quarta-feira, 16 de julho de 2008

#Delíryos | Os Senhores das Armas



Não, os jornais e noticiários não estão repetindo suas manchetes policiais. Esse segmento jornalístico jamais sofrerá uma crise. Provas disso são as duas últimas semanas em que lemos, ouvimos ou assistimos o mesmo caso, com personagens diferentes. Contudo, tornar-se-á clichê nas páginas policiais a funesta notícia que relata a morte de inocentes pelas armas de policiais militares, os poderosos senhores das armas?

O que acontece com os tais? Será que estão sofrendo uma lesão irreparável no sistema nervoso? Foram vitimados por uma nova doença, que atinge só a classe policial, a síndrome do “dedo que gosta de apertar gatilho”. Ou, talvez, momentaneamente, os exterminadores do futuro são acometidos por um estrabismo insano – ‘pensam’ que estão mirando em delinqüentes (matá-los também não é a solução) e exterminam inocentes, como Daniel Duque, João Roberto, Rafaelli Ramos Lima, e o último – noticiado – Luiz Carlos da Costa – este vítima de um seqüestrador que não precisou dar cabo de sua vida, porque, no cenário do seqüestro, surgiram os ‘confusos’ PMs, que fizeram o trabalho do criminoso.

Talvez por estas e por mais uma série de ‘debilidades’ que afligem alguns ‘eficientes’ PMs, é que juízes do naipe de Sidney Rosa da Silva, do 3º Tribunal do Júri do Rio, que libertou Marcos Parreira - acusado de matar Daniel Duque - com o argumento da falta de flagrante, são tão solidários com os algozes das últimas e, infelizmente, reais tramas policiais.

Faço minhas as palavras de Daniela Duque, mãe do jovem Daniel, que desabafou: “a lei é tão severamente cumprida a favor do assassino, e, a favor das vítimas, temos que implorar para a lei ser cumprida”. No entanto, também pondero que nossas súplicas são inaudíveis aos ouvidos dessa ‘lei’. Estamos quase roucos, e a mímica dos nossos lábios são invisíveis à míope visão do ‘severo sistema’. Isso pode explicar as 221 mortes de inocentes por policiais em São Paulo, e 502 no Rio de Janeiro, entre janeiro e maio deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de SP e RJ e da Corregedoria da PM de SP.

A verdade é que estamos vivendo sob a ‘guarda’ de um sistema de segurança, que, geralmente, transforma seu ofício em um grotesco cenário de velho oeste, onde mocinhos são eliminados do filme, bandidos vencem triunfantes, e xerifes fazem de conta que são xerifes. Em suma, vivemos a banalização da vida, a regressão da espécie humana. Tornamo-nos primatas do futuro doente.

Como canta o sábio Caetano, “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial...”
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