quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Cebolas descascadas

Quase todos os dias nos deparamos com as polêmicas do showbiz. Não faz muito tempo que Mackenzie Phillips, filha de John Phillips – líder do famoso grupo The Mamas & the Papas –, morto em 2001, declarou à apresentadora Oprah Winfrey e à revista People que mantinha relações sexuais com o pai, que também lhe apresentou ao obscuro mundo das drogas. Detalhes da afinidade alucinógena e incestuosa podem ser conferidos na autobiografia que Mackenzie também acaba de lançar.

A notícia, de inicio, pode parecer chocante; depois, por se tratar de pedestres da esburacada calçada da fama, torna-se corriqueira. Mas vale uma reflexão, ainda que tardia – e talvez óbvia –, sobre o que é a produção autobiográfica. Pra começar, vale ressaltar o requisito básico para se escrever a própria história. Mandamento primordial: se o personagem não tiver poros encharcados de polêmicas, não vale a pena à aventura de publicar detalhes de uma “vidinha mais ou menos”. As historietas estarão fadadas ao mofo dos estoques, ao veludo do pó das prateleiras das livrarias e às cortantes farpas dos críticos. Afinal, autobiografia só é autobiografia se trouxer em suas páginas densos enredos costurados por escândalos e controvérsias – pelo menos, é isso que pede a indústria do “buraco da fechadura”.

Exemplos não faltam para sustentar essa tese, que não precisa de muitos para isso. Gunter Grass, escritor alemão e Nobel da literatura, em Descascando a cebola, confessou que, na adolescência, integrou a Wafen-SS, uma facção nazi. E, como sugere o título da obra, o autor, na época do lançamento, declarou que escrever sobre sua vida foi o mesmo que descascar uma cebola recheada de memórias E haja cascas para arrancar. É o que Alanis Morrissete também está fazendo.

Em recente declaração, a jovem cantora canadense disse que não economizará os invólucros de sua vida. Abuso sexual, experiência homossexual, drogas, bulimia e anorexia vão marcar boa parte da narrativa de vida da rock star. Aliás, os símbolos do rock têm experiências que ocupariam páginas e páginas de enciclopédias biográficas. Slash, que por muito tempo distorceu guitarras no decadente Guns n’ Roses, revelou ao publico detalhes de sua trajetória conduzida pela tríade clichê: sexo, drogas e rock‘n’roll. O músico contou pormenores de seu relacionamento com Traci Lords - famosa atriz dos sets pornôs - e da paranoia que o levou a ter uma coleção de armas em casa.

Em terras brasileiras temos a loira Vera Fischer representado o gênero. Ela tem quase 60 anos, portanto tudo o que tem pra contar não cabe em apenas um livro. Ela já está no segundo e será preciso mais alguns para Veroca contar as peripécias da garota que, nas aulas de redação dos colégios internos onde estudou, assustava as freiras, ao narrar histórias fictícias que traziam a bela como personagem, atuando ao lado dos Beatles. Nos contos, Vera tinha envolvimentos químicos e sexuais com os garotos de Liverpool. As narrativas prenunciavam como seria parte da vida real da eterna miss Brasil.

Enquanto alguns, impiedosos, quebram seus tetos de vidro, contando tudo – ou quase isso –, outros fazem o contrário, como o jogador Nicola Legrottaglie. Evangélico, em seus escritos, o zagueiro do Juventus condenou o homossexualismo e outras religiões. Não deixou de causar polêmicas.

Não faltam autores no gênero. Ou falta. Até Michael Jackson, não contente com tudo o que contavam os tabloides, desejava escrever a sua história – a verdadeira, quem sabe.

A verdade é que a produção autobiográfica é mesmo uma lavoura de cebolas. Ainda há muitas para descascar. E nossos olhos muito hão de chorar com as ácidas enzimas que as histórias da vida real produzem.

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Oscar: uma crônica maroniana


Enfim, cumpri minha maior missão no inesquecível ano de 2009. Admito, o "inesquecível" está carregado de romantismo, mas traz também muito orgulho e desmedidas doses de sensação de ter conquistado algo singularmente valioso. E conquistei. Além da minha formação - agora sou jornalista! (e dá-lhe mais romantismo...) -, escrevi o meu primeiro livro, Oscar: uma crônica maroniana.

A obra, resultado do meu TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, é um livro-reportagem que aborda fatos da trajetória de Oscar Maroni Filho, empresário da afamada boate Bahamas Club.

O percurso da reportagem me presenteou com muitas histórias - os bastidores da produção de um projeto jornalístico é sempre interessante, mas raramente os autores trazem à tona tais detalhes. Desejo contar algumas aqui (não agora!). Por enquanto, deixarei apenas uma mensagem sobre o fazer narrativas de realidade. Para narrar uma história de vida, o narrador também deve ter o compromisso - na verdade, tarefa - de abraçar todos os conflitos do personagem (ou dos personagens). Mais do que isso: deverá instituir a arte da coexistência. Afinal, o narrador, mesmo "feito de palavras" - como conceituou Mario Vargas Llosa em Cartas a un novelista -, também tem as suas aflições. É isso.

Para a apreciação de todos que acidentalmente - ou não - chegarem até esta página, deixo também a capa do livro.


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