segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

#Delíryos | Mais uma crítica capenga de TV

No antepenúltimo post eu tentei encarnar o “crítico de TV”, perceberam? Mas, na verdade, não tenho essa pretensão. Acreditem. Sou apenas mais um ‘bedelhudo’. No entanto, vou repetir a dose – porém, desta vez, em porção bem menor (todavia, sempre capenga). Permitam-me escrever poucas e parvas linhas sobre a novela Tempos Modernos? Depois de um mês de exibição, ainda cabe taxá-la de “a nova novela das 7”?

Questionamentos a parte, a verdade é que simpatizei com o folhetim, apesar de não acompanhá-lo com frequência. O cenário da novela, para mim, é o primeiro atrativo – São Paulo é sempre maravilhosa, embora, na ficção, esteja ainda mais bonita (romântico, quero acreditar que a beleza fictícia seja um prenúncio de como será a minha terra nos “tempos modernos” da vida real).

A crítica de Bosco Brasil, o autor, é extremamente válida, original e reflexiva. Medo, ganância e avidez pelo virtual são os três elementos principais que sustentam o enredo. Um homem pobre consegue crescer na vida e, para proteger a família – e um pouco mais –, constrói o Titan, um edifício-monstro, verdadeira cidade feita de trocentos andares. Não satisfeito, ele ainda quer mais. Então arruma confusão com o presidente da associação de uma galeria que é referência cultural no centro paulistano – afinal é imprescindível construir outros Titans. Agora a cobiça fala mais alto (e viva o capitalismo!). E a quimera dessa trama fica por conta das centenas de câmeras, sempre atentas a tudo o que acontece no mega condomínio (um “show de Truman”). O arsenal é comandado pelo engenhoso Frank, computador e “ombro amigo” de Leal (Antônio Fagundes), o ex-homem pobre.

A discussão mostra quão mecânica e previsível é a vida dirigida pela tecnologia, sobretudo. Viver num prédio luxuoso e confortável é sonho da maioria – o que não é nada condenável –, e hoje se tornaram comuns projetos habitacionais que prometem o mundo dentro de muros. Tudo pela “segurança”. Ledo engano. Desde quando existe segurança sem liberdade? Olha só a paranoia do ser humano! E egoísmo também. Funciona assim: você pode comprar a sua “segurança”? Então feche “a janela para não ouvir as mazelas do outros”, como canta a talentosa Roberta Sá. Resultado: perde-se calor humano. Logo só nos restam os computadores (os Franks) – estes sempre serão “úteis” para a troca de confidências, desabafos, diversão e para lembrar momentos marcantes da nossa trajetória. Pensar? É possível ter um cérebro eletrônico – no caso de Leal, uma sala com telas gigantes que projetam imagens importantes de sua vida; já os simples mortais têm o e-mail, o celular, o HD, a webcam, Ipod, Iphone, Ipad...

Diante disso, não é temerário afirmar que a modernidade, quase sempre, é fria e impalpável. Palmas ao Bosco pelo debate mais que necessário. Sem citar o texto, que, além de leve e inteligente, resgata a marca do horário: a comédia, o pastelão, o besteirol – sem cair no ridículo e no gratuito, como vinha acontecendo na últimas tramas.


Imagem: Divulgação
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