terça-feira, 29 de junho de 2010

#Delíryos | Fragmentos de uma crônica

Fragmentos do capítulo 4 - É preciso ter alma -
do meu livro-reportagem - Oscar: uma crônica maroniana.
O trecho narra uma das minhas incursões pelo Bahamas Club,
boate de Oscar Maroni, personagem central do livro.


(...) Barra Funda, Brigadeiro, ônibus, trem, metrô. Enfim chego à terra de Maroni, Moema. Vale lembrar que, de transporte público, eu não sabia como chegar ao Bahamas – tampouco ao escritório de Oscar, onde conversaríamos. Mas, como diz o velho e triturado ditado, quem tem boca vai a Roma (ou vaia Roma - de vaiar -, sei lá). Sei que não precisei ir tão longe. Cheguei à Avenida dos Carinás, 512. O relógio marcava 19h10.

Encostei o rosto, que suava em bicas, na janela fumê. Não havia ninguém no local. Era o que parecia. Segundos depois aparece um rapaz gordinho. Pergunto por Oscar.

__ Ele não está. Você é o Marcos?

__ Não – respondi. Meu nome é Daniel...

__ Ah, você é do TCC? Ele está no
Bahamas, aqui na rua debaixo.

Corri para o parque de diversão do Maroni. Rua dos Chanés, 571.

Então é aqui o ‘castelo’ do “rei das noites de São Paulo”? Enfrentei mais uma porta espelhada. Apertei a campainha e, rapidamente, fui atendido por um homem mulato de olhos puxados. Ou inchados, talvez:

__ Boa noite, tenho horário marcado com
Oscar Maroni.

Desconfiado:

__ O Seu Oscar foi almoçar...

__ Almoçar? Mas já são quase oito horas da noite! Respondi num impulso.

Pela voz do homem, lembrei que ele havia me boicotado em uma das tentativas de falar com Maroni por telefone.

__ Só um minuto – disse e entrou.

Em seguida surge outro homem, um senhor baixinho, esbanjando uma acanhada simpatia.

__ Quer falar com o Seu Oscar? Ela já vai te atender.

Os anjos também habitam o reino de Oscar, pensei. O mulato retorna e me convida a entrar. Não fiz questão de disfarçar. Com muita avidez, meus olhos devoraram a recepção. Quis absorver cada detalhe do cenário. Mas eu não estava sozinho.


De um lado, duas lindas mulheres. Uma branca e outra negra. Estavam nuas e felizes por exibirem formas tão perfeitas. De costas para mim, mas com olhos atentos à retaguarda, as duas se envolviam voluptuosamente. Não faziam questão de moderar na posição lésbica que entrelaçava os dois corpos. Uma apalpava as nádegas da outra e, sem esforço algum, roubavam meu olhar.

Não muito longe da dupla étnica de mulheres, outra mulher, preguiçosamente, expunha o desenho avantajado do seu corpo. Pele muito branca, cabelos acobreados, traços – boca e nariz – finos e olhos sonolentos. Pensamento distante. Parecia não me notar.

(...) De repente, eu imaginei que, sim, era assim que os clientes estroinas do
Bahamas Club eram recepcionados. Lindas mulheres os hipnotizavam logo na entrada. Entrada muito estreita, o que não deixa Maroni mentir quando diz que o Bahamas é o único lugar do Brasil que tem as mulheres mais bonitas por metro quadrado.

(...) O gordinho que me atendeu no escritório “anexo” chega ao
Bahamas. Oscar o chamou de Aruã, e Aruã o chamou de pai. Rapidamente falaram sobre uns contratos. O jovem entrou no salão, e Oscar me convidou para subir até a sua sala.

__ Vamos conversar, companheiro - e virando-se: Dociiiiiiiiiiinho!!!

Não, ele não me chamou de “docinho”. Explico: Docinho é a sua inseparável cadela maltês. O
pet de nome adocicado surge e, brejeiro, abre caminho para Oscar.

Deslumbrado com o início da investida jornalística, eu não acreditava que estava cara a cara com um dos homens mais polêmicos do Brasil. Espero que por trás desse olhar carrancudo esteja um “docinho” de ser humano. Foi o pensamento, pronto e pseudojocoso, que, ligeiramente, consegui esboçar.

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12 comentários:

  1. 'Livro-Reportagem' agora é o outro nome pra descaramento, é, Daniel? hehehe
    Vadiagens à parte, gostei do estilão: mistura de biografia, reflexões do narrador, retrato mesmo de um universo por si só atraente.
    Vc escreve bem, tem controle, conduz o texto com firmeza. Acho que ainda é cedo demais pra falar, mas me parece que vai ficar bom. De primeira, mesmo, gostei dessa mistura de investigação com reflexões pessoais do narrador (você mesmo? sei. té parece que vc ia num lugar desses pra ficar conversando com homem careca...)

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  2. Parreira, deixa eu começar 'babando o ovo': grato pela visita, pela palavras, análise e tal.Já era, você é meu guru! Rs! Mas nem por isso te dou liberdade de jogar meu nome na lama! Eheheh! Garoto tímido, antiquado, careta e trágico ía fazer o que no Bahamas? REPORTAGEM! E conversar com homem careca também! Ehehehe! Agora falando sério: valeu mesmo! Abraço, man!


    Ao comentarista do "Bares, bêbados...": que sacanagem o que, rapaz! Isso aqui é coisa séria!Rs! Tá, tudo bem, você manda. Vou te dar mais "alegrias e afins". Nos próximos trechos, trarei letras mais picantes, tudo bem? Grato pela visita e comentário! Para a minha alegria, volte sempre! Abraço!

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  3. Daniel, acho que sabes, sou antropóloga. Li de Ginzburg que o primeiro pesquisador foi o caçador, que se acocorava para farejar pistas. Você é um jornalista "caçador", um homem que sabe usar o corpo para pereceber os movimentos do que se observa, do que exige a demora do olhar. belo! quero continuar lendo! bjs

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  4. Ai menino, que curiosidade me deu!
    Louca estou pra ver op restante. hehehe
    Adorei seus escritos.
    Beijos de estrelas pra você!

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  5. Glória, linda essa história de caçador, hein? Suas palavras sempre me são vitais!Muito grato! Beijão!

    Tili, que surpresa tê-la aqui! Você é uma grande querida! Grato e super beijo!

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  6. Gostei bastante, Daniel. Deu vontade de ler mais.

    Um abraço!

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  7. Brunão, o Chimpanzé pensante! Honrado com a visita! Você pede, manda, e eu atendo: em breve vou publicar outros trechos! Ah, e quero ler mais do teu também!

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  8. OK... ponto para ti que além de um lindo paulistano tímido e dramático, ainda é jornalista, escritor e um "fofo"? Ahhh, amei este fragmento e fiquei com vontade de "mais". Paulista também, moradora de Moema e Vl. Nova Conceição, vizinha de Maroni, figura presente nas crônicas de "Sampa", sincera e polêmica, fiquei completamente PRESA na leitura. Beijos para ti ;)

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  9. Ai... Os preâmbulos me enlouquecem... fica o "quero mais" quero o livro inteiro - rss
    Daniel, desconsidere esta minha linguagem “clownesca”. Falando sério... você tem um lindo domínio sobre a palavra, sobre a sequência dos fatos e mais, sabe tecer as teias por onde sutilmente, há de emaranhar o leitor. Imenso prazer conhecê-lo.
    Bjs
    :)

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  10. E eu adoro a sua "linguagem clownesca" Estou transbordando de gratidão. Suas palavras, suas críticas e seu crivo serão sempre importantes para este garoto trágico aqui! Prazer imenso em conhecê-la também! Beijos!

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  11. Queria ler seu livro daniel

    como faço?

    ordofe@yahoo.com.br

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