sábado, 6 de novembro de 2010

#Delíryos | Uma imagem meio xoxota

Numa tarde feita pra coçar o saco, decidi praticar a minha pseudo-habilidade artística e criar um novo banner para este blog meia-boca. E - óbvio ululante - opiniões sempre são importantes - nem que você receba uma escarrada daquelas na sua cara pálida. Mesmo sabendo que faltam muitos metros para que a minha criação seja considerada mambembe (e isso seria muito, claro!), fiquei feliz com a percepção (super poética) de uma amiga:

"Caraleo, ameiiiiiiiii aquela imagem meio flor, meio gente, meio 'machonha', meio xoxota...ain, vou ficar olhando pra ela!. Linda demais".

Mais percepções? Comente já!
É isso.


Mea culpa: querido artista que desenhou/pintou esta coisa-mais-linda-cheia- de-graça, mil perdões. O Googão não me deu os devidos créditos. Parabéns pela obra "meio xoxota".
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

#Delíryos | Ah, esperança, meu tarja preta...

Às vezes eu tenho invejo daquelas pessoas que vivem com o potenciômetro de esperança no último marcador. É paradoxal o que sinto quando vejo alguém com essa vibe, todo engomado no verdíssimo figurino das expectativas. Ao mesmo tempo em que acho tão imbecil, acho bonito, parvo, encantador, néscio...

Mesmo assim, vez ou outra me pego acelerando o meu ponteiro. Sinto o comichar do serelepe bichinho da esperança fazendo folia com as minhas ilusões. E será sempre assim. Maldição do bom, velho e imprescindível Shakespeare, que amaldiçoou (foi maldição, sim!): "os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança". Ah, esperança, meu tarja preta...





Imagem: SXC
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domingo, 3 de outubro de 2010

#Delíryos | Romance de la luna



Ao som de castanholas que estalavam baixinho, eu flutuava na névoa multicor do dancing quando ela surgiu e me enjaulou em suas retinas, negramente emolduradas. Um trago mais forte e uma sufocante fumaceira realçaram no meu rosto sombrio o apetite que aquela entidade flamenca, envolta em sedas rubras, despertara no meu peito embebido de fugazes emoções.

Ela, olimpiana, delineando os primeiros passos, incandesceu o olhar devorador da horda de muares que respirava cada gesto do seu corpo, que sexualizava com o timbre sôfrego de Camarón. Mas foi no desvanecer das luzes do abismal cabaré, e no latejar de gozo musical do meu membro rígido, que naquela noite, à luz da lua, ela fez a sua melhor performance.






Foto: SXC
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

#ÓpioSonoro | Primavera: cântico à natureza

Então é primavera, o milagre de aroma florido, como disse o poeta. É a quimérica estação da dinâmica botânica das cores, de misteriosas tramas da natureza. De rosas claras, violetas e jasmins que assistem ao beija-flor beijando flores a granel. Da rosa amarela, traída pelo pássaro, derramando-se em orvalho - enquanto papoulas e dálias cravam-se de ciúme. Mas a fantasia primaveril traz também o bom crisântemo, o puro e gentil malmequer e o cravo, escravo da rosa - que delira com o lírio. E as cores gentis dessa aquarela são pintadas por hortências inocentes que ornamentadas com todos vegetais  orquestram um cântico à natureza. É a primavera, matizada e viçosa, que sempre será um elixir de inspiração para os artesãos da música universal. É o que mostra a playlist que organizei. Vejam - e ouçam - as flores que colhi passeando pelo jardim de Vinícius de Moraes, Alceu Valença, Bach, Vivaldi, Jacob do Bandolim e outros jardineiros musicais.



1 - Cântico à natureza (Primavera) - Chico César e Nelson Sargento (de Jamelão, Alfredo Português e Nelson Sargento)
2 - Rancho das flores - Vinícius de Moraes, Clara Nunes e Toquinho (de Vinícius de Moraes / Música: Johann Sebastian Bach)
3 - Estão voltando as flores - Emílio Santiago (de Paulo Soledade)
4 - Flores - Zélia Duncan
(de Fred Martins e Marcelo Diniz)
5 - Flores astrais - Secos & Molhados
(de João Ricardo e João Apolinário)
6 - Primavera - de Jacob do Bandolim
7 - Prato de flores - Nação Zumbi
(de Jorge du Peixe)
8 - La Primavera - de Vivaldi
9 - Pétalas - Alceu Valença
10 - Valsa das flores - de Tchaikovsky
11 - As duas flores - de Castro Alves
(musicado por Xisto Bahia / com Ciro Aguiar)
12 - Flor do mato - de João Donato



Texto baseado na letras das músicas selecionadas
Imagem: (Tulipas) SXC
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

#Cinema | Malditos cartunistas

O que é um cartunista? "Ah, é aquele cara perturbado; que enquanto os "normais" discutem e procuram - ou tentam - encontrar a cura para as chagas da sociedade, ele está em algum lugar, ermo geralmente, tirando da ponta do lápis outros diagnósticos - que no dia seguinte vão, no mínimo, arrancar um sorriso até do leitor mais carrancudo". Quase sempre, esta é a definição que ouvimos e até utilizamos para traçar uma rápida figura da "espécie quase em extinção". Agora, chegou a vez de a "espécie mal compreendida" responder tal pergunta. E as respostas vão estar em Malditos Cartunistas, documentário de Daniel Paiva e Daniel Garcia.

A boa notícia foi dada no ínicio da semana pelos cineastas Gustavo Pizzi e Cavi Borges, no Cineclube, e também pelos documentaristas, que disponibilizaram o trailer do filme no YouTube nosso de cada dia. Malditos Cartunistas, que está em fase de finalização, trará depoimentos de Angeli, Laerte, Glauco, Ota, Reinaldo, Ziraldo, Nani, Jaguar, Arnaldo Branco, Leonardo, Schiavon, Maurício de Souza, Lourenço Mutarelli, Adão Iturrusgarai, Guazelli, Allan Sieber e de outros "urubus". Enquanto isso, aproveitemos da bondade dos Daniéis com o vídeo abaixo, uma pequena, forte e bem traçada tira do que vai ser a produção.


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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

#ÓpioSonoro | Pra gostar de "música de vitrola"

Eu tenho a estranha mania (existem manias que não sejam estranhas?) de querer incutir a nossa cultura musical na cabeça das pessoas. Faço isso sem o menor constrangimento. Pode parecer ou ser pretensioso, mas sou ávido em doar pedacinhos da bagagem cultural - pequena, bom lembrar - que adquiri nos meus 20 e poucos anos. E hoje vou iniciar uma série de conversinhas, como quem não quer nada, querendo propagar - adivinhem! - a música popular brasileira. Até hoje, o blog tinha um player, que virou enfeite - não era atualizado há dezenas de séculos. Então, pra dar mais dinamismo à esta pobre e esquecida página (um dia ainda escrevo um samba-canção), inventei de criar uma coluna que vai ferver: muita música vai tocar aqui.

Para início de conversa, com muita dificuldade, vou apresentar 10 - das centenas de - canções "antigas" e essenciais da extensa antologia poética-musical brasileira. Sem muito lero-lero: quero falar, principalmente, àqueles que torcem os ouvidos para o cancioneiro verde-amarelo e que chamam grandes clássicos de "música de vitrola" (sem o pejorativo, até gosto do epíteto). Se por acaso você, que está lendo essa ladainha, é um dos tais, faça o seguinte: continue a leitura, escute as músicas, e mais: goste muito!

1 - Carinhoso - Sinceridade: é vergonhoso não conhecer o hit poético de Alfredo da Rocha Vianna, o Pixinguinha. Mas feio ainda é cantarolar um "lá-lá-lá" para a canção que deve ser conhecida até no Alaska. Tida como uma das maiores poesias musicais de todos os tempos, a melodia nasceu em 1917, e somente 20 anos depois ganharia a letra, obra de João de Barro, o Braguinha. Todo cantor brasileiro que se preza quer cantar "Carinhoso". Na minha opinião, a versão de Marisa Monte e Paulinho da Viola é imbatível. Clique e - com perdão do trocadilho - seja acariciado pela poesia do grande ídolo de Vinícius de Moraes.

2 - Asa Branca - Além do rock dos anos 80 e da música new wave, minha infância foi embalada pelas notas do acordeão necessário de Luiz Gonzaga, que compôs esta música em parceria com Humberto Teixeira. A composição é cinquentona, mas continua a narrar as tristezas de boa parte do sertão brasileiro. Para quem não sabe, asa-branca é um pássaro que habita nas florestas, cerrados e caatinga, e simboliza paz, saudade e exílio. Sem mais firulas. Aperte o play já!

3 - Chega de saudade - Bem capaz que algum dia, quando você estiver em New York, jantando num restaurante bem bacana, o fundo musical do ambiente terá um piano ou um saxofone tocando o lamento mais bonito da bossa nova. Altaneiro voo poético de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

4 - O mundo é um moinho - Há quem diga que Cartola escreveu tudo isso para convencer uma das filhas a não sair de casa. Mas eu prefiro ficar com a opinião de Aldir Blanc, que em artigo para o Estadão escreveu tudo: "O mundo é um moinho resume a lúcida amargura de Cartola".

5 - Ronda - Certa noite, num bar qualquer da Avenida São João (SP), uma mulher, com olhos de caçador, chamou a atenção de Paulo Vanzolini. Ela procurava alguém, foi o que pensou o boêmio. Assim nasceu esta música (nos anos 40), que foi gravada em 1953 por Inezita Barroso, mas somente nos anos 70 o Brasil se rendeu à canção - desta vez, emoldurada pela voz de Márcia. As interpretações de Maria Bethânia e Jamelão são imperdíveis.

6 - Chão de estrelas - Poema do jornalista Orestes Barbosa - musicado pelo cantor Silvio Caldas. Palavras do poeta Guilherme de Almeida: "(...) é quanto basta para que haja ainda um poeta na terra". E para Manuel Bandeira, "tu pisavas nos astros distraída" é o verso mais bonito que já se ouviu.

7 - A noite do meu bem - Clássico do gênero samba-canção, a letra traz a aura da poesia triste, lancinante, trágica e ao mesmo tempo tão bela de Dolores Duran, que morreu muito jovem, aos 29 anos (1959). Parceria com Tom Jobim.

8 - O samba da minha terra - Ninguém nunca foi tão criativo com os aversivos ao samba como Dorival Caymmi. Não gosta de samba? O baiano cantou na lata: "bom sujeiro não é; é ruim da cabeça ou dente do pé". O Bando da Lua fez a primeira gravação nos anos 40. Em 61, o recado ficou mais forte na voz suave e na batida do violão charmoso de João Gilberto.

9 - Com que roupa? - A mãe de Noel Rosa não sabia que não existe aprisionamento para quem é poeta de verdade. Para ver o filho longe das noitadas, escondeu todo o vestuário do sambista. Não deu outra: da simples pergunta "com que roupa eu vou?", Noel fez o samba, que também - conforme confidenciava para amigos - bradava, com metáforas, contra a pobreza do país.

10 - Aquarela do Brasil - Essa até gringo sabe cantar. Na época da composição, final dos anos 30, a letra foi um acinte para os esquerdistas, pois vivíamos o Estado Novo, que tinha Getúlio Vargas bradando que o Brasil estava entre as sete maravilhas do mundo. O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) usou a canção para divulgar o país tupiniquim a outras nações. Bom para Ary Barroso, o autor, que iniciou carreira internacional, chegando a ser indicado ao Oscar , em 1944, na categoria de melhor música - com Rio de Janeiro, feita especialmente para o filme Brazil.

É isso. Muitos delírios ao som dessa playlist "vitrolesca".


Algumas informações: Revistas Bravo! e Rolling Stone
Imagem: Tirei daqui

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

#Jornalismo | Digital x Impressos

A morte da versão impressa do Jornal do Brasil me fez lembrar da reportagem abaixo, escrita em parceria com os amigos Teresa Cristina e Rodrigo Monteiro - quando eu cursava o 1º ano da faculdade. O texto integrou um especial em homenagem aos 200 Anos de Imprensa no Brasil para o jornal-laboratório do Centro Universitário Fieo ("Em Tempo").






Sobre o Especial - Editorial da Profª Paula Veneroso (orientadora)



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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

#Cinema | Dzi Croquettes: além da “força do macho” e da “graça da fêmea”

Quando o assunto é ditadura militar, a classe artística brasileira sempre lamentou – e com razão – as mazelas do período negro, mas dificilmente lembrou de capítulos debochados e escrachados, brilhantes e coloridos que marcaram a história da nossa arte. No limbo de uma era de trevas ficaram as peripécias performáticas de Dzi Croquettes, grupo de teatro carioca que revolucionou os palcos do Brasil e da Europa com muita irreverência nos anos 70 e início da década de 80. Quase 30 anos depois das últimas apresentações, a trupe ganhou as telas de cinema com o documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez.



Além de resgatar engenhosa manifestação cultural, os diretores apresentaram o grupo de 13 bailarinos e atores à nova geração, que, além de admirar a originalidade do Dzi, repete a intrigante pergunta: como eles conseguiram driblar a ditadura militar? E driblaram mesmo. Tanto que o drible é sustentado pela abertura do filme, que inicia com flashes do cenário político de 64 e o AI-5 de 1968, que boicotou aproximadamente 450 peças de teatro, 500 obras cinematográficas e 1000 letras de músicas. E o Dzi? Enquanto isso, o Dzi desfilava sua androginia em corpos torneados, peludos e purpurinados, sob luzes e refletores, envoltos em boás e mínimos trajes femininos, montados em saltos altos, coloridos por maquiagem pesadíssima, e com vozes afeminadas cantavam: “eu não tenho culpa de ser chique assim”.

Chiques? Para a censura, não. Mas quem era a tal censura? Eles não a conheciam. No inicio – e por um bom período – talvez os censores tivessem a mesma visão da menina Tatiana. Eram “palhacinhos”. Ou, numa conceituação mais predominante, o “Dzi” era um “bando de viado”. E o bando arrebatou hordas de tietes. Todos queriam ver Dzi Croquettes, todos queriam ser Dzi Croquettes. Dzi Croquettes virou estado de espírito e distinguiu momentos da contracultura e do desbunde brasileiro. Então o sistema entendeu que a seminudez dos corpos apocalípticos ia além do cômico, do farsesco e do grotesco. Com a “força do macho e a graça da fêmea” – slogan da trupe –, afrontavam as privações da época, tentavam explicar que “a vida é um cabaré”, como diz o “pai” da família Dzi Croquettes, o bailarino Lennie Dale, em trecho do filme. E o exílio levou-os a fazer o cabaré em Paris, onde conquistaram cartazes do show business, como as atrizes Lisa Minelli e a belle de jour, Catherine Deneuve, a cantora e atriz Josephine Baker, o estilista Valentino e, sobretudo, os palcos franceses. Provaram que eram “das internacionais”.

No filme, a trajetória da “família” Dzi Croquettes é narrada pela mescla de histórias de vida: as memórias da diretora – filha de Américo Issa, que trabalhou na equipe técnica do Dzi; por relatos biográficos – de artistas que acompanharam e tiveram o grupo como inspiração; e por depoimentos autobiográficos – dos últimos componentes Ciro Barcelos, Benedicto Lacerda, Cláudio Tovar, Bayard Tonelli e Reginaldo de Poly – já “viraram purpurina”, como diz a narrativa de Issa: Wagner Ribeiro, Cláudio Gaya, Roberto de Rodriguez, Paulo Bacellar (Paolette), Carlinhos Machado, Rogério de Poly, Eloy Simões e Lennie Dale.

A vida de Dale daria um filme à parte. Experiente nos palcos da Broadway, o bailarino deu maturidade artística ao grupo, renovou a dança no Brasil e revolucionou a música verde-amarela. Muito criativo e com mãos de ferro, o americano levava os parceiros a encenações magistrais que misturavam o teatro de vivências – o improviso atrelado às experiências do atores – ao musical. Fosse com a lancinante Assim falou Zaratustra (Strauss), ou com a animada Tinindo trincando (Novos Baianos) ou ainda com a sensualíssima Dois pra lá, dois pra cá, na voz de Elis Regina, o espetáculo não saia da linha do atrevimento.



O filme apresenta uma série de curiosidades. O Dzi Croquettes criou e também popularizou muitas expressões e termos usados pelo público gay, principalmente. “Tá boa, santa?”, “arrasa”, “adoro”, “rosetar”, “se jogar”, “rodar a baiana”, a palavra “amor” com o erre arranhado e arrastado – apesar dessa característica, o mote principal do Dzi não era fazer proselitismo a um grupo específico. A identidade sexual do grupo era definida com a frase: “Nem homem. Nem mulher. Gente”. Ou seja: “nem dama nem valete”, e sim dzi croquette. Mais que avaliações rotuladas, a trajetória dos 13 homens ensandecidos é vital à cultura brasileira, pois foram eles quem acenderam novas luzes no nosso teatro, cultivaram e moldaram outra forma de ser brasileiro e deram mais suavidade a uma época de ingratidão. O filme está aí pra contar a imprescindível história do Dzi Croquettes.


Artigo publicado originalmente na coluna da Mona Dorf
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sexta-feira, 23 de julho de 2010

#Delíryos | Um viva aos 25 centímetros de Garrincha!

Ih, vamos acabar com o climinha de mistério e desconfiança que traz o título deste post: sim, trata-se de uma aclamação à quilomegragem masculina de Garrincha, ao pênis de Garrincha, ao órgão genital de Garricha, à benga de Garrincha, ao pau de Garrincha, enfim, como lhe apraz chamar aquilo que o eterno craque tinha no meio das pernas tortas pernas. "Aquilo" vírgula! Senti uns 25 centímetros de inveja por parte do redator deste textículo... Além de ter satisfeito - vá lá saber - um estádio de mulheres, o falo do jogador sustenta este blog, faz pulsar este negócio aqui; todos os dias traz algum curioso que, tomado por desejos mais que enfurecedores (exagero?), digita na barra de busca do velho Google: "Garrincha 25 cm", "pênis do Garrincha", "foto do pinto do Garrincha". Googlão, velho amigo, não perde tempo: direciona a pessoa insana para o Opiofagia (por isso a ode no título - comemoração tardia).

Tardia porque tem sido assim desde 23 de fevereiro de 2009, quando publiquei A "quilometragem masculina" de Garrincha (que você, por favor, leia somente quando quando finalizar este texto). Penso que decepciono aqueles que têm avidez pela trosoba do moço nascido em (e de) Pau Grande (vilarejo vizinho de
Petrópolis, Rio de Janeiro) - principalmente para os exigentes, que querem porque querem fotografia do instrumento do rapaz. Terei sempre essa dívida com vocês... Mas, na tentativa de amenizar as correções linguísticas e binárias (de bit) de tal pendência, farei um acréscimo nas informações. Últimos dos moicanos do futebol da era garrinchesca lembram do jogador em banhos nos vestiários e comprovam tais especulações sobre as medidas do ponta-direita (informação vaga, eu sei - meio Nelson Rubens, Sônia Abrão e Leão Lobo). E em 1958, brasileiros, garbosos e felizes com a vitòria do Brasil na Copa do Mundo, cantarolavam a marcha carnavalesca que exaltava a "estrela solitária", que na época namorava a vedete Angelita Martinez - esta, nos shows, trocou a preposição "em" para "de", na letra que dizia: "Mané, que nasceu em Pau Grande...".

E para quem pensa que eu estou querendo gozar com a piroca do futebolista, veja abaixo o relatório que mostra o assunto mais atraente nos últimos setes dias. (Pensando o quê? Eu mato a cobra e mostro o... ah, mostro não. Aqui não).



Foto: Blog Década de 50
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 3) | Para contar uma história de vida


Na literatura de realidade, o primeiro passo – muito óbvio - para se contar uma história de vida é a escolha do personagem, que, inequívoco, vem escoltado por muitas tramas. Mesmo os jornalistas contadores de histórias que são donos de espessa bagagem profissional e detentores de estimável repertório cultural, na construção de suas narrativas de não-ficção, não são regidos pela altivez ou por qualquer sentimento presunçoso, não fogem das "regras" necessárias para arquitetar suas tramas. Todos trilham árduos caminhos, ou mergulham em densos mares na azáfama de contar uma história. Pelo menos, é o que pede o bom senso.

Antes de tudo, é preciso ajuizar que
todos os fios das histórias - que a personalidade da narrativa traz - estão intricados. Desembaraçá-los é ofício artesanal. É preciso passar por cima de todas as convicções e de supostos conhecimentos acerca do que se pretende narrar. A primeira delas diz respeito à trajetória do protagonista da história, de uma biografia – para citar um gênero (que também poderia ser perfil ou ensaio biográfico). Pode-se dizer que o personagem - elemento que será aprofundado em outros posts - , no início do trabalho biográfico, é uma caricatura em seu mais alto traço de deformidade. O biógrafo tem o compromisso de aperfeiçoar esta figura – evidente, como teorizou Pierre Bourdieu, em A ilusão biográfica (1998), que é impossível delineá-la em sua totalidade. Porém, engajado na arte do biografismo, o narrador de vidas é capaz de extrair o sumo de seu personagem. Ou seja, levantar proeminentes fragmentos que constituem o biografado, ou, segundo a concepção de Ruy Castro, “revelar o ser humano para quem se habituou a só ver o heroi e mostrar o heroi para quem só teve a chance de conhecer o ser humano" (declaração dada ao jornalista Maurício Stycer, em 1995, quando lançou Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha).

E, por citar Castro, será que o biógrafo - mesmo sendo um dos peritos da imprensa, profundo amante da literatura e do teatro - , ao produzir, por exemplo, a biografia de Nelson Rodrigues, se privou de rastrear, impetuosamente, a trajetória do seu anjo pornográfico? A pergunta poderia ser desnecessária, porém é indispensável para enfatizar que
o jornalista contador de histórias deve seguir alguns princípios epistemológicos do jornalismo responsável. São eles: pesquisas, exploração de fontes, entrevistas, seleção de material e, por fim, a construção da narrativa.
O jornalista-biógrafo Lira Neto, autor de O poder e a peste - a vida de Rodolfo Teófilo (2000), Castello – a marcha para a ditadura (2004), O inimigo de rei – uma biografia de José de Alencar (2006) e Maysa – Só numa multidão de amores (2007), conta como foi seu mergulho na construção deste último trabalho:

"Para escrever este livro, pesquisei em cerca de 100 mil recortes de jornais e revistas: entrevistas, artigos, críticas, notas, reportagens. Textos em português, inglês, francês, italiano, espanhol. Os recortes, fornecidos pela família da cantora e que foram colecionados pela própria Maysa, fizeram o mapeamento completo de sua trajetória artística. Também tive acesso irrestrito aos diários íntimos dela. Escritos confessionais, anotações sobre o cotidiano, a vida familiar, os romances, os bastidores de carreira, a forma singular de uma mulher incomum ver o mundo. Havia também uma tentativa inacabada de autobiografia, poemas, letras de música, algumas delas inéditas (NETO, 2007, p. 336)".

Pelo relato de Lira Neto, fica perceptível a profundidade da indefessa pesquisa que o autor desenvolveu para escrever a biografia da cantora Maysa. Evidente que nem todos os personagens vão oferecer esta gama de fontes. Tudo vai depender da ‘"statura" do biografado – no caso de Maysa, nem seria preciso citar que estamos falando de um dos maiores cartazes da música popular brasileira. No entanto, mesmo para personagens de ‘"porte menor" (bom lembrar que esses não existem, pois estamos falando de seres humanos) , a técnica de pesquisa deve se aproximar da praticada por Lira Neto:
é preciso estancar todas as fontes.


NO PRÓXIMO POST: O caráter das fontes

Outros textos da série


#Jornalismo&Literatura (parte 1) | O jornalismo contador de histórias

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas



Imagem: tirei daqui

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


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sexta-feira, 9 de julho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 2) | Jornalistas contadores de histórias: escafandristas


No prefácio de Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (Mônica Martinez, 2008), o professor Edvaldo Pereira Lima apresenta a proposta do Jornalismo Literário Avançado – segmento que liquefaz jornalismo e literatura –, que se aproxima da proposição do biografismo; se entrelaça com a visão de Martinez; e está enquadrado com os pressupostos do New Journalism – construção cena a cena, diálogos, reconstituição minuciosa, alternância de foco narrativo, dentre outros. Segundo ele, “trata-se de uma abordagem – sustentada conceitual e metodologicamente – que busca conceder à narrativa jornalística de profundidade uma visão de mundo complexa, sistêmica, integrada. Na complexidade, o mundo é encarado sob uma ótica em que o objetivo e o subjetivo convivem, na qual os elementos do consciente e os conteúdos do inconsciente transitam”.

Em outras palavras, entendo que, no caso do jornalismo, a literatura pode, senão abolir, atenuar o que Luiz Milman, jornalista e mestre em Filosofia, chama de ‘noticiarismo’, ou seja, a industrialização da notícia, a preocupação em fazê-la circular rapidamente, resultando em um fazer jornalístico pouco consistente – o que leva jornalistas veteranos a acreditarem que o jornalismo contador de histórias morreu, como concebeu Pedro Bial. E o mal do noticiarismo atinge, principalmente, a reportagem, “modalidade jornalística deprimida nas redações de hoje”, conforme Milman.

Diante da volumosa demanda de informações – agora ainda mais estratosférica com o boom das redes sociais –, a reportagem não tem forças suficiente para “disputar” com a insana e irrefreável industrialização da notícia. E, ironia ou não, é na literatura que o segmento encontra espaço, substância e retorna ao intuito principal, o de se aprofundar nas histórias, e destas garimpar outras, moldando-as a uma linguagem fugidiça ao corriqueiro .

Para o jornalista e escritor Juremir Machado Silva, “o grande problema do jornalismo contemporâneo vem do seu ideal de expressão (conteúdo) máxima, com expressividade (forma) mínima. Em outras palavras, o jornalismo quer dizer muito com pouca literatura. Houve uma fase em que a ruptura com o modelo literário se impunha e significou uma libertação para o texto jornalístico. Hoje o fosso existente determina, cada vez mais, um desconhecimento pelo jornalista, da textura literária das palavras. A ambiguidade esconde-se, travessa, na superfície dos textos que dizem aos seus autores o que eles não podem interpretar”.

Interpretar: em uma palavra, pode-se dizer que este é um dos fundamentos do jornalismo literário ou jornalismo não periódico. No dia a dia, jornalistas se defrontam com milhões de histórias e personagens, todos rudimentares à prática do ofício. Porém, é inegável que existem histórias e personagens que, naturalmente, não consentem que lhes seja arrancada sua magia, como refletiu Martinez. Mercantilização e imediatismo não têm vigor diante deles. Nesse contexto, entram em cena, por exemplo, as biografias, os livros-reportagem, que exercitam o que, em regra, o jornalismo cotidiano não ousa experimentar, conforme a crítica de Daniel Piza, que diz: “é preciso [o jornalismo] perder o medo de usar palavras menos óbvias, fugir ao lugar-comum, costurar melhor descrições e argumentos, acrescentar pitadas de humor, ironia e até lirismo, usar recursos como metáforas, trocadilhos e mudanças de andamento. É preciso diversificar os gêneros. [...] O jornalismo deve perder a submissão ao que considera ser realidade, a submissão às versões oficiais e ideológicas sobre os fatos, para conseguir ir além deles. O resultado, a língua agradece”.

Entretanto, tal atrevimento exige que o jornalista, antes de ser contador de histórias , seja um escafandrista. É preciso mergulhar nos fatos, na história, nas memórias, no improvável e, principalmente, na magia. Afinal, as palavras de Piza deixam às claras que o contador de histórias deve estar agasalhado de muita argúcia, um dos requisitos basilares para burilar narrativas consistentes e instigantes.


MERGULHE:

Dois gêneros separados pela mesma língua, in: Jornalismo e Literatura - A Sedução da Palavra" (Escrituras, 2003) – De Daniel Piza


A miséria do jornalismo brasileiro: as (in) certezas da mídia. Petrópolis: Vozes, 2000 – De Juremir Machado da Silva


A metodologia do jornalismo: breve excurso sobre a natureza de um conflito. Revista Tendências na Comunicação. Porto Alegre: L&PM, 1998 – De Luiz Milman



Na foto: Nelson Rodrigues [www.jornale.com.br]

Escafandro: SXC

** Texto adaptado (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)


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terça-feira, 29 de junho de 2010

#Delíryos | Fragmentos de uma crônica

Fragmentos do capítulo 4 - É preciso ter alma -
do meu livro-reportagem - Oscar: uma crônica maroniana.
O trecho narra uma das minhas incursões pelo Bahamas Club,
boate de Oscar Maroni, personagem central do livro.


(...) Barra Funda, Brigadeiro, ônibus, trem, metrô. Enfim chego à terra de Maroni, Moema. Vale lembrar que, de transporte público, eu não sabia como chegar ao Bahamas – tampouco ao escritório de Oscar, onde conversaríamos. Mas, como diz o velho e triturado ditado, quem tem boca vai a Roma (ou vaia Roma - de vaiar -, sei lá). Sei que não precisei ir tão longe. Cheguei à Avenida dos Carinás, 512. O relógio marcava 19h10.

Encostei o rosto, que suava em bicas, na janela fumê. Não havia ninguém no local. Era o que parecia. Segundos depois aparece um rapaz gordinho. Pergunto por Oscar.

__ Ele não está. Você é o Marcos?

__ Não – respondi. Meu nome é Daniel...

__ Ah, você é do TCC? Ele está no
Bahamas, aqui na rua debaixo.

Corri para o parque de diversão do Maroni. Rua dos Chanés, 571.

Então é aqui o ‘castelo’ do “rei das noites de São Paulo”? Enfrentei mais uma porta espelhada. Apertei a campainha e, rapidamente, fui atendido por um homem mulato de olhos puxados. Ou inchados, talvez:

__ Boa noite, tenho horário marcado com
Oscar Maroni.

Desconfiado:

__ O Seu Oscar foi almoçar...

__ Almoçar? Mas já são quase oito horas da noite! Respondi num impulso.

Pela voz do homem, lembrei que ele havia me boicotado em uma das tentativas de falar com Maroni por telefone.

__ Só um minuto – disse e entrou.

Em seguida surge outro homem, um senhor baixinho, esbanjando uma acanhada simpatia.

__ Quer falar com o Seu Oscar? Ela já vai te atender.

Os anjos também habitam o reino de Oscar, pensei. O mulato retorna e me convida a entrar. Não fiz questão de disfarçar. Com muita avidez, meus olhos devoraram a recepção. Quis absorver cada detalhe do cenário. Mas eu não estava sozinho.


De um lado, duas lindas mulheres. Uma branca e outra negra. Estavam nuas e felizes por exibirem formas tão perfeitas. De costas para mim, mas com olhos atentos à retaguarda, as duas se envolviam voluptuosamente. Não faziam questão de moderar na posição lésbica que entrelaçava os dois corpos. Uma apalpava as nádegas da outra e, sem esforço algum, roubavam meu olhar.

Não muito longe da dupla étnica de mulheres, outra mulher, preguiçosamente, expunha o desenho avantajado do seu corpo. Pele muito branca, cabelos acobreados, traços – boca e nariz – finos e olhos sonolentos. Pensamento distante. Parecia não me notar.

(...) De repente, eu imaginei que, sim, era assim que os clientes estroinas do
Bahamas Club eram recepcionados. Lindas mulheres os hipnotizavam logo na entrada. Entrada muito estreita, o que não deixa Maroni mentir quando diz que o Bahamas é o único lugar do Brasil que tem as mulheres mais bonitas por metro quadrado.

(...) O gordinho que me atendeu no escritório “anexo” chega ao
Bahamas. Oscar o chamou de Aruã, e Aruã o chamou de pai. Rapidamente falaram sobre uns contratos. O jovem entrou no salão, e Oscar me convidou para subir até a sua sala.

__ Vamos conversar, companheiro - e virando-se: Dociiiiiiiiiiinho!!!

Não, ele não me chamou de “docinho”. Explico: Docinho é a sua inseparável cadela maltês. O
pet de nome adocicado surge e, brejeiro, abre caminho para Oscar.

Deslumbrado com o início da investida jornalística, eu não acreditava que estava cara a cara com um dos homens mais polêmicos do Brasil. Espero que por trás desse olhar carrancudo esteja um “docinho” de ser humano. Foi o pensamento, pronto e pseudojocoso, que, ligeiramente, consegui esboçar.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

#Jornalismo&Literatura (parte 1) | O jornalismo contador de histórias

Se as técnicas do jornalismo são executadas conforme o tipo de veículo - impresso, televisivo, radiofônico e digital -, no final dos procedimentos lá estará a emoção que reúne os usineiros da imprensa. Independente do meio, todos têm a mesma missão: captar histórias e personagens, elementos substanciais para a tecelagem de notícias e de reportagens.

No e
ntanto, nem sempre histórias e personagens conseguem transcender os padrões que moldam a atividade jornalística. Talvez a objetividade - quesito constitucional na produção de informações - e as premissas dos manuais de redação sejam as responsáveis por uma multiplicidade de narrativas superficiais, que trazem protagonistas com identidades pouco sólidas. Em Jornada do Herói: a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (2008), Mônica Martinez, doutora em Ciências da Comunicação e Artes pela Universidade de São Paulo, citando a autora Ana Barros, compreende que “desde o seu nascimento, o jornalismo brasileiro exclui, na maioria dos casos, a visão mágica de suas páginas, ainda que elas continuem permeando o dia-a-dia de boa parte de seus leitores”. Martinez também avalia que a falta de magia nos conteúdos informativos configura seres humanos muito pequenos, pois são reduzidos apenas a nomes, idades e categorias profissionais. “São pessoas ouvidas às pressas para reclamar de algo ou dar sua opinião sobre um determinado assunto”,

A autora é defensora da crença de que a atividade jornalística, incorporada à inquietação de que é preciso um mer
gulho mais profundo nas histórias de vida, pode resgatar a “humanização perdida nos textos jornalísticos”. Não deve ser entendido, no entanto, que o jornalista precisa edulcorar suas produções com suculentas compotas de romantismo, ou seja, “de lançar luzes benévolas e afáveis na construção de perfis de polianas imaginárias”, segundo a autora, que esteia sua arguição com o sensorialismo crítico do jornalista Manuel Carlos Chaparro, docente e pesquisador da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Em sua obra Linguagem dos Conflitos (2001), Chaparro suscitou o questionamento ‘o que é ser jornalista?’ Como resposta, utilizou a acepção oferecida por Pedro Bial:

"Provocado por essa pergunta, numa entrevista, Pedro Bial, repórter e apresentador da televisão brasileira, respondeu com uma frase que sintetiza, há décadas, a visão romântica do jornalismo: “Nós somos contadores de histórias...”. (...) Também já fui contador de histórias. (...) Mas esse jornalismo contador de histórias morreu por falta de espaço e função. É prazeroso relê-lo, reactiva sonhos e lembranças. Mas não tenho sau
dades dele, a não ser pela carga de humanização que o temperava, e que falta no jornalismo de hoje”".

Foi a preocupação dos jornalistas-humanistas, ou - conforme a compreensão de Bial - dos contadores de histórias que promoveu o encontro entre jornalismo periódico e literatura. Essa confraternização concebeu o que mais tarde foi alcunhado de Jornalismo Literário, e depois de Jornalismo Literário Avançado (JLA), categoria que, segundo entendimento de Edvaldo Pereira Lima - professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo -, “é uma modalidade de prática de reportagem, da grande reportagem e do ensino jornalístico que combina características do Jornalismo Literário com concepções oriundas de paradigmas de ascensão tanto nas ciências quanto em diversos outros campos de conhecimento contemporâneo, formando uma radicalmente nova concepção da realidade”. No Brasil, exemplo clássico é o romance-reportagem do século XIX Os Sertões, fruto do trabalho de correspondência de Euclides da Cunha na Guerra dos Canudos para o jornal O Estado de S. Paulo. Porém, o Jornalismo Literário chegaria à culminância na década de 60 do século passado - nos Estados Unidos, por meio das peripécias jornalísticas de Gay Talese e Tom Wolfe, dois dos maiores preconizadores do New Journalism; no Brasil, a revista Realidade foi o grande ateneu de jornalistas contadores de histórias.


No próximo texto da série Jornalismo & Literatura: A proposta da literatura para o jornalismo; o jornalismo literário na construção de histórias de vida
** Textos adaptados (trechos da minha monografia de graduação em jornalismo, 2009)
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Novos Baianos é liberdade, liberdade é Novos Baianos

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terça-feira, 18 de maio de 2010

O Rey e eu

Eu tinha 12 anos quando o conheci. E não foi necessário muito tempo para que eu me sentisse envolvido por suas palavras. Poucas letras foram suficientes para cultivar em mim o sentimento que trago comigo até hoje, o de admiração a sua nobreza. Usando a lira poética de Mário de Andrade: “quis ser ele, ser dele, me confundir naquele esplendor, e ficamos amigos”. E, a cada contato, desejava: um dia quero ser igual a esse cara. O “cara” era Marcos Rey. (Evidente que até hoje não consegui).

Não vou discorrer aqui nenhuma linha sequer da biografia do grande escritor que delineou como ninguém o “lado escuro da vida”, os personagens mais decadentes e instigantes. Que escreveu as mais emocionantes narrativas infanto-juvenis. Até porque um post seria pouco para isso. Se você que está lendo este texto ainda não o conhece, descubra-o. Vai ser interessante. Garanto. Porém, atrevo-me a adjetivá-lo com uma expressão de Manoel de Barros: Marcos Rey foi, de verdade, um “apanhador de desperdícios”.

Dias desses, voltei a me reencontrar com a obra de Rey: reli Memórias de um gigolô, romance que, em 1986, o autor, em parceria com Walter George Durst, adaptou para a TV. Bruna Lombardi, Lauro Corona e Ney Latorraca deram vida ao trio de heróis: Lu, Mariano e Esmeraldo, respectivamente.

E mais: o reencontro foi promovido por outro livro, de outro autor. Em A convite das palavras: motivações para ler, escrever e criar, Jorge Miguel Marinho, que conviveu com Marcos Rey, num dos capítulos, questiona: por que gostamos tanto de ler Marcos Rey? Depois de elencar vários motivos, Marinho conclui que “gostamos de ler Marcos Rey – talvez ou é bem provável – porque, no momento em que ele elege uma população de indivíduos à margem como protagonistas de uma história ou da História, escavando o extraordinário das situações mais banais, o leitor se encontra com um escritor que não separa ficção da realidade e este mesmo leitor se torna cúmplice, por um tempo sem limite, dessa literatura tão humanamente real”. E é por isso que posso dizer: “ficamos amigos”. Porque a literatura possibilita essa reciprocidade de afeto. As palavras funcionam como o ombro, as mãos, o olhar... ainda que o autor esteja habitando outra dimensão, como é o caso de Marcos, o "rei da margem", que em 1999 partiu, deixando um coletivos de personagens e enredos que a cada leitura se tornam ainda mais burilantes.





Cena de "Memórias de um gigolô"
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

A alma vira-lata de Maysa

(...) o vira-lata é um cachorro que tem estofo, misto de poeta e filósofo. O vira-lata vasculha latas de lixo, ama no meio das ruas, dorme nos monturos e não é propriedade de ninguém. É um cachorro que tem vivências, diferente dos cães policiais, que comparo com os atletas, e dos lulus, esses enfant gatés da raça canina. Tenho admiração profunda pelos vira-latas. Não amaria outros, se pertencesse à sua espécie”.


Maysa – Só numa multidão de amores, p. 121, Lira Neto, Editora Globo, 2007
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quarta-feira, 31 de março de 2010

A aliciadora feliz

Dias desses, provocando a minha rinite num sebo, dei de cara com um livro que encabeçava a famosa pilha do gênero “os rejeitados”. O título me fisgou de imediato: A aliciadora feliz – a estonteante história da “madame” de Nova York. Trata-se de Xaviera Hollander, personagem instigante que deu “trabalho” à policia e aos moralistas americanos e muito prazer aos notívagos e aventureiros que cruzaram seu caminho.

Nascida na Indonésia, criada na Holanda, descendente de alemães e franceses, judia – portanto vítima dos campos de concentração –, bissexual e ninfomaníaca. Este seria o resumido perfil da mulher que provou todos os delírios do desbunde dos anos 60 e 70.

Reconhecendo sua compulsão sexual, Xaviera percebeu que tudo poderia ser mais prazeroso – ou lucrativo, esta é a palavra. Então, muito jovem, partiu para o “lado escuro da vida”, tornou-se prostituta e em pouco tempo já era a mais renomada cafetina da América.

Se você é daqueles que julga um livro pela capa, não dará nada pela autobiografia super precoce da “madame”. Publicado em 1972, quando Xaviera tinha 28 anos, a arte da capa é das mais duvidosas que o mercado editorial setentista produziu. Algo irritante, que só mesmo a Gestalt explica. Mas se você é um leitor de verdade, só terá a preocupação de empanturrar-se com as histórias por vezes mirabolantes da “aliciadora feliz”.

As aventuras e desventuras de ser prostituta num país conservador como os EUA – a casa da hooker feliz foi perseguida pela Comissão Knapp, criada para investigar abusos e corrupção; o retrato da revolução sexual no mundo – Xaviera era uma puta quase intercontinental; o prazer do sexo pago, que antigamente não era tido apenas como indústria; e alguns trechos da narrativa trazem uma pontinha de preconceito, quando a autobiografada, por exemplo, faz questão de diferenciar as garotas de programa que trabalham em boates das meninas que atuam nas ruas. Estes são os temperos de “A aliciadora feliz”, que só peca pelo excesso de vírgulas – foi a tradução (vamos culpar o tradutor?). Esse probleminha lembra uma pizza demasiadamente salpicada de orégano, mas que a gente devora lambendo os beiços.

Aviso: com todo o meu exagero, acredito que há poucos exemplares no mundo – embora, em seu portal, Xaviera diz ter vendido 16 milhões de cópias. O meu já foi despachado – afinal, a personagem é bastante interessante, logo é plausível apresentá-la a outros leitores. Hoje, Xaviera dedica parte do seu tempo às palestras sobre “relações humanas sexuais e como se tornar um amante melhor”.

Para finalizar, dou outro aviso: não admiro aliciadores, cafetões e derivados. Abomino qualquer forma de exploração. Nada contra a prostituição, desde que os dividendos sejam apenas da moças que vivem a desatar fantasias.

Se quiser fazer uma visita virtual à Xaviera, clique aqui.




A aliciadora feliz
Autores: Xaviera Hollander, Robin Moore e Yvonne Dunleavy
Tradução: Teresa Cristina Saueubronn
Editora: Nova Época Editorial
Páginas:
313

Ano:
1972
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segunda-feira, 8 de março de 2010

#Delíryos | Iracema

Como bom sambista, ele carrega no peito o brasão da consternação. E alguns pontos da urbe dissonante tornam este emblema ainda mais luzidio. Assim como acontece com o poeta baiano, sempre que ele cruza a Ipiranga com a Avenida São João, seu coração tem reações jamais decifráveis por ecocardiogramas. Momentaneamente desnorteado, nunca se dá conta de que está parado, hirto como uma velha estátua, no cruzamento de duas das artérias mais pulsantes da pauliceia desvairada que tanto ama. Impraticável não procurar qualquer resquício ou vulto que seja de sua amada. Quem sabe a brisa profana não lhe traga algumas notas do inolvidável perfume daquela mulher? Porém, todas as vezes seu anseio é abraçado pela tristeza incandescente. E esse aperto faz sua alma, sem muito esforço, comprimir outro desejo, bobo: é preciso interditar a nefasta dupla de avenidas e assim condená-las à solidão, como fizeram com ele.

Iracema era o nome de sua amada. Uma bodega no Morro do Piolho os havia apresentado. Ele, fazendo gemer o cavaquinho, quando avistou a mulata de arrasar qualquer maloca, perdeu-se na sequência de acordes de um velho samba. Ela, que se requebrava como uma linda cabrocha que era, quando foi frechada pelo seu olhar, também se descompassou. Até o candieiro alumiou mais forte. O terreiro abençoou o grande amor. Desde aquele momento, formaram o quinteto: ele, ela, o cavaquinho, uma canção e uma dose de cachaça, sempre.

Mesmo conhecendo a efusiva mulher, para ele, Iracema era como um frágil cristal. Encantava-se com cada gesto da namorada. Até com os mais estabanados. Tinha a impressão de que ela estava sempre na avenida, defendendo a escola do coração. Era de uma felicidade quase pueril. Um belo sorriso adornava-lhe o rosto, e o gingado do seu andar trazia um meneio musical, dançante. Às vezes, de tão absorta, ele pensava que Iracema era conduzida por alguma entidade. E essa sensação também lhe causava medo. Principalmente quando ela saia sem a sua companhia. Nessas situações, ele, com seu português peculiar, alertava: “Iracema, cuidado ao travessá essas rua”. Falava, falava, mas, hoje, ele pensa e quase tem certeza de que ela não o escuitava...

Era um dia muito especial. Principalmente para Iracema, que provaria o vestido de noiva – a última prova. Dali mais alguns dias, adentrariam pelas portas de um terreiro de umbanda na Mooca. Iracema, como assim devia ser, estava radiante. Não conseguia pensar e respirar outro assunto que não fosse o tão esperado enlace. Em seus devaneios, a sua frente, assistia à cena: ela, formosa e brilhante feita uma porta-bandeira, indo ao encontro do seu amado, que a esperava – sorrindo, buliçoso, trajando um terno de brim, chapéu coco e gravatinha borboleta – ao pé do altar. Abstraída, sentia-se flutuando em direção do seu mestre-sala. Num desses momentos, a caminho da loja de vestidos, sua fantasia lhe traiu. Ela nem percebeu, mas um susto roubou-lhe a alucinação, quando ela, distraída, atravessou a Avenida São João. Foi tudo muito rápido: um carro jogou Iracema de uma calçada a outra. A noiva flutuante foi atropelada. Morreu Iracema.

A notícia soou como um samba harmonizado por expiação. Ele chorou de dor. Das certezas que restaram, uma proferia que Iracema tinha sido o seu grande amor.

Debruçado sobre o caixão, quase inundado por suas lágrimas, talvez no afã de curar sua agonia, ele narrava à querida – que agora dormia o sono de um anjo negro – o seu triste fim.

__ Iracema, fartavum vinte dias prao nosso casamento, que nóis ia se casá’ Você atravessô’a São João, veio um carro e te pega e te pincha no chão! Você foi pra assistência, Iracema. O chofer não teve curpa, Iracema... Paciência, Iracema, paciência... – balbuciou as últimas palavras encharcando-as de resignação.

Mais uma vez, estatizado na infausta avenida, ele tenta asilar a realidade: “Iracema você travessô contramão...”. Sua Iracema foi embora. Ainda esperançoso em revê-la, com a voz baixa, diz em tom de súplica: “Iracema, eu nunca mais eu te vi...” Tudo é vão. Olha para o céu e imagina sua mulata conduzindo os anjos numa grande festa de carnaval. Então lembra de tudo outra vez. As recordações são arrebatadoras. E não importa que da venerada mulher só tenham restado as meias e os sapatos. Ou que ele tenha perdido o retrato da adorada. Bobagem. Nos olhos, sempre levará o brilho dos olhos e o fulgor do sorriso de sua amada.





Este modesto conto adonirano foi escrito especialmente para a amiga Giselle Zamboni, editora do Seres Coletivos

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

#Delíryos | Mesa redonda

Pouco mais de um mês, publiquei um post sobre o tema (abundante) "histórias de vida". O texto aborda a celeuma que ronda a produção autobiográfica. Acabei citando o caso do jogador Nicola Legrottaglie, que, ao escrever um livro contando a sua trajetória, aproveitou para criticar o homossexualismo. Mas, toda essa minha ladainha não é para discutir ainda mais as polêmicas das autobiografias e biografias. Citei que Legrottaglie é "zagueiro do Juventus". No entanto, acabo de receber um e-mail do amigo Bruno Favoretto, que é PhD em futebol (eu não entendo, admito). Vou confiar no QI do rapaz e publicar a curiosidade enviada por ele. Se diz ou se escreve "do Juventus" ou "da Juventus"? Favoretto, com o perdão do trocadilho, por favor, responda!

"A título de curiosidade, se diz "dA Juventus". Afinal, a Itália é o único país do mundo que possui poucos "clubes" de futebol, efetivamente. Em sua maioria, os times são chamados de "associações esportivas" (associazione) ou sociedades (società). Portanto, o correto é chamar pelo gênero feminino - são raras as exceções na primeira divisão em que se usam o gênero masculino, como no caso do Milan (que é uma associação mas leva "clube" em seu nome), Genoa, Livorno e Bari. No mais, parece uma coisa ridícula, mas para quem acompanha há tempos o Calcio (como é chamado o futebol na Velha Bota), soa muito esquisito ler, ouvir "do" no lugar de "da". Aliás, sabemos também que chamam esses clubes por artigos masculinos por causa de influência da Globo, que acredita ser mais próxima essa semântica ao povo brasileiro, acostumado com "Os" clubes. Porém, a mídia especializada faz questão de corrigir a cagada porque sabe que os amantes do futebol italiano são talibãs".

Perceberam que o moço é entendido? Golaço? Considerei bacana trazer a público a "carcada" do velho Bruno - corrigiu sem dó, disse que meu texto o incomodou, soou "esquisito", que sou influenciado pela Globo e, por isso, fiz a "cagada" de escrever "do Juventus". E, nas entrelinhas, alertou: cuidado, os italianos são bravos mesmo! Será que ele ficou furioso?

Brincadeiras a parte, achei tudo divertido. E o Bruno nem foi tão intencional, mas acabou promovendo uma "mesa redonda" (com um debatedor só, claro!). De quebra, ainda enviou uma matéria que falava sobre uma das biografias de J. D. Salinger, escrita por sua filha, Margaret Salinger. Na obra, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio "é retratado como egoísta e cruel". Já Kenneth Slawenski, em A Life Raised High, revela que Chaplin roubou o grande amor da vida de Salinger. Quem diria, hein? Vão pensando que Chaplin era arredio e caricato como Carlitos, vão!

É isso. O assunto "histórias de vida" é inesgotável (e atrai outros). Pelo menos para mim, essa "abundância" é um orgasmo. Enquanto o ser humano não for extinto (ô, raça!), teremos muito o que conversar, seja em blogs, jornais, bares, no ônibus, e-mail, enfim.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

#Delíryos | Mais uma crítica capenga de TV

No antepenúltimo post eu tentei encarnar o “crítico de TV”, perceberam? Mas, na verdade, não tenho essa pretensão. Acreditem. Sou apenas mais um ‘bedelhudo’. No entanto, vou repetir a dose – porém, desta vez, em porção bem menor (todavia, sempre capenga). Permitam-me escrever poucas e parvas linhas sobre a novela Tempos Modernos? Depois de um mês de exibição, ainda cabe taxá-la de “a nova novela das 7”?

Questionamentos a parte, a verdade é que simpatizei com o folhetim, apesar de não acompanhá-lo com frequência. O cenário da novela, para mim, é o primeiro atrativo – São Paulo é sempre maravilhosa, embora, na ficção, esteja ainda mais bonita (romântico, quero acreditar que a beleza fictícia seja um prenúncio de como será a minha terra nos “tempos modernos” da vida real).

A crítica de Bosco Brasil, o autor, é extremamente válida, original e reflexiva. Medo, ganância e avidez pelo virtual são os três elementos principais que sustentam o enredo. Um homem pobre consegue crescer na vida e, para proteger a família – e um pouco mais –, constrói o Titan, um edifício-monstro, verdadeira cidade feita de trocentos andares. Não satisfeito, ele ainda quer mais. Então arruma confusão com o presidente da associação de uma galeria que é referência cultural no centro paulistano – afinal é imprescindível construir outros Titans. Agora a cobiça fala mais alto (e viva o capitalismo!). E a quimera dessa trama fica por conta das centenas de câmeras, sempre atentas a tudo o que acontece no mega condomínio (um “show de Truman”). O arsenal é comandado pelo engenhoso Frank, computador e “ombro amigo” de Leal (Antônio Fagundes), o ex-homem pobre.

A discussão mostra quão mecânica e previsível é a vida dirigida pela tecnologia, sobretudo. Viver num prédio luxuoso e confortável é sonho da maioria – o que não é nada condenável –, e hoje se tornaram comuns projetos habitacionais que prometem o mundo dentro de muros. Tudo pela “segurança”. Ledo engano. Desde quando existe segurança sem liberdade? Olha só a paranoia do ser humano! E egoísmo também. Funciona assim: você pode comprar a sua “segurança”? Então feche “a janela para não ouvir as mazelas do outros”, como canta a talentosa Roberta Sá. Resultado: perde-se calor humano. Logo só nos restam os computadores (os Franks) – estes sempre serão “úteis” para a troca de confidências, desabafos, diversão e para lembrar momentos marcantes da nossa trajetória. Pensar? É possível ter um cérebro eletrônico – no caso de Leal, uma sala com telas gigantes que projetam imagens importantes de sua vida; já os simples mortais têm o e-mail, o celular, o HD, a webcam, Ipod, Iphone, Ipad...

Diante disso, não é temerário afirmar que a modernidade, quase sempre, é fria e impalpável. Palmas ao Bosco pelo debate mais que necessário. Sem citar o texto, que, além de leve e inteligente, resgata a marca do horário: a comédia, o pastelão, o besteirol – sem cair no ridículo e no gratuito, como vinha acontecendo na últimas tramas.


Imagem: Divulgação
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domingo, 31 de janeiro de 2010

Tomás Eloy Martínez

Durante a produção do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) fiquei encantado com Tomás Eloy Martínez, escritor argentino. Final de domingo, 31, fuçando no trending topics do Twitter, deparo-me com a tag #TomasEloyMartinez. Pensei: será o lançamento de um livro? Não, não era. A mensagem publicada por uma usuária mexicana falava da morte do jornalista e grande soldado na luta contra a ditadura. Infelizmente, não venceu o cãncer.

Na minha monografia, citei uma das façanhas de Martínez em Santa Evita. Para homenageá-lo, publico o trecho:



No artigo A História do fim da análise, publicado em Biografia: sintoma da cultura (coletânea de estudos biográficos organizada por Fani Hisgail, 1997), o psicanalista Ricardo Goldenberg (1997) resgata um fato curioso do biografismo de Evita Péron, produção de Tomás Eloy Martínez (Santa Evita). Durante o confronto de informações referentes a união de Evita e Perón, veio à tona uma fraude do casal na certidão de casamento, que teve as informações confirmadas como verdadeiras por um escrivão público de Junín. No entanto, a verdade do enlace do lendário casal da Argentina dividia espaço com a realidade que os mesmos decidiram criar em torno de suas histórias. O casamento foi realizado dentro das formalidades legais, porém, os dados da certidão eram propositadamente artificiosos, como relatou Tomás:

"Perón mentiu o lugar da cerimônia e o estado civil; Evita mentiu a idade, o endereço, a cidade onde tinha nascido. Embora fossem imposturas evidentes, passaram-se mais de vinte anos antes de que alguém as denunciasse… Nenhum historiador, entretanto, teve a idéia de perguntar-se por que Perón e Evita mentiam. Não precisavam fazê-lo… Mentiram porque haviam decidido que a realidade seria, a partir de então, o que eles bem entendessem. Agiram, como agem os romancista" (MARTÍNEZ, 1995 apud
GOLDENBERG, 1997, p. 40-1).


Imagem: O Globo
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