quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Cebolas descascadas

Quase todos os dias nos deparamos com as polêmicas do showbiz. Não faz muito tempo que Mackenzie Phillips, filha de John Phillips – líder do famoso grupo The Mamas & the Papas –, morto em 2001, declarou à apresentadora Oprah Winfrey e à revista People que mantinha relações sexuais com o pai, que também lhe apresentou ao obscuro mundo das drogas. Detalhes da afinidade alucinógena e incestuosa podem ser conferidos na autobiografia que Mackenzie também acaba de lançar.

A notícia, de inicio, pode parecer chocante; depois, por se tratar de pedestres da esburacada calçada da fama, torna-se corriqueira. Mas vale uma reflexão, ainda que tardia – e talvez óbvia –, sobre o que é a produção autobiográfica. Pra começar, vale ressaltar o requisito básico para se escrever a própria história. Mandamento primordial: se o personagem não tiver poros encharcados de polêmicas, não vale a pena à aventura de publicar detalhes de uma “vidinha mais ou menos”. As historietas estarão fadadas ao mofo dos estoques, ao veludo do pó das prateleiras das livrarias e às cortantes farpas dos críticos. Afinal, autobiografia só é autobiografia se trouxer em suas páginas densos enredos costurados por escândalos e controvérsias – pelo menos, é isso que pede a indústria do “buraco da fechadura”.

Exemplos não faltam para sustentar essa tese, que não precisa de muitos para isso. Gunter Grass, escritor alemão e Nobel da literatura, em Descascando a cebola, confessou que, na adolescência, integrou a Wafen-SS, uma facção nazi. E, como sugere o título da obra, o autor, na época do lançamento, declarou que escrever sobre sua vida foi o mesmo que descascar uma cebola recheada de memórias E haja cascas para arrancar. É o que Alanis Morrissete também está fazendo.

Em recente declaração, a jovem cantora canadense disse que não economizará os invólucros de sua vida. Abuso sexual, experiência homossexual, drogas, bulimia e anorexia vão marcar boa parte da narrativa de vida da rock star. Aliás, os símbolos do rock têm experiências que ocupariam páginas e páginas de enciclopédias biográficas. Slash, que por muito tempo distorceu guitarras no decadente Guns n’ Roses, revelou ao publico detalhes de sua trajetória conduzida pela tríade clichê: sexo, drogas e rock‘n’roll. O músico contou pormenores de seu relacionamento com Traci Lords - famosa atriz dos sets pornôs - e da paranoia que o levou a ter uma coleção de armas em casa.

Em terras brasileiras temos a loira Vera Fischer representado o gênero. Ela tem quase 60 anos, portanto tudo o que tem pra contar não cabe em apenas um livro. Ela já está no segundo e será preciso mais alguns para Veroca contar as peripécias da garota que, nas aulas de redação dos colégios internos onde estudou, assustava as freiras, ao narrar histórias fictícias que traziam a bela como personagem, atuando ao lado dos Beatles. Nos contos, Vera tinha envolvimentos químicos e sexuais com os garotos de Liverpool. As narrativas prenunciavam como seria parte da vida real da eterna miss Brasil.

Enquanto alguns, impiedosos, quebram seus tetos de vidro, contando tudo – ou quase isso –, outros fazem o contrário, como o jogador Nicola Legrottaglie. Evangélico, em seus escritos, o zagueiro do Juventus condenou o homossexualismo e outras religiões. Não deixou de causar polêmicas.

Não faltam autores no gênero. Ou falta. Até Michael Jackson, não contente com tudo o que contavam os tabloides, desejava escrever a sua história – a verdadeira, quem sabe.

A verdade é que a produção autobiográfica é mesmo uma lavoura de cebolas. Ainda há muitas para descascar. E nossos olhos muito hão de chorar com as ácidas enzimas que as histórias da vida real produzem.

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Oscar: uma crônica maroniana


Enfim, cumpri minha maior missão no inesquecível ano de 2009. Admito, o "inesquecível" está carregado de romantismo, mas traz também muito orgulho e desmedidas doses de sensação de ter conquistado algo singularmente valioso. E conquistei. Além da minha formação - agora sou jornalista! (e dá-lhe mais romantismo...) -, escrevi o meu primeiro livro, Oscar: uma crônica maroniana.

A obra, resultado do meu TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, é um livro-reportagem que aborda fatos da trajetória de Oscar Maroni Filho, empresário da afamada boate Bahamas Club.

O percurso da reportagem me presenteou com muitas histórias - os bastidores da produção de um projeto jornalístico é sempre interessante, mas raramente os autores trazem à tona tais detalhes. Desejo contar algumas aqui (não agora!). Por enquanto, deixarei apenas uma mensagem sobre o fazer narrativas de realidade. Para narrar uma história de vida, o narrador também deve ter o compromisso - na verdade, tarefa - de abraçar todos os conflitos do personagem (ou dos personagens). Mais do que isso: deverá instituir a arte da coexistência. Afinal, o narrador, mesmo "feito de palavras" - como conceituou Mario Vargas Llosa em Cartas a un novelista -, também tem as suas aflições. É isso.

Para a apreciação de todos que acidentalmente - ou não - chegarem até esta página, deixo também a capa do livro.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

#Delíryos | O 'estranho'



O pensador Hegel postulou acerca das diferenças. E, às vezes, como é estranha a diferença do Outro.

Lembro-me que, ainda garoto, muito garoto, no bairro onde eu morava havia um tipo extremamente ‘bizarro’. Pode até ser preconceito usar qualquer termo depreciativo às diferenças de alguém, mas eu o considerava exacerbadamente ‘estranho’. Era o que me vinha à cabeça todas às vezes que me deparava com ele.

Imagine que o sujeito, vivendo nos impetuosos anos 80, era um personagem no bairro. E isso se dava por sua indumentária e outras esquisitices que ele imprimia. Parecia aquela velha história de filme: o cara que ficou anos em coma e quando acordou, claro, estava inteiramente empacado no tempo. Não sei o seu verdadeiro nome, mas todos o chamavam de Boa Gente. O caricato Boa Gente ostentava um charmoso cabelo black power, vestia-se com camisas de seda ultra-estampadas, que brilhavam de longe; carregava uma dúzia de medalhões no pescoço e, para completar o arrojado figurino, trajava justíssimas calças boca-de-sino e enormes saltos cavalo-de-aço. Pensando bem, o homem não deixava de ser impetuoso.

Não havia como não parar quando aquele pedaço dos anos 70 passava. E parecia que ele se sentia o ‘famoso’ – naquela época não era comum o termo ‘celebridade’. Chegava a acenar às pessoas. Mas eu, confesso, morria de medo daquele individuo. Aquele ‘diferente’ era muito 'estranho' para o garoto que não tinha nem 10 anos ainda.

O impressionante é que Boa Gente fazia-se presente mesmo quando não estava estampado à nossa frente. O bairro de uma só vez podia visualizá-lo. Quando menos esperávamos, podíamos ouvir o infinito sonoro “Ôooooooooooooooooooooooooooooooooô!!!!! Boa Gente colocava a boca num microfone e gritava por horas a vogal ‘o’. Ninguém entendia. Só restava-nos, em nossa vã consciência, chamá-lo de louco. O díspar Boa Gente causava a impressão de que viera ao mundo só para irradiar espanto.

Boa Gente era barbeiro – o cabeleireiro de homem. Ainda alcancei essa época. Uma vez passei em frente a sua barbearia e o flagrei em cima de um banquinho, segurando o seu inseparável microfone. Olhava para o teto - talvez tendo alguma visão - e, interminavelmente, gritava:“Ôooooooooô!!” . Não conseguia imaginar como alguém tinha coragem de entregar os cabelos àquele indivíduo. Se desse a louca, ele poderia ser capaz de retalhar seu cliente. Era o que eu pensava. E, se eu estivesse desacompanhado de um adulto, mudava de calçada, só para não passar perto de Boa Gente. Contudo, que estranho, eu adorava vê-lo.

Numa manhã o bairro inteiro já estava sabendo do triste fim de Boa Gente. Aconteceu o contrário do que eu pensava. Por uma máquina de escrever, trucidaram Boa Gente. Foi o que se comentou. O assassino utilizou a própria navalha do ‘estranho’ para retalhar-lhe o corpo. O ‘famoso estranho’ foi o assunto nas rodas da feira, nos balcões das padarias, nas filas dos supermercados, nas mesas dos bares e, quem sabe, em outras barbearias.

Por muito tempo foi difícil cruzar uma esquina e não dar de cara com o 'cabide setentista'. Foi estranho não ouvir mais aquela gritaria de quase todas as tardes. Pensar em tudo isso, estranhar a falta do ‘estranho’, trazia-o de volta. Como se fosse mágica, Boa Gente se materializava na minha frente. Eu não sentia mais medo, só queria encontrá-lo, ouvir seus brados. Mas o cara, que era diferente porque ele era ele, havia levado sua exótica figura a outro lugar. Talvez para o estranho mundo dos estranhos.




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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nelson explica


"É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez."

Nelson Rodrigues





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sábado, 12 de setembro de 2009

Caminhando e sempre cantando Vandré

É sempre muito emocionante e contagiante ouvir Pra não dizer que não falei das flores, um dos maiores hinos da música popular brasileira. E nem precisa ser na voz de Vandré, o poeta que compôs a canção. Até o pastoso timbre de um bêbado tentando cantarolar a canção é o suficiente para nos juntarmos ao desconhecido e etílico cantor, e então entoamos: "caminhando e cantando e seguindo a canção, larará, larará, larará..."

Hoje Vandré está apagando 74 velinhas. Aliás, registro uma falta da nossa imprensa: fiz uma busca rápida pelo bom, velho e sempre rico Google, na intenção de achar pelo menos alguma nota lembrando Vandré, mas... zero de zero para aproximadamente zero aniversário de Geraldo Vandré...

Muitas felicidades, muitos anos de vida ao nosso engajado cantor e um dos mais sublimes personagens da MPB.





P.S: Leci Brandão também apaga velinhas hoje. Prestei homenagem à sambista no Expressão MPB.




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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Chico Mendes: um símbolo de todo o planeta


Acabei de ler Chico Mendes: crime e castigo e já o adjetivei como um dos livros mais instigantes que conheci e li com muita fome (Sim, os chamados livros bons, a cada página, nos causam aquela sensação de estômago vazio. Então não nos restam outra alternativa, a não ser devorá-los com muita sofreguidão).

O texto é uma série de reportagens que Zuenir Ventura fez para o Jornal do Brasil (na época do assassinato de Chico Mendes, passando pelo julgamento dos criminosos que tiraram a vida do "símbolo de todo o planeta" - como Chico foi considerado pelo New York Times -, e na volta do repórter ao Amazonas, depois de 15 anos do crime). Depois a Companhia das Letras transformou a investida jornalística de Zuenir em um clássico do Jornalismo Literário.


Procurando textos, resenhas e outras informações sobre o assunto, encontrei uma crônica também de autoria de Zuenir. Para quem ainda não leu o livro, o texto pode ser uma avant premiére dessa obra (e do personagem) que todo brasileiro deveria conhecer. Portanto, clique aqui e faça a sua parte: conheça um pouco de Chico Mendes.
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domingo, 26 de julho de 2009

Leila Diniz: simplesmente empolgante



Você conhece Leila Diniz? Aquela mulher “revolucionária”? Não, Leila não foi só uma “revolucionária”. É por isso que hoje eu quero deixar uma dica de leitura. Toda mulher é meio Leila Diniz, da antropóloga Mirian Goldenberg. Um verdadeiro dossiê da vida da atriz que infelizmente desfalcou a dramaturgia brasileira tão precocemente.

O livro, apesar da densidade acadêmica (trata-se de uma tese de doutorado), não deixa de ser instigante. Não existe a menor possibilidade de finalizar a leitura sem saber quem foi Leila Diniz e o melhor: se apaixonar por esta mulher.

Goldenberg faz uma análise de quatro obras biográficas que retrataram Leila: os filmes Leila Diniz, de Luiz Carlos Lacerda, de 1987 (Eu sou velho! Lembro que vi esse longa na TV Manchete!); Leila Para Sempre Diniz, dos diretores Sérgio Resende e Marisa Leão (1974) e Já que Ninguém me Tira Para Dançar, de Ana Maria Magalhães (1982), além dos livros Leila Para Sempre Diniz, também de Lacerda (1987), e Leila Diniz, de Claudia Cavalcanti (1983). Quantas abordagens! Recentemente o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos também biografou Leila.

A autora aponta os focos reducionistas que inevitavelmente os quatro autores deram à figura feminina que fez emergir novos conceitos e valores na mulher brasileira. Nas palavras de Massimo Canevacci, Mirian “esclareceu e iluminou Leila Diniz”. Ela não era só a namorada de mil homens, não era apenas exuberantemente desbocada ou o pesadelo dos censores.

O excitante em Leila era a naturalidade como brotou essa “divindade Leila Diniz”, fenômeno que nem ela mesma entendia, pois não aceitava o rótulo de “revolucionária”. Conforme depoimento de Ruy Castro (no livro de Goldenberg), quem a convidasse para levantar bandeiras, ela “mandaria esta pessoa fazer outra coisa com a bandeira” Tão diferente dos chamados “modelos feministas” que temos atualmente, como Madonna e sua cria. Leila só destilava a poesia mais incendiária e verdadeira que pode fluir de uma mulher. Tanto que inspirou outros poetas, como Rita Lee, Erasmo Carlos e o Nosso Senhor dos Trovadores, Drummond, que lhe dedicou a poesia Leila Para Sempre Diniz, no Jornal do Brasil, dias depois da morte da atriz.

Pronto: me empolguei. Leila era isso: empolgação!

Para finalizar: Goldenberg finaliza sua análise com uma deleitável entrevista, na verdade um bate-papo de Leila com seus amigos de O Pasquim.
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#Delíryos | Cadelinha inflável


Claro que você já ouviu falar, viu, ou, quiçá - no caso dos homens - já teve tórridos momentos com uma boneca inflável. Tudo bem, foi um momento de carência. Agora chegou a vez dos pobres cãezinhos não castrados deixarem de lado as almofadas, os velhos bichos de pelúcia e, no caso dos mais afoitos, as pernas alheias.

Em breve chegará às vitrines dos pet shops a primeira “cadelinha inflável”. Isso mesmo! A DoggieLoverDoll, lançamento da PetSmiling – que apresentou o mimo na última edição da Pet South América, que aconteceu de 22 a 24 de julho no Transamérica Expo Center, em São Paulo - chegou para mudar o destino cruel dos pobres cães que estavam fadados a serem somente os bilus-bilus de seus donos tão tiranos.

Doggie é feita de borracha e o canal vaginal tem um reservatório onde os abstinentes totós poderão despejar suas “ansiedades” e “latidos desnecessários”. Depois cabe ao dono limpar os resquícios de luxuria do seu cão (nada mais justo). Para o vuco-vuco ficar mais animado e para que a “menina” da cadelinha inflável continue sempre vistosa, o brinquedo traz um lubrificante como brinde. Presente pra cão nenhum querer morder criançinha.

Eu, a torcida corintiana e, principalmente, os caninos ainda somos a favor do método convencional. No entanto, se você prefere deixar seu animalzinho longe das cachorras, pelo menos proporcione essa felicidade ao bicho, como fez Marco Giroto, inventor do brinquedinho sexual e proprietário da PetSmiling. “Tive a idéia de fabricar a boneca quando meu maltês começou a querer pegar a perna de todo mundo. Fui pesquisar sobre o produto para comprar e não encontrei em lugar nenhum do mundo. Resolvi fabricá-lo!”.

Ficou excitado com a novidade? Clique aqui e adquira já a felicidade do seu cão, que, enquanto você lia este post, deu aquela molestadinha básica na sua perna.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Billie Holiday

De vez em quando não resisto a tentação de publicar posts efemeridistas. Mas hoje todos hão de me perdoar, principalmente os deuses da música - vou falar diretamente aos amantes da boa música, sobretudo do jazz. Não é preciso lembrar que hoje é o dia do cinquentenário da morte de Billie Holiday, não é? Billie partiu, mas tenho a impressão (acho que o mundo tem), no entanto, de que a divindade esteja vagando por aí, cumprindo a agenda de uma mega turnê. Afinal, a mulher ainda inspira muitos talentos e embala a dor e as paixões de muita gente. A concepção é clichê, mas, também, é inegável: a catedrática do jazz é imortal.

Billie teve uma vida digna de diva, com direito a todas as excentricidades, aventuras, céu e inferno. Na mesma veia que escoava seu talento indubitável, corria também o fel amargo das drogas. Sua vida foi movida a muitos amores, amores bandidos, que contribuíram para uma trajetória tão vertiginosa, lancinante e que entrou para os capítulos mais emocionantes da história da música universal. Recomendo um passeio pela obra e vida de Billie - recentemente, li um delicioso perfil escrito por Ruy Castro (Saudades do Século 20), mas vale pesquisar outras obras, pois Billie é indispensável.




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sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Pop perdeu seu Rei

Sempre superlativo, o eterno Michael Jackson causou (ou está causando?) seu último frenesi. Morreu, inesperadamente, deixando fãs e também os avessos a sua excêntrica figura em estado de apoplexia. Dúvida e certeza duelam na cabeça de milhões de pessoas. É difícil acreditar, mas o Pop perdeu seu Rei.

A morte proporcionou ao Rei o título que ele sempre cobiçou - em certa ocasião, numa homenagem que a MTV prestou ao astro, no palco do evento, Michael agradeceu pelo prêmio de Artista do Milênio, que, na verdade, só existiu na imaginação do mito musical.

Esqueçam as excentricidades e as polêmicas de Michael. Agora, é impossível não atribuir tal rótulo ao intérprete de Thriller. É o que faz o mundo neste momento. Afinal, como considerou o apresentador americano Larry King, é difícil amar Michael Jackson, mas é impossível odiá-lo.

Quem esquecerá os deslizantes passos dançantes que Michael imortalizou na noite de 16 de maio de 1983, num teatro de Los Angeles, ao cantar um clássico de sua discografia, Billie Jean?





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sábado, 13 de junho de 2009

Cacilda e Marília



Há 40 anos as luzes dos tablados brasileiros viveram um dos dias mais penumbrosos. Partia para outra dimensão uma das mais iluminadas divindades do nosso teatro, Cacilda Becker.

Sei que não tenho aptidão alguma para dissertar sobre teatro e muito menos sobre Cacilda. Porém, depois de assistir Marília Pêra, na última sexta-feira (12), falando ao Jô que o ator em cena vive à beira de um colapso, atrevo-me a dedicar algumas papalvas linhas sobre a morte ou - como prefere adjetivar a trupe do Teatro Oficina - à ETHERNIDADE de Becker.

Tratando-se de Marília Pêra, não teria motivos para que eu ficasse intrigado com o depoimento da atriz que integra a casta de Cacilda. Mas, como já deixei claro, sou leigo sobre teatro e muito mais ao que se refere à arte de atuar. Penso, no entanto, que a forma como Cacilda morreu é a melhor ilustração para a concepção de Marília.

No dia 6 de maio de 1969, durante a apresentação de Esperando Godot, a eterna dama do teatro foi acometida por um aneurisma cerebral. A morte, personagem cruel, que - de acordo com as palavras de Marília - duela ferozmente com os atores quando estes estão em cena, 38 dias depois, em 14 de junho, levou Cacilda.


Talvez para os versados sobre teatro, minha observação esteja enfartada de ingenuidade. Porém, roubo as palavras de Wilde e lembro que "nada se parece tanto com a ingenuidade quanto o atrevimento". E é isso que fazem os atores cada vez que sobem aos palcos. Doam suas vidas aos personagens e, atrevidos, enfrentam a morte. Um viva às Marílias! Um viva às Cacildas!
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terça-feira, 9 de junho de 2009

#Delíryos | O amor é importante, porra!

Não faz nem um mês que, a caminho de Moema, passando pela Faria Lima, me deparei com uma pichação que, de tão chocante, transcendeu o muro e ficou grafada no meu pensamento e - por que também não dizer? - no meu coração. "O amor é importante, porra" Juro que ao avistar a mensagem - que momentaneamente curou a minha miopia - fiquei estatizado. Por alguns segundos, parei no tempo. Não ouvia nem enxergava nada. Somente a frase, com suas poucas letras, inundava meus olhos e o meu pensamento, que foi chacoalhado pela força da mensagem.

Domingo (7), a matéria de capa da Revista da Folha abordou a famosa citação, pichada em vários pontos de São Paulo. De algumas opiniões colhidas sobre a máxima, a percepção da escritora Clarah Averbuck foi de encontro a minha. "Só 'o amor é importante' talvez soasse meio baba, mas 'o amor é importante, porra' serve como uma chacoalhada", falou Averbuck.

Em tempos de individualismo e egoísmo cancerígenos; tempos de conflitos universais, tempos em que tudo é moda, menos o amor; tempos em que o lado mais perverso do homem está em ascensão, surge - ninguém sabe de onde - um mensageiro com palavras tão simples, trazendo um mandamento primordial que a cada segundo cai no limbo do bueiro que se tornou a consciência de grande parte da humanidade.

A equipe de reportagem da Revista bem que tentou descobrir a identidade do 'emissário do amor', mas não obteve sucesso. Acredito que a curiosidade de querer saber quem é o articulista seja o sentimento que todos têm depois do choque provocado pelas breves e advertivas palavras. Conhecê-lo seria bom. O abraçaríamos e certamente seríamos contagiados por seu espírito tão nobre. No entanto, para ele, aparecer é o que menos importa. Para ele, o importante é que cada espectador de sua mensagem se conscientize, de forma pueril e, ao mesmo tempo, brusca, que o amor deve ter lugar cativo no nosso cotidiano tão tacanho, e, sobretudo, nos nossos atos, nos nosso corações.




Foto de Marcelo Penna
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sábado, 6 de junho de 2009

#Delíryos | Dias de Scrat


Depois de milênios sem passar por aqui, hoje, não sei se por impulso, tive vontade de trazer a público o motivo da minha ausência (que ninguém está percebendo, é verdade) : meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) - pois é, faltam poucos meses para que eu receba, oficialmente, o 'título' de jornalista. Enquanto isso, vivo meus dias de Scrat, aquele pobre esquilinho do filme A Era do Gelo. O moço corria, hein? Estou na mesma condição.

Bem, voltando ao TCC... Eu pensei em montar um blog, bem bonitinho e tal, uma coisa mais oficial sobre o tema do meu trabalho, mas tudo anda tão corrido, mil livros para ler, ensaios, artigos jornalísticos e acadêmicos, calhamaços de não-sei-lá-o-quê. Então, a partir de hoje, sempre que possível, postarei alguns detalhes (mínimos, é claro) sobre o meu trabalho.

Para começar, vou apresentar o tema: biografia do empresário Oscar Maroni Filho. E antes que alguém pergunte "por que biografar o brasileiro mais polêmico e instigante?", apresento a minha justificativa.

Torna-se importante narrar a história de um personagem que ganhou notoriedade tanto na sociedade quanto na mídia, que explorou (e ainda explora) avidamente a imagem de Oscar Maroni, transformando-o em uma caricatura, interpretando-o com imposições e convicções inflexíveis.

Até mesmo os veículos que dispuseram seus espaços com a intenção de retratá-lo, visionaram o mesmo foco, explorando sua figura e invadindo sua privacidade com altas doses de sensacionalismo. Tais posturas também mostram a carência que os veículos de comunicação, principalmente os impressos, têm em desenvolver - como faziam as revistas O Cruzeiro e Realidade, no Brasil, e Esquire, The New Yorker, Biography e outras, nos Estados Unidos - reportagens biográficas (os chamados close-ups) em seus conteúdos editoriais.

Além desta realidade, este trabalho também pode ser justificado pela admiração que o herói desta biografia exerce sobre parte da sociedade e, principalmente, ao autor desta obra. Afinal, não existem códigos que recriminem esta justificativa. Até mesmo biógrafos consagrados partem deste sentimento para a produção de suas obras, como ponderou Jorge Caldeira em entrevista ao pesquisador Sérgio Vilas Boas . “Admiração não tem nada a ver com concordar, venerar ou apoiar o que o sujeito fez ou faz em sua vida. A decisão sobre se alguém é excepcional é do biógrafo. É ele quem acredita que determinado sujeito é extraordinário, mesmo não sendo famoso. Ele só deve biografar alguém que admire, pelo bem ou pelo mal. Sem admiração, é impossível”.

Por hoje é isso. Eu volto a falar do Don Oscar! Deixa eu correr!

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sábado, 16 de maio de 2009

Santo Agostinho

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

#Delíryos | Você ganhou um Astra e mais 4 mil reais!


Criatividade: é tudo o que eu desejo para os golpistas enjaulados. Ontem, por volta de sete e alguma coisa da noite, acordei com o bip de mensagem do meu celular. Ainda sonolento, me deparo com um torpedo que, se fosse verdade, hoje eu nem estaria aqui contando esta história. Em caixa alta, o tal aviso informava: "SBT INF > PARABENS! VOCE GANHOU UM ASTRA SEDAN + 4.000 MIL REAIS. SUPER LEILAO 2009. INF > LIGUE GRATIS DO SEU TEL FIXO. P/ 0318596668421. SENHA. *2530*".

Não vou mentir, eu tinha acabado de acordar, então, por um segundo eu acreditei. Podem em chamar de OTÁRIO. No entanto, lembrei: tenho aversão a esses concursos promocionais, mas minha mãe até gosta. Mais uma vez, pensei: quem sabe ela se inscreveu em uma dessas promoções falaciosas.

Também não vou negar: sempre fui louco para que um desses golpistas 'promocionais' - leia-se 'barato' - tentasse me passar para trás. Decidi ligar, mas não do meu telefone, é claro. Fui a um orelhão.

"Central SBT", disse um homem com sotaque. Eu perguntei: "SBT"?. Ele derrubou a ligação. Tentei outra chamada. Depois de muita insistência, fui atendido por outro 'operador de telemarketing engaiolado' (tenho certeza que são presidiários!). Dei um de mané (ou realmente sou um?). "Oi, eu recebi uma mensagem dizendo que ganhei um Astra e mais 4 mil reais". "Recebeu quando?" - este tinha mais sotaque ainda. "Quase agora", respondi. "Tá FALANU de TÉLÉFONE fixo?", perguntou. "Sim!", respondi. "HOMI, você tá FALANU de TÉLÉFONE fixo público. Ligue de sua casa, viu?". Desligou.

Tentei informar o SBT, mas a central falsa da emissora é mais rápida no atendimento - eles estão cumprindo à risca as novas leis dos call centers. Não desisti, enviei um e-mail para a equipe de jornalismo. Não tive resposta.

Não satisfeito, inventei de enviar um torpedo promocional para os números do 'SBT do nordeste' ( o outro é 85 - 8759.0184) com a seguinte mensagem: "Justiça brasileira informa: estamos devolvendo sua-mais-que-devida-liberdade de volta. Ligue 190. Senha: golpista do nordeste".

E foi assim, caótico, que meu domingão chegou ao fim. Ah, quero deixar bem claro que não tenho nada contra sotaques e muito menos sou xenófobo. Apenas dei nome aos bois. Fiquem atentos!








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terça-feira, 14 de abril de 2009

#Delíryos | Serviços de barbearia

Imagina você, homem, chegar a uma barbearia e ser recebido por uma gostosa trajando uma transparente e curtíssima camisola (e nada mais!). Não, não estou delirando e nem tirei o dia para isto. Esta barbearia existe e está localizada... em Denver, Estados Unidos. Ficou jururu? Eu também.


Faz um tempinho que li a reportagem (que desta vez a fonte não será citada – picaretagem mesmo!) e achei a ideia pra lá de singular (e boa, por que não?).


E olha só: para aproveitar todos os detalhes das 'camisolas' que desfilam pelo salão, os marmanjos não ficam só no serviço de ‘A Little Off The Top’ (que também dá nome ao local), o mesmo que ‘tirar um pouco da parte de cima’. Enquanto as curvilíneas barbeiras tosquiam as madeixas dos galalaus, eles ficam com os pés de molho – sim, o serviço é completo (ou quase isso): cabelo, barba, bigode, corpitchos suculentos roçando nos ombros dos mancebos, e, na saída, um brinde: um beijinho (no rosto, não se entusiasmem novamente!).


O dono do local é personagem quase desconhecido. Depois que foi mal-interpretado pela imprensa local, não dá entrevistas nem com a garantia de ter Angelina Jolie como funcionária por um dia. Na terra do tio Obama, a prostituição é proibida, mas uma brincadeirinha assim PÓODI!!


E aí? Já passou da hora de dar um tapinha na cabeleira? Corre pra dar um jeito nisso, rapaz! Ou melhor: deixe que aquele ser (bem parecido com você), que durante o corte só fala no Ronaldinho ou no último crime hediondo, ou, pior: se mete a contar as piadas mais infames, e numa dessas, meu amigo, sem querer (quero acreditar), resvala o ‘pacote’ no seu ombro... Nem é bom, nesses casos, dizer que a vida é DURA (pode soar como um trocadilho – a situação não é nada jocosa, vamos combinar)


Bem, arrematarei esse papo de barbearia brasileira com um ato de redenção: quem quiser ler as impressões do repórter Daniel Bergamasco (Revista da Folha), que testou os serviços do salão americano, clique aqui.




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terça-feira, 7 de abril de 2009

Amy


Sou apaixonado por música, e faço questão de escancarar esta paixão para o mundo. Cada fase da minha vida eu vivo um momento de eufórico fanatismo por algum artista da música. Desta vez escolhi Amy Winehouse. Já sei tudo sobre as canções da incendiária diva pop, e mais: estou viajando na 'montanha-russa' que é a vida desta mulher, como definiu o biógrafo da moça, Chas Newkvy-Burden (assim que eu conseguir finalizar a leitura - sim, porque eu estou conciliando com mais uma dezena de livros - postarei algumas curiosidades sobre este furacão inglês).

Me and Mr. Jones, 15º faixa do segundo álbum de Amy - Back to Black - pela composição instrumental, é a minha preferida. A letra é praticamente um momento de possessão - a cantora de talento invulgar, por repetidas vezes, deixa bem claro: "Ninguém fica entre eu e meu homem". No entanto, além do voluptuoso timbre de Winehouse, a musicalidade e os arranjos, que lembram os hits dos anos 40 e 50, uma composição totalmente Dinah Washington, são os ingredientes mais deliciosos da grande obra poética da inglesinha polêmica.


A versão ao vivo é ainda mais extasiante (tiraram a incorporação (código HTML) do You Tube, portanto, cliquem aqui e se deliciem!). Bem, eu volto a falar ou escrever sobre a moça!


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sexta-feira, 27 de março de 2009

#Delíryos | Para a sexta-feira: charges

Morrendo de vontade de passar por aqui e encher de vãs palavras a blogosfera e de mais confusão esta pobre página, mas estou totalmente sem tempo. Tempo? O que é o tempo? Melhor não teorizar nada. Hoje é sexta, vamos ficar 'contentinhos'? Então lá vai uma sequência de charges - olha a referência de felicidade do cidadão! (de novo: não vamos teorizar, combinado?).



Por hoje é só, caros opiófagos!


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domingo, 8 de março de 2009

Mulher

Com a poesia e melodia da música Mulher, composição de Custódio Mesquita e Sadi Cabral, mais a sonoridade inconfundível e deliciosa de Emílio Santiago, não é preciso escrever ou falar mais nada. Corre-se o risco de tudo soar muito ridículo.

Às mulheres, mil afagos...



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#Delíryos | Eu sou a mais 'feia'?



Quando o assunto é beleza, a maioria das mulheres não tem a mesma segurança que tinha a vilã mais famosa dos contos de fada, que, vestida de muita auto-confiança, questionava: “espelho, espelho meus, existe alguém mais bela do que eu?”.


Na vida real esse espelho é muito exigente. Sua principal função é ditar às mulheres os modelos impostos, principalmente, pela mídia. E como deve ser a mulher ‘ideal’? Alta, magra, cabelo liso, seios e bumbuns fartos, e o principal: livre de rugas, estrias e celulites.


Porém, em meio à busca pelos padrões estéticos, as mulheres não se atentam que têm algo em comum com a provocante personagem da história infantil: elas destilam muito encanto aos olhos dos homens – seus melhores espelhos – independente se são loiras, morenas, de cabelo crespo ou liso.


‘Defeitos’? Cadê os ‘defeitos’? Mulherada, se esses existem, os homens não dão importância para eles.



Clique aqui para ler a reportagem completa, que eu escrevi para o Jornal do Trem & Folha do Ônibus (o texto também traz uma divertida entrevista com a atriz Angela Dip).





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quarta-feira, 4 de março de 2009

#Delíryos | Catarse

Depois dos dois últimos (picantes) posts, este opiófago decidiu abrir espaço para um momento mais piegas, talvez. Olha só: hoje, em um dos primeiros e-mails que respondi, escrevi ao destinatário: "direcione sua mente para as coisas producentes. Eu mesmo já declarei que vou fazer de 2009 o ano Jesus Cristo, o ano Gandhi, o ano Dalai Lama, o ano Bob Marley, o ano Dorival Caymmi. Em outras palavras: quero paz! Que as dores de cabeça que eu venha a ter se relacione apenas à produção ao meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) - e elas serão inevitáveis"

Após o envio da mensagem, uma colega de trabalho entregou-me o livrinho Minutos de Sabedoria. Ao abrí-lo, me deparo com a seguinte admoestação, que acertou em cheio com os últimos acontecimentos, que não precisam ser relatados aqui:

"Procure compreender o próximo. Não magoe aqueles que o beneficiaram. Procure compreender as palavras e ações dos outros, especialmente se o amam. Não fira a sensiblidade alheia, porque você sabe como sofre, quando fazem isso com você. Como dói ouvir palavras duras, de ingratidão, proferidas pelos lábios das pessoas a quem amamos! Não faça isso! Procure compreender os outros!"

Nunca quis fazer dos meus blogs vitrines que me expusessem (até porque não sou nada interessante). No entanto, agora estou enxergando esses grandes amigos virtuais como uma espécie de purificadores. Blogar também é uma catarse (por que não?).

Finalizo aqui esta ablução (ou momento auto-ajuda, como quiserem entender) com uma frase (porque eu sou apaixonado por citações) de Ghandi.

"Aprendi através da experiência amarga a suprema lição: controlar minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energias. Nossa ira controlada pode ser convertida numa força capaz de mover o mundo".

Votos de paz a todos! É o que deseja este pobre opiófago.




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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

#Delíryos | Amantes.com

Li domingo na Folha e, apesar da proposta 'indecente', achei muito sincero: "Site dos EUA oferece namoro para casados". Não, não estou fazendo apologia ao 'adultério', mas considerei plausível e bonito (por que não?) o site (Ashleymadison.com) estampar, assim, sem eufemismos, que o portal é uma espécie de "agência de apenas-sexo-e-nada-mais". Um céu para os casados infelizes.

Por que defendo tanto a ideia se nem casado eu sou? Simples: não é isso o que acontece na maioria dos sites de relacionamento? Apresentam um objetivo, mas, no fundo, todo mundo sabe que, quase sempre, tudo não passa de uma suruba virtual - que, de tão explosiva, vai parar (ou continuar) nos motéis, nos drives, nos bancos dos carros, atrás de alguma moita e até mesmo, no caso dos mais excitados, na própria cama (sim, na mesma onde repousa o corpinho cansado e estragado do maridinho ou da mulherzinha).

Quero deixar bem claro que este surto descabido também não é uma crítica àqueles que são da orgia, que gostam de temperar a vida com muita sacanagem. Muito pelo contrário. Tudo é permitido. Até faço questão de reproduzir aqui o slogan do site americano: "a vida é curta, tenha um caso". Olha que gostoso!

Na verdade, tudo isso foi para expressar o quanto achei original e, acima de tudo, leal a ideia do Ashleymadison. E não vai demorar muito para os brasileiros cairem na rede oficial e sem máscaras dos amantes.com. (promessa de Noel Biderman, criador do site). Safadenhas e safadões, aguardem!


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A “quilometragem masculina” de Garrincha

Acabei de ler 'Biografias & biógrafos: jornalismo sobre personagens', do jornalista e pesquisador Sérgio Vilas Boas. O livro, que "é um levantamento de diversas questões envolvidas no processo biográfico", também traz uma história que eu desconhecia sobre 'Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha', primorosa biografia tecida por Ruy Castro, grande alquimista do nosso biografismo.


A escrita de uma biografia pode proporcionar alguns contratempos ao seu autor, principalmente se a obra é nãoautorizada – lembram do drama de Paulo César Araújo, autor de 'Roberto Carlos em detalhes'? E se a narrativa não abordar tão somente fatos cândidos da vida do biografado, o autor viverá um pesadelo e estará envolto em maus lençóis. Foi o que aconteceu com Ruy Castro, que conheceu dias dramáticos e se transformou em personagem de um enredo judicial, tudo porque informou as medidas da "quilometragem masculina" do craque: 25 centímetros – fato importuno para as herdeiras de Mané Garrincha.

Furiosas, pois consideraram que o jornalista-escritor havia arranhado a imagem do pai- jogador, recorreram à justiça. Por conta disso, em 27 de novembro de 1995, Ruy Castro tirava seu time de cima das prateleiras das livrarias. A venda de sua obra estava proibida.

E o que inicialmente seria uma biografia, virou uma novela. Em abril de 2001, Castro ainda protagonizava outros episódios desta tragédia editorial. Na época, a juíza Maria Helena Martins, da 42ª Vara Civil do Rio de Janeiro, condenava a editora Companhia das Letras - responsável pela publicação - a pagar mil salários mínimos à família da 'estrela solitária' - a briga também envolvia 180 fotografias de Garrincha, publicadas no livro. O valor da indenização acendeu ainda mais a revolta da família, que exigia R$ 1 milhão, alegando danos materiais e morais. O desembargador João Wehbi Dib negou o pedido.

Hoje, passado o contratempo, a justificativa do magistrado deve soar cômica até para as herdeiras do jogador de Pau Grande – Calma! Este é o nome da cidade onde nasceu o ídolo das pernas mais tortas que já defenderam o Botafogo. Dib ponderou que "o tamanho do pênis de Garrincha deveria ser motivo de orgulho para os familiares, não uma ofensa". Segundo o livro de Vilas Boas, Dib ainda argumentou com as seguintes palavras: "as asseverações de possuir um órgão sexual de 25 centímetros e ser uma 'máquina de fazer sexo' [título de um dos capítulos], antes de serem ofensivas, são elogiosas, malgrado custa crer que um alcoolista tenha tanta potência sexual. Há que assinalar que ter membro sexual grande, pelo menos no nosso país, é motivo de orgulho, posto que significa masculinidade".

Mesmo com a hilária e – por que não? – justa conclusão do desembargador, o Conselho de Desembargadores reconheceu a necessidade de indenizar as filhas de Garrincha: as moças receberam – e recebem – 'pequenos' 5% do valor das vendas do livro.

A verdade é que o quiproquó não passou de uma besteirinha, uma firulinha, não acham? O que são 25 centímetros comparados à nobreza da arte de Garrincha, que, sem dúvida, habita os gramados mais largos e verdejantes do Olimpo futebolístico mundial? Mais que virilidade, aí está a grandeza e o brilho da “estrela solitária”, tão bem delineados por Ruy Castro.


Post re-ditado em 31 de março de 2010

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

#Delíryos | Opiofagia

Como havia prometido, voltei e rebatizei o blog. Vou continuar a missão de entregar-me à busca pelo fascínio das palavras. E por falar nisso, encontrei uma frase favorável à nova identidade desta página. Trata-se de um grande pensamento do poeta britânico Rudyard Kipling.

"As palavras são, naturalmente, o mais poderoso narcótico usado pela humanidade."

Encerro aqui a minha pobre entorpecência lexical. Até o próximo post.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

#Delíryos | Post its existenciais

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

#Delíryos | Paulista da gema

Hoje recebi um e-mail super legal de uma 'mina' muito querida, a Marise. A mensagem traça o perfil do 'paulista da gema'. Incrível como as definições não mentem em nada (eu me encaixo em todas). Veja o que é ser paulista de verdade.


VOCÊ SABE QUE ALGUÉM É PAULISTANO QUANDO:


Na fala, ele:


a) Chama o semáforo de 'farol'.

b) Diz 'bolacha' em vez de biscoito.

c) Diz 'cara' em vez de menino.

d) Diz 'mina' em vez de menina.

e) Diz 'bexiga' em vez de balão.

f) Diz 'sorvete', tanto para picolé como para sorvete de massa.

g) Acha que não tem sotaque nenhum.

h) Ri do sotaque de todo mundo (gaúcho, carioca, mineiro, nordestino, etc...)

i) Vê uma pessoa mal vestida e chama de 'baiano'.

j) É extremamente possessivo, pois emprega a palavra 'MEU' em praticamente todas as frases.


No clima:


a) Fala sobre o tempo para puxar assunto.

b) Enfrenta sol, chuva, frio, calor, tudo no mesmo dia e acha legal..

c) Sai todo agasalhado de manhã, tira quase tudo a tarde e põe tudo de volta à noite.

d) Tem mania de levar o carro para polir no sábado ou no domingo.

O carro fica brilhando, só que toda vez que vai sair com ele para passear... CHOVE.


Na praia :


a) Fala que vai para praia sem especificar qual.

b) Fica a temporada no Guarujá, Maresias ou Ubatuba, mesmo que chova mais do que faça sol

c) Chama Ubatuba de 'Ubachuva'

d) Fala mal da Praia Grande, mas toda virada de ano fica sem dinheiro e acaba indo para lá.


Nas esquisitices:


a) Faz fila para tudo (elevador, banheiro, ônibus, banco, mercado, casquinha do MC'DONALDS, etc.)

b) Todo dia tem que passar na 'DROGARIA SÃO PAULO' ou na 'DROGA RAIA'

c) Repara nas pessoas como se fossem de outro planeta.

d) Cumprimenta os vizinhos apenas com 'oi' e 'tchau'.

e) Espera a semana inteira pelo final de semana e quando ele chega, acaba não fazendo 'nada'.

f) Convida: 'Passa lá em casa', mas nunca dá o endereço.

g) Chama o povo do interior de São Paulo de 'caipira'.


Principal:


a) Ri de si mesmo ao perceber que tudo acima é verdade e encaminha para todos os amigos.

b) E como todo paulistano, estou fazendo a minha parte...



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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Ivete, Marisa & Amy Winehouse

Como se não bastasse ser IVETE SANGALO, a musa baiana encarnou Marisa Monte e Amy Winehouse. Adorei o vídeo. Vale conferir a performance que traz três fantásticas mulheres em uma que vale por 100.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sampa

Ainda está em tempo de homenagear São Paulo, esta cidade tão louca e tão linda, não é? Pois é, ontem dediquei um post à metropole no Expressão MPB e acabei esquecendo de passar por aqui. Pra não dizer que não falei de Sampa, vou postar um vídeo maneiríssimo do hit Sampa (Caetano Veloso)- alguns vão achá-lo puro senso-comum (talvez até seja), mas não dá pra negar que essa música, há muito tempo, se tornou o hino oficial das terras paulistas. De quebra, o vídeo também traz umas imagens bem bonitas de momentos especiais vividos pelo compositor da canção.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

#Delíryos | Mussumzis


Qualzis personagemzis da TV brasileiris, se fossis vivis e tivessis um blogzis, escreveriazis dessis jeitis? Nem adiantis responderzis: MUSSUM! (porquezis eu já entregueizis no títulis, e a fotis ao ladis falis tudis).


Cacildis, ficou com saudade do melhor comediante do seriado Os Trapalhões? Eu também. Coisas da Revista PIX, que ontem enviou esse link tão nostálgico e divertido para o meu e-mail. Quem teve a sorte de ver as presepadas (como diria minha avó) de Antônio Carlos Bernardes Gomes, o popular Mussum, jamais o esquecerá.


É muito fácil aprender o idioma do inesquecível humorista. Clique aqui.

Boa aula de mussunzêszis!

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

#Delíryos | Sonho universal

40 anos depois...


"Eu tenho o sonho de ver um dia meus quatro filhos vivendo numa nação em que não sejam julgados pela cor da sua pele, mas sim pelo seu caráter"


OBAMA, O SONHO UNIVERSAL

19 de Janeiro - Dia de Martin Luther King
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#Delíryos | Meu mundo caiu

Vou fazer drama mesmo: meu mundo caiu! Não pude assistir ao último capítulo de 'Maysa - Quando Fala o Coração'. Caramba! Sexta-feira fiquei em casa, ansiedade pulsando nas veias, que só aumentou quando caiu uma tempestade à Maysa (fios da rede de energia próxima da minha casa foram rompidos). Resumindo o dramalhão: eu e a brisa daquela maldita noite fria e chuvosa ficamos perdidos na escuridão. Mais de uma da madruga a luz foi restaurada ( não precisava mais ). Ligo a TV, a minissérie acabou de terminar. Me conformei em assistir as últimas notícias do Jornal da Globo...
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sábado, 10 de janeiro de 2009

Nenê de Vila Matilde


Meu carnaval vai começar mais cedo. Na próxima sexta-feira (16), às 13h00, a Rádio Cultura AM - 1200 kHz vai veicular o documentário 'Nenê de Vila Matilde - 60 Anos de Coração Guerreiro', produzido por este rapaz aqui e pelo amigos Tereza Cristina, Rodrigo Monteiro, Leandro Palma, Lilian de Oliveira e Patricia Moura.


Mal posso esperar para ouvir esta obra primorosa (sim, porque a Nenê esbanja muita tradição). Na época das gravações, postei um texto no Expressão MPB - uma tentativa de traduzir a emoção de ter conhecido e ficado frente a frente com o Seu Nenê, grande usineiro do carnaval. Olha a Nenê de Vila Matilde aí, gente!


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

#Delíryos | Língua

Não adianta: o assunto da 'moda' é o Novo Acordo da Língua Portuguesa. Quando terminei de postar o texto abaixo, lembrei de uma super-música do Caetano (Língua). Fiquei seco para postar o vídeo aqui, mas estava com uma BUEMBA nas mãos (pauta de última hora). Ainda ontem, conversando com o Matias, parceiro de redação, comentei sobre a grandeza deste primor caetaneano.

Se este ser não estiver afogado em equívocos, esse vídeo é da gravação de Noites do Norte, mas é recomendado ver outra versão, com participação de Elza Soares, feito no programa que Chico e Caetano comandaram na TV Globo (isso lá na impetuosa, deliciosa e inesquecível década de 80 - eu era uma criança, mesmo assim posso dar esses adjetivos a essa época).


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

#Delíryos | Novo Acordo Ortográfico



Qual seria a opinião de Monteiro Lobato sobre o novo acordo ortográfico? Essa curiosidade bateu depois de ler no blog do Lira Neto um post que traz as considerações do pai da boneca de pano mais famosa, quando, no inicio do século 20, aconteceu um acordo entre Brasil e Portugal que deu outra estética à nossa língua. Lobato esbravejou contra os acentos e trema (talvez, agora, ele ficaria mais calmo). Eu não.

Confesso que não sou fã dessa ‘ideia’ de reformar a língua portuguesa. Imagina o pandemônio que vai se transformar a cabeça dos guris que iniciaram a pouco a vida escolar. Os pequenos acabaram de aprender (ou não) e, obrigatoriamente, terão que desaprender tudo que fizeram os infantes transpirarem a cuca. Outros motivos também me deixam ensandecido, mas a proposta deste post não é essa. A verdade é que afanei o post do Lira. Vale a pena ler até o final.


Lobato e a reforma ortográfica

O danado do Lobato, com perdão do clichê, era mesmo homem à frente de seu tempo. No início do século 20, um acordo entre Brasil e Portugal instituiu novas regras para o idioma. Foram mandadas para a lata do lixo consoantes dobradas e inúteis (como o ph de farmácia). Em compensação, foi estabelecida uma série infernal de acentos, muitos dos quais a atual reforma, prevista para começar ano que vem, cuidará de extirpar novamente. Lobato deu uma banana para o tal acordo ortográfico. Olha só o que dizia a respeito:

1. Imbecilidade

“Tenho horror à imbecilidade humana sob qualquer forma que se apresente. Há uma lei natural que orienta a evolução de todas as linguas: a lei do menor esforço. Os tais acentos a torto e a direito que os reformadores oficiais impuseram à nova ortografia vêm complicar, vêm contrariar a lei da evolução. São, pois, uma coisa incientifica, tola, imbecil, cretinizante e que deve ser violentamente repelida por todas as pessoas decentes."

2. Pau neles

"A criação de acentos novos, como o grave e o trema, bem como a inutil acentuação de quase todas as palavras, não é desenvolvimento para a frente e sim complicação, involução e, portanto, coisa que só merece pau, pau e mais pau."

3. Tempo perdido

"A maior das linguas modernas, a mais falada de todas, a de mais opulenta literatura – a lingua inglesa – não tem um só acento. E isto teve sua parte na vitoria dos povos de lingua inglesa no mundo, do mesmo modo que a excessiva acentuação da lingua francesa foi parte de vulto na decadencia e queda final da França. O tempo que os franceses gastaram em acentuar as palavras foi tempo perdido – que o inglês aproveitou para empolgar o mundo."

4. Paspalhões

"Não há lei humana que dirija uma lingua, porque lingua é um fenomeno natural, como a oferta e a procura, como o crescimento das crianças, como a senilidade etc. Se uma lei institui a obrigatoriedade dos acentos, essa lei vai fazer companhia às leis idiotas que tentam regular preços e mais coisas. Leis assim nascem mortas e é um dever civico ignora-las, sejam lá quais forem os paspalhões que as assinem."

5. Não sou carneirinho

"Trema!... Acento grave!... Imbecilidade pura, meu caro. (...) A aceitação do acento está ficando como a marca, a carateristica do carneirismo, do servilismo a tudo quanto cheira a oficial."

6. Que nojo!

"Eu, de mim, solenemente o declaro, não admito esses acentos em coisa nenhuma que eu escreva, nem leio nada que os traga. Se alguem me escreve uma carta cheia de acentos, encosto-a. Nem leio. E se vem alguma com trema, devolvo-a, nobremente enojado..."

(Extraído e editado de uma nota introdutória ao livro Negrinha)



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