segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A “quilometragem masculina” de Garrincha

Acabei de ler 'Biografias & biógrafos: jornalismo sobre personagens', do jornalista e pesquisador Sérgio Vilas Boas. O livro, que "é um levantamento de diversas questões envolvidas no processo biográfico", também traz uma história que eu desconhecia sobre 'Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha', primorosa biografia tecida por Ruy Castro, grande alquimista do nosso biografismo.


A escrita de uma biografia pode proporcionar alguns contratempos ao seu autor, principalmente se a obra é nãoautorizada – lembram do drama de Paulo César Araújo, autor de 'Roberto Carlos em detalhes'? E se a narrativa não abordar tão somente fatos cândidos da vida do biografado, o autor viverá um pesadelo e estará envolto em maus lençóis. Foi o que aconteceu com Ruy Castro, que conheceu dias dramáticos e se transformou em personagem de um enredo judicial, tudo porque informou as medidas da "quilometragem masculina" do craque: 25 centímetros – fato importuno para as herdeiras de Mané Garrincha.

Furiosas, pois consideraram que o jornalista-escritor havia arranhado a imagem do pai- jogador, recorreram à justiça. Por conta disso, em 27 de novembro de 1995, Ruy Castro tirava seu time de cima das prateleiras das livrarias. A venda de sua obra estava proibida.

E o que inicialmente seria uma biografia, virou uma novela. Em abril de 2001, Castro ainda protagonizava outros episódios desta tragédia editorial. Na época, a juíza Maria Helena Martins, da 42ª Vara Civil do Rio de Janeiro, condenava a editora Companhia das Letras - responsável pela publicação - a pagar mil salários mínimos à família da 'estrela solitária' - a briga também envolvia 180 fotografias de Garrincha, publicadas no livro. O valor da indenização acendeu ainda mais a revolta da família, que exigia R$ 1 milhão, alegando danos materiais e morais. O desembargador João Wehbi Dib negou o pedido.

Hoje, passado o contratempo, a justificativa do magistrado deve soar cômica até para as herdeiras do jogador de Pau Grande – Calma! Este é o nome da cidade onde nasceu o ídolo das pernas mais tortas que já defenderam o Botafogo. Dib ponderou que "o tamanho do pênis de Garrincha deveria ser motivo de orgulho para os familiares, não uma ofensa". Segundo o livro de Vilas Boas, Dib ainda argumentou com as seguintes palavras: "as asseverações de possuir um órgão sexual de 25 centímetros e ser uma 'máquina de fazer sexo' [título de um dos capítulos], antes de serem ofensivas, são elogiosas, malgrado custa crer que um alcoolista tenha tanta potência sexual. Há que assinalar que ter membro sexual grande, pelo menos no nosso país, é motivo de orgulho, posto que significa masculinidade".

Mesmo com a hilária e – por que não? – justa conclusão do desembargador, o Conselho de Desembargadores reconheceu a necessidade de indenizar as filhas de Garrincha: as moças receberam – e recebem – 'pequenos' 5% do valor das vendas do livro.

A verdade é que o quiproquó não passou de uma besteirinha, uma firulinha, não acham? O que são 25 centímetros comparados à nobreza da arte de Garrincha, que, sem dúvida, habita os gramados mais largos e verdejantes do Olimpo futebolístico mundial? Mais que virilidade, aí está a grandeza e o brilho da “estrela solitária”, tão bem delineados por Ruy Castro.


Post re-ditado em 31 de março de 2010

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Um comentário:

  1. hahaha, cara, imagine só: Garrincha entrava em campo e comi'a bola! Depois e comemorar e depois comia...

    ESTADO FÍSICO IMPECÁVEL!

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