terça-feira, 22 de junho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 1) | O jornalismo contador de histórias

Se as técnicas do jornalismo são executadas conforme o tipo de veículo - impresso, televisivo, radiofônico e digital -, no final dos procedimentos lá estará a emoção que reúne os usineiros da imprensa. Independente do meio, todos têm a mesma missão: captar histórias e personagens, elementos substanciais para a tecelagem de notícias e de reportagens.

No e
ntanto, nem sempre histórias e personagens conseguem transcender os padrões que moldam a atividade jornalística. Talvez a objetividade - quesito constitucional na produção de informações - e as premissas dos manuais de redação sejam as responsáveis por uma multiplicidade de narrativas superficiais, que trazem protagonistas com identidades pouco sólidas. Em Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (2008), Mônica Martinez, doutora em Ciências da Comunicação e Artes pela Universidade de São Paulo, citando a autora Ana Barros, compreende que “desde o seu nascimento, o jornalismo brasileiro exclui, na maioria dos casos, a visão mágica de suas páginas, ainda que elas continuem permeando o dia-a-dia de boa parte de seus leitores”. Martinez também avalia que a falta de magia nos conteúdos informativos configura seres humanos muito pequenos, pois são reduzidos apenas a nomes, idades e categorias profissionais. “São pessoas ouvidas às pressas para reclamar de algo ou dar sua opinião sobre um determinado assunto”,

A autora é defensora da crença de que a atividade jornalística, incorporada à inquietação de que é preciso um mer
gulho mais profundo nas histórias de vida, pode resgatar a “humanização perdida nos textos jornalísticos”. Não deve ser entendido, no entanto, que o jornalista precisa edulcorar suas produções com suculentas compotas de romantismo, ou seja, “de lançar luzes benévolas e afáveis na construção de perfis de polianas imaginárias”, segundo a autora, que esteia sua arguição com o sensorialismo crítico do jornalista Manuel Carlos Chaparro, docente e pesquisador da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Em sua obra Linguagem dos Conflitos (2001), Chaparro suscitou o questionamento ‘o que é ser jornalista?’ Como resposta, utilizou a acepção oferecida por Pedro Bial:

"Provocado por essa pergunta, numa entrevista, Pedro Bial, repórter e apresentador da televisão brasileira, respondeu com uma frase que sintetiza, há décadas, a visão romântica do jornalismo: “Nós somos contadores de histórias...”. (...) Também já fui contador de histórias. (...) Mas esse jornalismo contador de histórias morreu por falta de espaço e função. É prazeroso relê-lo, reactiva sonhos e lembranças. Mas não tenho sau
dades dele, a não ser pela carga de humanização que o temperava, e que falta no jornalismo de hoje”".

Foi a preocupação dos jornalistas-humanistas, ou - conforme a compreensão de Bial - dos contadores de histórias que promoveu o encontro entre jornalismo periódico e literatura. Essa confraternização concebeu o que mais tarde foi alcunhado de Jornalismo Literário, e depois de Jornalismo Literário Avançado (JLA), categoria que, segundo entendimento de Edvaldo Pereira Lima - professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo -, “é uma modalidade de prática de reportagem, da grande reportagem e do ensino jornalístico que combina características do Jornalismo Literário com concepções oriundas de paradigmas de ascensão tanto nas ciências quanto em diversos outros campos de conhecimento contemporâneo, formando uma radicalmente nova concepção da realidade”. No Brasil, exemplo clássico é o romance-reportagem do século XIX Os Sertões, fruto do trabalho de correspondência de Euclides da Cunha na Guerra dos Canudos para o jornal O Estado de S. Paulo. Porém, o Jornalismo Literário chegaria à culminância na década de 60 do século passado - nos Estados Unidos, por meio das peripécias jornalísticas de Gay Talese e Tom Wolfe, dois dos maiores preconizadores do New Journalism; no Brasil, a revista Realidade foi o grande ateneu de jornalistas contadores de histórias.


No próximo texto da série Jornalismo & Literatura: A proposta da literatura para o jornalismo; o jornalismo literário na construção de histórias de vida
** Textos adaptados (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)
Share |

4 comentários:

  1. Daniel, que reflexão de faro apurado! Em uma mesa-redonda que participei, um simpósio de jornalistas, apontei exatamente esse vácuo de discussão no campo das narrativas. Informar é diferente de contar histórias e uma coisa não exclui a outra. Vc. é muito bom! Fico feliz em ter te encontrado por aqui. Vou anotar algumas fontes bibliográficas.

    bjs domingueiros

    ResponderExcluir
  2. Glória, querida, eu é que tive a sorte grande de encontrá-la! Estou gratíssimo pela atenção e palavras - aliás, vitais para que eu continue nessa estrada tão intricada - e ao mesmo tampo tão excitante - que é o jornalismo, que é o contar histórias, a literatura, enfim. Grande beijo!

    ResponderExcluir
  3. Fiquei curiosa - como seria isso? Informar e contar histórias? Informar é contar uma história a partir de um "Eu"...Já a história do sujeito, ah! essa lhe é desconhecida...
    Não me leve a sério, vivo de associações livres...rs
    Abraços.

    ResponderExcluir
  4. Oi, Claudia.

    Então, a proposta é dar uma esmaltada literária nas histórias jornalísticas, sobretudo nas histórias de vida. E isso consiste em se aprofundar, fugindo do noticiarismo e mostrando mais interesse pelos detalhes, pela essência. E não, nem sempre o jornalista é um contador de histórias. Hoje em sia somos mais factuais. Falta magia.

    Abraço,

    Daniel

    ResponderExcluir