segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

#Delíryos | Os anjos também pecam


Imagine um clube de amigos em que o maior objetivo é tratar de “assuntos gastronômicos”, “forrar o estômago”, fazer a famosa “boquinha”, e que “boquinha”! Um clube onde os integrantes se reúnem religiosamente para deliciar bons e refinados pratos. Este é o mote de O Clube dos Anjos, romance-crônica escrito pelo tímido e sempre divertido Luis Fernando Veríssimo. À marca do autor, o humor, são adicionados os deliciosos ingredientes que todos adoram degustar em um texto: mistério e suspense. Se fossemos adjetivar o enredo em apenas uma palavra, esta seria ‘instigante’.

Da série Plenos Pecados, lançado pela Editora Objetiva, com o intuito de “brincar” com os famosos sete pecados capitais, O Clube aborda o voraz pecado da gula.

Os protagonistas são dez amigos, todos batizados com nomes bíblicos, exceto o homossexual Ramos, personagem que só aparece na narrativa por meio das lembranças dos integrantes do Clube do Picadinho, como denominaram o círculo, pois no início da história o leitor já é avisado de que o grande personagem morreu de Aids.

Nos primeiros parágrafos da narração o autor deixa claro que o Clube do Picadinho está passando por um momento de depressão, talvez iniciada com a morte de Ramos. Daniel, o narrador, é o mais apaixonado pelo grupo. E, ao conhecer o misterioso e taciturno Lucídio – distinto cozinheiro formado na França –, decide promover a “ressurreição” do clube. Lucídio seria o cozinheiro exclusivo dos amigos, que em vida só se dedicaram aos prazeres do estômago.

De início, Abel, Pedro, Paulo, Saulo, Marcos, Tiago, João, Samuel e André – substituto quase invisível de Ramos – ficam intrigados com a figura exótica do cozinheiro Lucídio – participante de uma sociedade secreta japonesa que reúne os ‘sócios’ uma vez por ano em Kushimoto, no Japão, para saborearem o fugu recém-pescado; a cada reunião, morre um participante, pois o fugu é um peixe envenenado que, mal preparado, pode matar em segundos. O aroma da morte era a grande excitação dos parceiros da coletividade nipônica.

Os dez amigos do Picadinho ficam animados com a ideia de revitalização da agremiação gastronômica e decidem que os jantares acontecerão no vazio apartamento de Daniel. Então começa o grande enigma do pós-jantar, pois, consecutivamente, morre um personagem – sempre o que, exacerbadamente, saboreia o cardápio do chef Lucídio. A morte se encarrega de levá-los seguindo uma ordem alfabética. É curioso que o cozinheiro sabe que a causa mortis é a mesma para todos os casos: problema cardíaco. Será?

De grande mestre-cuca, Lucídio passa a ser visto pelo grupo como a morte travestida de avental, mas a gula sempre aperta os estômagos, fazendo os amigos continuarem a percorrer a macabra trilha - fazem isso também em respeito à memória dos falecidos, mas principalmente pelo ávido desejo de devorar cada receita preparada, quiçá, com uma pitada de veneno, pelo exclusivo e soturno coque do grupo.

Ao mesmo tempo em que o leitor se assusta com a série de mortes, o autor consegue amenizar o ‘susto’ com boas colheradas de humor. Também leva-nos à reflexão: “onde vamos parar quando temos um inveterado desejo, ainda que esse desejo seja o de devorar pratos e pratos de deliciosas receitas?” (Além de ganharmos alguns quilos, é claro) “Qual é o nosso limite?” Talvez a possível máxima japonesa na epígrafe do livro – “todo desejo é um desejo de morte” – possa responder.

A trama também é recheada de motejos e paradoxos, como por exemplo, a palavra “anjos” no título – um grande deboche aos dez amigos, que, satirizados, só ganham o nimbo celestial depois de levados pela morte. Além das brincadeiras do texto, Veríssimo, em alguns trechos, faz alusão ao clássico Rei Lear, de Shakespeare, ou ao dramático Filoctetes, personagem mitológico que, por ter uma ferida supurante, ninguém queria tê-lo por perto. Era assim que os amigos se sentiam quando todos olhavam os glutões com maus olhos – por causa das mortes em série, foram impedidos de entrar nos velórios dos últimos mortos. “Cheirávamos à mortalidade”, filosofou Daniel. Outra brincadeira é que o texto pode parecer estranho, portanto o autor assim o fez de propósito, pois o narrador é um escritor de histórias estranhas.

O desfecho poderia ser mais um lugar-comum, tão peculiar nas histórias de suspense, mas Veríssimo, com muita originalidade, coroa o final da crônica com uma revelação inconcebível. O leitor atento vislumbrará que os pecados capitais nunca vêm sozinhos. Nesse caso, a gula veio escoltada por outros pecados, como revela o final.


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Um comentário:

  1. Opa! Desse eu manjo! Sou fã número 1 do Verissimo. Simplesmente genial, quase tudo o que ele produz. Abraço!

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