como metáforas, trocadilhos e mudanças de andamento. É preciso diversificar os gêneros. [...] O jornalismo deve perder a submissão ao que considera ser realidade, a submissão às versões oficiais e ideológicas sobre os fatos, para conseguir ir além deles. O resultado, a língua agradece”.

Entretanto, tal atrevimento exige que o jornalista, antes de ser contador de histórias , seja um escafandrista. É preciso mergulhar nos fatos, na história, nas memórias, no improvável e, principalmente, na magia. Afinal, as palavras de Piza deixam às claras que o contador de histórias deve estar agasalhado de muita argúcia, um dos requisitos basilares para burilar narrativas consistentes e instigantes.


MERGULHE:

Dois gêneros separados pela mesma língua, in: Jornalismo e Literatura - A Sedução da Palavra" (Escrituras, 2003) – De Daniel Piza


A miséria do jornalismo brasileiro: as (in) certezas da mídia. Petrópolis: Vozes, 2000 – De Juremir Machado da Silva


A metodologia do jornalismo: breve excurso sobre a natureza de um conflito. Revista Tendências na Comunicação. Porto Alegre: L&PM, 1998 – De Luiz Milman



Na foto: Nelson Rodrigues [www.jornale.com.br]

Escafandro: SXC

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


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