quarta-feira, 14 de outubro de 2009

#Delíryos | O 'estranho'



O pensador Hegel postulou acerca das diferenças. E, às vezes, como é estranha a diferença do Outro.

Lembro-me que, ainda garoto, muito garoto, no bairro onde eu morava havia um tipo extremamente ‘bizarro’. Pode até ser preconceito usar qualquer termo depreciativo às diferenças de alguém, mas eu o considerava exacerbadamente ‘estranho’. Era o que me vinha à cabeça todas às vezes que me deparava com ele.

Imagine que o sujeito, vivendo nos impetuosos anos 80, era um personagem no bairro. E isso se dava por sua indumentária e outras esquisitices que ele imprimia. Parecia aquela velha história de filme: o cara que ficou anos em coma e quando acordou, claro, estava inteiramente empacado no tempo. Não sei o seu verdadeiro nome, mas todos o chamavam de Boa Gente. O caricato Boa Gente ostentava um charmoso cabelo black power, vestia-se com camisas de seda ultra-estampadas, que brilhavam de longe; carregava uma dúzia de medalhões no pescoço e, para completar o arrojado figurino, trajava justíssimas calças boca-de-sino e enormes saltos cavalo-de-aço. Pensando bem, o homem não deixava de ser impetuoso.

Não havia como não parar quando aquele pedaço dos anos 70 passava. E parecia que ele se sentia o ‘famoso’ – naquela época não era comum o termo ‘celebridade’. Chegava a acenar às pessoas. Mas eu, confesso, morria de medo daquele individuo. Aquele ‘diferente’ era muito 'estranho' para o garoto que não tinha nem 10 anos ainda.

O impressionante é que Boa Gente fazia-se presente mesmo quando não estava estampado à nossa frente. O bairro de uma só vez podia visualizá-lo. Quando menos esperávamos, podíamos ouvir o infinito sonoro “Ôooooooooooooooooooooooooooooooooô!!!!! Boa Gente colocava a boca num microfone e gritava por horas a vogal ‘o’. Ninguém entendia. Só restava-nos, em nossa vã consciência, chamá-lo de louco. O díspar Boa Gente causava a impressão de que viera ao mundo só para irradiar espanto.

Boa Gente era barbeiro – o cabeleireiro de homem. Ainda alcancei essa época. Uma vez passei em frente a sua barbearia e o flagrei em cima de um banquinho, segurando o seu inseparável microfone. Olhava para o teto - talvez tendo alguma visão - e, interminavelmente, gritava:“Ôooooooooô!!” . Não conseguia imaginar como alguém tinha coragem de entregar os cabelos àquele indivíduo. Se desse a louca, ele poderia ser capaz de retalhar seu cliente. Era o que eu pensava. E, se eu estivesse desacompanhado de um adulto, mudava de calçada, só para não passar perto de Boa Gente. Contudo, que estranho, eu adorava vê-lo.

Numa manhã o bairro inteiro já estava sabendo do triste fim de Boa Gente. Aconteceu o contrário do que eu pensava. Por uma máquina de escrever, trucidaram Boa Gente. Foi o que se comentou. O assassino utilizou a própria navalha do ‘estranho’ para retalhar-lhe o corpo. O ‘famoso estranho’ foi o assunto nas rodas da feira, nos balcões das padarias, nas filas dos supermercados, nas mesas dos bares e, quem sabe, em outras barbearias.

Por muito tempo foi difícil cruzar uma esquina e não dar de cara com o 'cabide setentista'. Foi estranho não ouvir mais aquela gritaria de quase todas as tardes. Pensar em tudo isso, estranhar a falta do ‘estranho’, trazia-o de volta. Como se fosse mágica, Boa Gente se materializava na minha frente. Eu não sentia mais medo, só queria encontrá-lo, ouvir seus brados. Mas o cara, que era diferente porque ele era ele, havia levado sua exótica figura a outro lugar. Talvez para o estranho mundo dos estranhos.




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