domingo, 31 de janeiro de 2010

Tomás Eloy Martínez

Durante a produção do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) fiquei encantado com Tomás Eloy Martínez, escritor argentino. Final de domingo, 31, fuçando no trending topics do Twitter, deparo-me com a tag #TomasEloyMartinez. Pensei: será o lançamento de um livro? Não, não era. A mensagem publicada por uma usuária mexicana falava da morte do jornalista e grande soldado na luta contra a ditadura. Infelizmente, não venceu o cãncer.

Na minha monografia, citei uma das façanhas de Martínez em Santa Evita. Para homenageá-lo, publico o trecho:



No artigo A História do fim da análise, publicado em Biografia: sintoma da cultura (coletânea de estudos biográficos organizada por Fani Hisgail, 1997), o psicanalista Ricardo Goldenberg (1997) resgata um fato curioso do biografismo de Evita Péron, produção de Tomás Eloy Martínez (Santa Evita). Durante o confronto de informações referentes a união de Evita e Perón, veio à tona uma fraude do casal na certidão de casamento, que teve as informações confirmadas como verdadeiras por um escrivão público de Junín. No entanto, a verdade do enlace do lendário casal da Argentina dividia espaço com a realidade que os mesmos decidiram criar em torno de suas histórias. O casamento foi realizado dentro das formalidades legais, porém, os dados da certidão eram propositadamente artificiosos, como relatou Tomás:

"Perón mentiu o lugar da cerimônia e o estado civil; Evita mentiu a idade, o endereço, a cidade onde tinha nascido. Embora fossem imposturas evidentes, passaram-se mais de vinte anos antes de que alguém as denunciasse… Nenhum historiador, entretanto, teve a idéia de perguntar-se por que Perón e Evita mentiam. Não precisavam fazê-lo… Mentiram porque haviam decidido que a realidade seria, a partir de então, o que eles bem entendessem. Agiram, como agem os romancista" (MARTÍNEZ, 1995 apud
GOLDENBERG, 1997, p. 40-1).


Imagem: O Globo
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domingo, 10 de janeiro de 2010

#Delíryos | Dalva e Herivelto: canção de amor sem fim


Sempre haverá alguém para alfinetar as produções televisivas, mesmo quando a telinha exibe programas tão primorosos, como aconteceu na última semana, quando milhões de brasileiros conheceram – ou relembraram – a história de dois dos maiores cânones da música brasileira – Dalva de Oliveira e Herivelto Martins –, contada com muito esmero por Maria Adelaide Amaral em Dalva e Herivelto: uma canção de amor.

Quando li nos jornais e internet que a Rede Globo presentearia seus telespectadores com a minissérie, embarquei numa contagem regressiva, pois sou – e muito – saudoso de épocas que não vivi. Além disso, tenho fixação por histórias de vida, e algumas narrativas reais não podem, jamais, serem relegadas ao limbo. Para isto é que existem livros, TV, cinema, teatro e jornais – ainda que estes não tenham ânimo para reportagens biográficas.

Para quem apontou uma, duas ou centenas de firulas – leia-se “defeitos” – no seriado, faço o favor de lembrar que, quando se trata de personagens reais, os autores nunca vão delineá-los com o mais alto traço de perfeição – se este existir –, ainda que eu tenha atribuído o justo adjetivo “primoroso” à obra. E se os “defeitos” estavam nos fatos – o que considero impossível –, ou na abordagem – alguns vão reclamar, dizendo que o mais importante é o legado musical do casal e não as brigas homéricas que tiveram –, lembro também que dramaturgia, quase sempre, é feita, basicamente, por dois elementos óbvios: amor e intriga. Mas a obra de Maria Adelaide Amaral teve muito mais.

Além do roteiro leve e do prodigioso trabalho de arte, um dos quesitos que me chamou atenção foi o tratamento semiótico dado à cronologia da narração. O inicio da trajetória dos cantores, os tempos românticos – profissional e pessoal –, foram tingidos pelo dourado da era do rádio. A fotografia foi marcada por imagens sepiadas, que contrastaram com o vívido vermelho do batom de mulheres exuberantes, com o brilho do figurino das vedetes, o colorido acentuado e elegante das roupas, o branco do panamá dos chapéus dos homens, o lustre dos automóveis antigos e outros detalhes da época. Já o período degradante da vida de Dalva e Herivelto – anos 60 e 70, quando a TV abaixou o volume do rádio – foi desenhado por imagens igualmente frias, azuladas, nevoadas, capazes de oscilar o psicológico dos telespectadores. De repente as cenas de ouro eram bruscamente cortadas pelo azul depressivo que ilustraria os tristes capítulos do enredo de amor.

Impossível, também, não elogiar a atuação de Fábio Assunção. Arrisco-me a registrar que foi o seu mais perfeito papel, e o melhor: provou que está novamente de bem com a vida e arte. E Adriana Esteve, mais uma vez, convenceu o público. Foi a escolha perfeita, pois consegue, como poucas atrizes, mesclar drama e comédia no mesmo personagem.

Dalva e Herivelto: uma canção de amor deixou um gostinho de “quero mais” – no sentido de desejar mais histórias –, quando mostrou o “príncipe” Ataulfo Alves, “o rei da voz”, Chico Alves, Emilinha Borba (palmas para a atriz Soraya Ravenle!), Dercy Gonçalves (Fafy, perfeita, já é a intérprete oficial da eterna comediante).

Uma firula: o Grande Otelo poderia ter sido mais caricatural, como foi na vida real – e baixinho também (na minissérie, fez jus somente ao “grande” do nome).

Minhas considerações provam que até mesmo os que se apaixonaram pela produção global e, principalmente, pelos intérpretes – ou aqueles que renovaram a paixão pelos astros do rádio – também integraram a “turminha das firulas”. E a principal reclamação, com certeza, foi: “Cinco capítulos foram poucos! Por que não fizeram uma novela?” E eu respondo: a vida de Dalva e Herivelto foi e ainda é – sem reducionismos – uma novela. Os “poucos” capítulos da série abriram caminhos para que todos se interessem em assistir muito mais – é o que se espera. Há muitos episódios para serem apreciados. Lembrem-se dos discos, dos vídeos (no YouTube, garanto, os cantores estão liderando a audiência), do Google e dos sebos, que têm Dalva e Herivelto em centenas de revistas antigas. Não esqueçam da vida real, que sempre será traduzida por uma só palavra: infinidade. Mesmo no caso de quem, há muito tempo, apenas de corpo, nos deixou, como Dalva e Herivelto.



Imagem: Divulgação
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A fábula do oleiro

“Uma criança se aproxima de um oleiro que molda bonecos no barro e pendura as estatuetas num varal para secar. Chega perto, admira os seres enfileirados, fica fascinada com a perfeição daquelas pequenas criaturas que se multiplicam nos movimentos exatos das mãos daquele escultor. Mesmo assim, pergunta:

_ Por que você está fazendo tantos bonecos de barro, se o mundo já está cheio de gente?
E o oleiro, sem tirar os olhos e as mãos do trabalho, responde:

_ É para cobrir os vazios da vida, e não faz mal nenhum equilibrar as criaturas de barro com os homens reais”.



A pequena narrativa foi contada pelo transcendental amigo Jorge Miguel Marinho em A convite das palavras: motivações para ler, escrever e criar, lançamento que eu tive a honra de ser presenteado com o primeiro exemplar (a prova da editora).

Jorge explica que “esta fábula foi contada por um anônimo em tempos bastante distantes e depois resolvi contar de forma mais literária (...), porém o seu material temático não tem autoria individual, é a voz coletiva”.

O escritor utilizou a história para ilustrar uma de suas afirmações, a de que “a arte tem traços bastante característicos e registrar a condição humana é a sua própria razão de ser (...); o objeto único da arte é expressar o homem em estado de perplexidade, agonia ou paixão em face da experiência igualmente única de viver”.

Assim que eu finalizar a leitura, voltarei a escrever sobre esta obra, que discute, essencialmente, “a arte da palavra”. Enquanto isso, dou passe-livre a vocês: frequentem a Casa do Jorge – garanto que todos ficaram entorpecidos com JMM, um ser feito de palavras.



Imagem: bergbrandt.com
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

#Delíryos | Os anjos também pecam


Imagine um clube de amigos em que o maior objetivo é tratar de “assuntos gastronômicos”, “forrar o estômago”, fazer a famosa “boquinha”, e que “boquinha”! Um clube onde os integrantes se reúnem religiosamente para deliciar bons e refinados pratos. Este é o mote de O Clube dos Anjos, romance-crônica escrito pelo tímido e sempre divertido Luis Fernando Veríssimo. À marca do autor, o humor, são adicionados os deliciosos ingredientes que todos adoram degustar em um texto: mistério e suspense. Se fossemos adjetivar o enredo em apenas uma palavra, esta seria ‘instigante’.

Da série Plenos Pecados, lançado pela Editora Objetiva, com o intuito de “brincar” com os famosos sete pecados capitais, O Clube aborda o voraz pecado da gula.

Os protagonistas são dez amigos, todos batizados com nomes bíblicos, exceto o homossexual Ramos, personagem que só aparece na narrativa por meio das lembranças dos integrantes do Clube do Picadinho, como denominaram o círculo, pois no início da história o leitor já é avisado de que o grande personagem morreu de Aids.

Nos primeiros parágrafos da narração o autor deixa claro que o Clube do Picadinho está passando por um momento de depressão, talvez iniciada com a morte de Ramos. Daniel, o narrador, é o mais apaixonado pelo grupo. E, ao conhecer o misterioso e taciturno Lucídio – distinto cozinheiro formado na França –, decide promover a “ressurreição” do clube. Lucídio seria o cozinheiro exclusivo dos amigos, que em vida só se dedicaram aos prazeres do estômago.

De início, Abel, Pedro, Paulo, Saulo, Marcos, Tiago, João, Samuel e André – substituto quase invisível de Ramos – ficam intrigados com a figura exótica do cozinheiro Lucídio – participante de uma sociedade secreta japonesa que reúne os ‘sócios’ uma vez por ano em Kushimoto, no Japão, para saborearem o fugu recém-pescado; a cada reunião, morre um participante, pois o fugu é um peixe envenenado que, mal preparado, pode matar em segundos. O aroma da morte era a grande excitação dos parceiros da coletividade nipônica.

Os dez amigos do Picadinho ficam animados com a ideia de revitalização da agremiação gastronômica e decidem que os jantares acontecerão no vazio apartamento de Daniel. Então começa o grande enigma do pós-jantar, pois, consecutivamente, morre um personagem – sempre o que, exacerbadamente, saboreia o cardápio do chef Lucídio. A morte se encarrega de levá-los seguindo uma ordem alfabética. É curioso que o cozinheiro sabe que a causa mortis é a mesma para todos os casos: problema cardíaco. Será?

De grande mestre-cuca, Lucídio passa a ser visto pelo grupo como a morte travestida de avental, mas a gula sempre aperta os estômagos, fazendo os amigos continuarem a percorrer a macabra trilha - fazem isso também em respeito à memória dos falecidos, mas principalmente pelo ávido desejo de devorar cada receita preparada, quiçá, com uma pitada de veneno, pelo exclusivo e soturno coque do grupo.

Ao mesmo tempo em que o leitor se assusta com a série de mortes, o autor consegue amenizar o ‘susto’ com boas colheradas de humor. Também leva-nos à reflexão: “onde vamos parar quando temos um inveterado desejo, ainda que esse desejo seja o de devorar pratos e pratos de deliciosas receitas?” (Além de ganharmos alguns quilos, é claro) “Qual é o nosso limite?” Talvez a possível máxima japonesa na epígrafe do livro – “todo desejo é um desejo de morte” – possa responder.

A trama também é recheada de motejos e paradoxos, como por exemplo, a palavra “anjos” no título – um grande deboche aos dez amigos, que, satirizados, só ganham o nimbo celestial depois de levados pela morte. Além das brincadeiras do texto, Veríssimo, em alguns trechos, faz alusão ao clássico Rei Lear, de Shakespeare, ou ao dramático Filoctetes, personagem mitológico que, por ter uma ferida supurante, ninguém queria tê-lo por perto. Era assim que os amigos se sentiam quando todos olhavam os glutões com maus olhos – por causa das mortes em série, foram impedidos de entrar nos velórios dos últimos mortos. “Cheirávamos à mortalidade”, filosofou Daniel. Outra brincadeira é que o texto pode parecer estranho, portanto o autor assim o fez de propósito, pois o narrador é um escritor de histórias estranhas.

O desfecho poderia ser mais um lugar-comum, tão peculiar nas histórias de suspense, mas Veríssimo, com muita originalidade, coroa o final da crônica com uma revelação inconcebível. O leitor atento vislumbrará que os pecados capitais nunca vêm sozinhos. Nesse caso, a gula veio escoltada por outros pecados, como revela o final.


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