quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

#Delíryos | Mesa redonda

Pouco mais de um mês, publiquei um post sobre o tema (abundante) "histórias de vida". O texto aborda a celeuma que ronda a produção autobiográfica. Acabei citando o caso do jogador Nicola Legrottaglie, que, ao escrever um livro contando a sua trajetória, aproveitou para criticar o homossexualismo. Mas, toda essa minha ladainha não é para discutir ainda mais as polêmicas das autobiografias e biografias. Citei que Legrottaglie é "zagueiro do Juventus". No entanto, acabo de receber um e-mail do amigo Bruno Favoretto, que é PhD em futebol (eu não entendo, admito). Vou confiar no QI do rapaz e publicar a curiosidade enviada por ele. Se diz ou se escreve "do Juventus" ou "da Juventus"? Favoretto, com o perdão do trocadilho, por favor, responda!

"A título de curiosidade, se diz "dA Juventus". Afinal, a Itália é o único país do mundo que possui poucos "clubes" de futebol, efetivamente. Em sua maioria, os times são chamados de "associações esportivas" (associazione) ou sociedades (società). Portanto, o correto é chamar pelo gênero feminino - são raras as exceções na primeira divisão em que se usam o gênero masculino, como no caso do Milan (que é uma associação mas leva "clube" em seu nome), Genoa, Livorno e Bari. No mais, parece uma coisa ridícula, mas para quem acompanha há tempos o Calcio (como é chamado o futebol na Velha Bota), soa muito esquisito ler, ouvir "do" no lugar de "da". Aliás, sabemos também que chamam esses clubes por artigos masculinos por causa de influência da Globo, que acredita ser mais próxima essa semântica ao povo brasileiro, acostumado com "Os" clubes. Porém, a mídia especializada faz questão de corrigir a cagada porque sabe que os amantes do futebol italiano são talibãs".

Perceberam que o moço é entendido? Golaço? Considerei bacana trazer a público a "carcada" do velho Bruno - corrigiu sem dó, disse que meu texto o incomodou, soou "esquisito", que sou influenciado pela Globo e, por isso, fiz a "cagada" de escrever "do Juventus". E, nas entrelinhas, alertou: cuidado, os italianos são bravos mesmo! Será que ele ficou furioso?

Brincadeiras a parte, achei tudo divertido. E o Bruno nem foi tão intencional, mas acabou promovendo uma "mesa redonda" (com um debatedor só, claro!). De quebra, ainda enviou uma matéria que falava sobre uma das biografias de J. D. Salinger, escrita por sua filha, Margaret Salinger. Na obra, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio "é retratado como egoísta e cruel". Já Kenneth Slawenski, em A Life Raised High, revela que Chaplin roubou o grande amor da vida de Salinger. Quem diria, hein? Vão pensando que Chaplin era arredio e caricato como Carlitos, vão!

É isso. O assunto "histórias de vida" é inesgotável (e atrai outros). Pelo menos para mim, essa "abundância" é um orgasmo. Enquanto o ser humano não for extinto (ô, raça!), teremos muito o que conversar, seja em blogs, jornais, bares, no ônibus, e-mail, enfim.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

#Delíryos | Mais uma crítica capenga de TV

No antepenúltimo post eu tentei encarnar o “crítico de TV”, perceberam? Mas, na verdade, não tenho essa pretensão. Acreditem. Sou apenas mais um ‘bedelhudo’. No entanto, vou repetir a dose – porém, desta vez, em porção bem menor (todavia, sempre capenga). Permitam-me escrever poucas e parvas linhas sobre a novela Tempos Modernos? Depois de um mês de exibição, ainda cabe taxá-la de “a nova novela das 7”?

Questionamentos a parte, a verdade é que simpatizei com o folhetim, apesar de não acompanhá-lo com frequência. O cenário da novela, para mim, é o primeiro atrativo – São Paulo é sempre maravilhosa, embora, na ficção, esteja ainda mais bonita (romântico, quero acreditar que a beleza fictícia seja um prenúncio de como será a minha terra nos “tempos modernos” da vida real).

A crítica de Bosco Brasil, o autor, é extremamente válida, original e reflexiva. Medo, ganância e avidez pelo virtual são os três elementos principais que sustentam o enredo. Um homem pobre consegue crescer na vida e, para proteger a família – e um pouco mais –, constrói o Titan, um edifício-monstro, verdadeira cidade feita de trocentos andares. Não satisfeito, ele ainda quer mais. Então arruma confusão com o presidente da associação de uma galeria que é referência cultural no centro paulistano – afinal é imprescindível construir outros Titans. Agora a cobiça fala mais alto (e viva o capitalismo!). E a quimera dessa trama fica por conta das centenas de câmeras, sempre atentas a tudo o que acontece no mega condomínio (um “show de Truman”). O arsenal é comandado pelo engenhoso Frank, computador e “ombro amigo” de Leal (Antônio Fagundes), o ex-homem pobre.

A discussão mostra quão mecânica e previsível é a vida dirigida pela tecnologia, sobretudo. Viver num prédio luxuoso e confortável é sonho da maioria – o que não é nada condenável –, e hoje se tornaram comuns projetos habitacionais que prometem o mundo dentro de muros. Tudo pela “segurança”. Ledo engano. Desde quando existe segurança sem liberdade? Olha só a paranoia do ser humano! E egoísmo também. Funciona assim: você pode comprar a sua “segurança”? Então feche “a janela para não ouvir as mazelas do outros”, como canta a talentosa Roberta Sá. Resultado: perde-se calor humano. Logo só nos restam os computadores (os Franks) – estes sempre serão “úteis” para a troca de confidências, desabafos, diversão e para lembrar momentos marcantes da nossa trajetória. Pensar? É possível ter um cérebro eletrônico – no caso de Leal, uma sala com telas gigantes que projetam imagens importantes de sua vida; já os simples mortais têm o e-mail, o celular, o HD, a webcam, Ipod, Iphone, Ipad...

Diante disso, não é temerário afirmar que a modernidade, quase sempre, é fria e impalpável. Palmas ao Bosco pelo debate mais que necessário. Sem citar o texto, que, além de leve e inteligente, resgata a marca do horário: a comédia, o pastelão, o besteirol – sem cair no ridículo e no gratuito, como vinha acontecendo na últimas tramas.


Imagem: Divulgação
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