domingo, 10 de janeiro de 2010

#Delíryos | Dalva e Herivelto: canção de amor sem fim


Sempre haverá alguém para alfinetar as produções televisivas, mesmo quando a telinha exibe programas tão primorosos, como aconteceu na última semana, quando milhões de brasileiros conheceram – ou relembraram – a história de dois dos maiores cânones da música brasileira – Dalva de Oliveira e Herivelto Martins –, contada com muito esmero por Maria Adelaide Amaral em Dalva e Herivelto: uma canção de amor.

Quando li nos jornais e internet que a Rede Globo presentearia seus telespectadores com a minissérie, embarquei numa contagem regressiva, pois sou – e muito – saudoso de épocas que não vivi. Além disso, tenho fixação por histórias de vida, e algumas narrativas reais não podem, jamais, serem relegadas ao limbo. Para isto é que existem livros, TV, cinema, teatro e jornais – ainda que estes não tenham ânimo para reportagens biográficas.

Para quem apontou uma, duas ou centenas de firulas – leia-se “defeitos” – no seriado, faço o favor de lembrar que, quando se trata de personagens reais, os autores nunca vão delineá-los com o mais alto traço de perfeição – se este existir –, ainda que eu tenha atribuído o justo adjetivo “primoroso” à obra. E se os “defeitos” estavam nos fatos – o que considero impossível –, ou na abordagem – alguns vão reclamar, dizendo que o mais importante é o legado musical do casal e não as brigas homéricas que tiveram –, lembro também que dramaturgia, quase sempre, é feita, basicamente, por dois elementos óbvios: amor e intriga. Mas a obra de Maria Adelaide Amaral teve muito mais.

Além do roteiro leve e do prodigioso trabalho de arte, um dos quesitos que me chamou atenção foi o tratamento semiótico dado à cronologia da narração. O inicio da trajetória dos cantores, os tempos românticos – profissional e pessoal –, foram tingidos pelo dourado da era do rádio. A fotografia foi marcada por imagens sepiadas, que contrastaram com o vívido vermelho do batom de mulheres exuberantes, com o brilho do figurino das vedetes, o colorido acentuado e elegante das roupas, o branco do panamá dos chapéus dos homens, o lustre dos automóveis antigos e outros detalhes da época. Já o período degradante da vida de Dalva e Herivelto – anos 60 e 70, quando a TV abaixou o volume do rádio – foi desenhado por imagens igualmente frias, azuladas, nevoadas, capazes de oscilar o psicológico dos telespectadores. De repente as cenas de ouro eram bruscamente cortadas pelo azul depressivo que ilustraria os tristes capítulos do enredo de amor.

Impossível, também, não elogiar a atuação de Fábio Assunção. Arrisco-me a registrar que foi o seu mais perfeito papel, e o melhor: provou que está novamente de bem com a vida e arte. E Adriana Esteve, mais uma vez, convenceu o público. Foi a escolha perfeita, pois consegue, como poucas atrizes, mesclar drama e comédia no mesmo personagem.

Dalva e Herivelto: uma canção de amor deixou um gostinho de “quero mais” – no sentido de desejar mais histórias –, quando mostrou o “príncipe” Ataulfo Alves, “o rei da voz”, Chico Alves, Emilinha Borba (palmas para a atriz Soraya Ravenle!), Dercy Gonçalves (Fafy, perfeita, já é a intérprete oficial da eterna comediante).

Uma firula: o Grande Otelo poderia ter sido mais caricatural, como foi na vida real – e baixinho também (na minissérie, fez jus somente ao “grande” do nome).

Minhas considerações provam que até mesmo os que se apaixonaram pela produção global e, principalmente, pelos intérpretes – ou aqueles que renovaram a paixão pelos astros do rádio – também integraram a “turminha das firulas”. E a principal reclamação, com certeza, foi: “Cinco capítulos foram poucos! Por que não fizeram uma novela?” E eu respondo: a vida de Dalva e Herivelto foi e ainda é – sem reducionismos – uma novela. Os “poucos” capítulos da série abriram caminhos para que todos se interessem em assistir muito mais – é o que se espera. Há muitos episódios para serem apreciados. Lembrem-se dos discos, dos vídeos (no YouTube, garanto, os cantores estão liderando a audiência), do Google e dos sebos, que têm Dalva e Herivelto em centenas de revistas antigas. Não esqueçam da vida real, que sempre será traduzida por uma só palavra: infinidade. Mesmo no caso de quem, há muito tempo, apenas de corpo, nos deixou, como Dalva e Herivelto.



Imagem: Divulgação
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3 comentários:

  1. A Dalva teve uma carreira solo e vida pessoal intensa, foram mais de 20 anos.Foi durante muito tempo cantora do primeiro time, mesmo com a bossa nova e outras "ondas".Carreira internacional muito bonita, na Argentina, onde morou dez anos com o marido porteno, teve até fan clube com mais de 10.000 sócios. Foi rainha dos músicos chileno.Até sua morte em 72, só não lançou discos em 61.A tal decadência foi a partir de 65, depois do desasatre de carro.Mesmo assim, aparecia muito na Tv, era lembrada nas revistas e jornais,(embora muito criticada).Lançou 3 Lps e vários compactos, 2 últimos clássicos do carnaval Máscara Negra e Bandeira Branca.Em determina do momento cantou em circo e churascaria, sim. Aqui no Brasil, morou numa casa com 21 cômodos. Nos últimos tempos, fez temporadas memoraveis: 3 vezes na casa noturna Salão de Viena, a última com Leila Dinis,temporadas, no teatro Teresa Raquel, Senac, um outro teatro em S. Paulo contando sua vida e tantas outras.Foi muito amada pelo público e sua morte comoveu o Brasil.Em Dalva e Herivelto, sua carreira solo não foi bem contada e não houve preocupação em mostrar sua voz.Parece que a intenção foi promover o Fábio Assunção.

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  2. Daniel, o que é bom vale a pena acompanhar! Valeu!

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  3. Daniel, o que é bom vale a pena acompanhar! Valeu!

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