terça-feira, 8 de julho de 2008

#Delíryos | Cafonice tecnológica


Alguém poderia fazer uma listinha com pelo menos dez irritantes cafonices provocadas pela tal da tecnologia? Antes que alguém se habilite a redigir o terrível ranking, sugiro que os 'Djs de trem' ou 'Djs de buzão' (já explico quem são esses) sejam os cabeças dessa infeliz classificação.

Hoje em dia é muito comum estarmos presos num ônibus abarrotado, ou espremidos num trenzão e, em meio a essa agonia, ouvirmos o duelo de uns cinco celulares disputando a audiência dos passageiros. Incrível, ou terrível, é que os estridentes celulares irradiam sempre os hits do Rhythm and Blues comercial dos grandes nomes do atual estilo, como Beyoncé, Rihana e outros. Engraçada, para não dizer patética, é a cara dos “DJs”, que carregam, a tiracolo, seus celulares musicais. As expressões faciais desses psêudo-disc jockeys causam-me a impressão de que os tais se sentem um desses famosos Djs que tocam nas ferventes festas raves. São mesmo um bando de ‘patifes’. Logo os apinhados ‘buzão’ e ‘trenzão’ transformam-se numa subdesenvolvida rave, com participantes pra lá de estáticos, ‘acomodados’ na posição que lhe seja mais adequada ou não, até o fim do sofrido itinerário.

A situação é estarrecedora. Que estejamos amarrotados dentro de um ônibus ou trem, fazer o quê se não integramos a pedante classe média? Mas que não sejamos obrigados a aturar a festa pobre dos ‘doentes tecnológicos’. Tudo bem que vivemos num país dito democrático, e por esta mesma condição é que não temos a obrigação de agüentarmos aquelas pleonásticas batidinhas com uma ‘vozinha’ externando uma prosaica sensualidade em versos que, traduzidos para o português, soam burlescos.

Essas decadentes ‘raves’ tornam-se impositivas à grande massa, que, em sua esmagadora maioria, adora esse evento. E como ficam aqueles caras que são ultra-segmentados, musicalmente falando, como eu? E aqueles beatos, coitados? Sabe aqueles que consideram profanas todas as músicas que não trazem nenhum verso que fale de céu, cruz ou, sei lá, castidade? São obrigados a pecar, e os culpados são os malditos ‘Djs de trem’, que, no juízo final, prestaram contas por esta perversidade.

Este texto não se trata de um esbravejo de pobre recalcado ou discurso de um extremista de esquerda, nem protesto de um alienado com ojeriza à tecnologia. No entanto, minha grande vontade é de antecipar o juízo final para os amantes desse tecnológico pecado capital. Imagina a cena grotesca: os esfarrapados Djs sendo atirados pela janela do trenzão ou do buzão, atônitos, indagando-me o motivo de tanta insanidade, e eu, com olhos esbugalhados, rangendo os dentes, esbravejando: “Apartai-vos de mim, seres abjetos! O pecado da cafonice tecnológica os acompanharão às profundezas!”

Porém, como a violência também é um pecado que pode nos acompanhar às profundezas, requebremo-nos com o samba, com o pagode, com a black music e com o calypso de ‘buzão’. Só não vale cantar. Deixe que o pecado da cafonice tecnológica seja o único incendiário das nossas lastimáveis viagens


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