segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

#Delíryos | Poetas da incompreensão

Escrevi este artigo depois de assistir o documentário “Aqui favela: o rap representa”, de Junia Torres e Rodrigo Freitas.

Paula Veneroso, professora de redação, disse que dá pra ler o texto. Então lá vai!

Os estreitos becos das favelas são embalados pelas mixagens dos scratchs, animados pelas acrobacias dos passos de break, coloridos pelos traços do ‘grafitti’ e eletrizados pelas rimas pulsantes que cantam a poesia dos marginalizados. Isto é rap, isto é arte. Mas há quem diga que o rap é uma filosofia de vida. Outros preferem afirmar que rap é compromisso. Alguns o definem como “música de bandido”.

Este é um dos debates do documentário “Aqui ‘favela’ o rap representa” - de Junia Torres e Rodrigo Freitas - que retrata o cotidiano de rappers de São Paulo e Belo Horizonte e a luta desses artistas, que só querem sustentar suas identidades.

Na favela, quando se trata do tema ‘identidade’, o beco é sem saída: no asfalto, à espreita, está um bicho chamado preconceito, que se apresenta com três cabeças: social, racial e musical. E esse bicho, com suas enormes garras, ocupa todos os espaços, esmagando os difusores do estilo suburbano.

Na vida social, a cor da pele, a falta de estudos, o ‘morar’ na favela são os principais bloqueios para o tão sonhado lugar ao sol. Na vida artística, além da ojeriza que suas rimas ainda causam à sociedade, o problema também gira em torno dos aromáticos ‘pratos de lentilhas’, oferecidos por produtores ensandecidos para levá-los às prateleiras fonográficas. Os poetas da incompreensão, preocupados com suas ideologias culturais, se deparam com outro impasse: é preciso vender a alma ao diabo para conquistar o ‘lugar ao sol’?

A resposta otimista seria: não. Mas, segundo os ‘manos’, é o que faz a maioria dos expoentes do movimento, deixando-os revoltados. Bons exemplos são as mc’s que protagonizaram o seriado ‘Antônia’, exibido pela TV Globo. As personagens, assim como suas intérpretes, tinham como maior preocupação o estrelato, uma contradição ao gênero, que, além de evidenciar a arte da favela, tem como primazia o discurso contra a desigualdade social. Eis outro motivo para tanta rejeição. Mesmo com programas como ‘Manos e Minas’ (TV Cultura) - que mostra, para muitos, um lado mais ‘pacífico’ do rap - apresentado por Rappin’ Hood (um dos maiores expoentes do gênero)– tido como “gozolândia”, como os ‘manos’ do movimento adjetivam os que “vendem a alma ao diabo” - as pessoas nunca vão entender e aprender que música, independente do gênero, transcende todas as linhas traçadas pela tal sociedade. No entanto, sempre será válida a máxima do velho cientista: “é mais fácil quebrar um átomo do que o preconceito”.

Por que não aceitar o rap e os seus ‘revoltantes’ protestos? O rap é a voz da favela. Simples assim. Como a bossa nova é a voz da zona sul carioca, assim como o forró representa o nordeste; a moda de viola, que canta o sertão; o samba de raiz, que fez ecoar o lamento do morro, que agora sorri com o funk; o rock, que trepidou as garagens dos bairros mais abastados e tantos outros estilos que representam diversos guetos.

Contudo, vale também adotar as outras definições atribuídas ao gênero musical. O rap também é uma filosofia, que tem o compromisso de bradar contra os desatinos de um sistema tacanho, que repugna a arte de seus versos à infeliz demarcação “música de bandido”. E mesmo com as vozes abafadas pelo preconceito, suas batidas não se cansam de ritmar a poesia do saudoso malandro que diz “a favela nunca foi reduto de marginais. Ela só tem gente humilde, marginalizada e essa verdade não sai nos jornais”.

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