quarta-feira, 23 de julho de 2008

#Delíryos | Dercy, a maior marginal do Brasil




Olha só que paradoxo perfeito: morre Dercy, contudo seus admiradores, ao prestarem depoimentos e as últimas homenagens à eterna rainha do escracho, esboçam, ao invés de lágrimas, sorriso no rosto. Foi o que vimos nos noticiários que abordaram o óbito da debochada artista. E não poderia ser diferente. Lágrimas, quando se refere a esta notável mulher, só mesmo de tanto rir.

Não sou do tempo em que Dercy era a grande estrela das chanchadas brasileiras, apesar de ter assistido alguns de seus filmes. A primeira vez que a vi destilando o seu humor tão peculiar foi numa novela, ‘Quem Rei Sou Eu?’, e, desde então, muito criança, tornei-me um fã ensandecido da carioca mais zombeteira que o Rio de Janeiro já teve.

Dercy, apesar de ser a grande mestra da nossa comédia, talvez não tenha visto muitos frutos de sua licenciatura, porque o humor, na maioria de suas manifestações, foi vulgarizado. Hoje temos uma epidemia de ‘humoristas’ que utilizam os recursos mais facetos para extraírem um ‘sorrisinho de favor’ ou uma lacônica gargalhada de seus expectadores. Dercy primava pela originalidade, não se valia de fórmulas e a ocasião foi a única ferramenta que, magistralmente, utilizou em oito décadas de militância ao riso.

Dercy foi uma mulher que enfrentou ferozmente as fases mais ardis que um artista pode vivenciar, como, por exemplo, aquela em que mulher artista era sinônimo de puta; aquela em que o conservadorismo tirano e tacanho da nossa sociedade debelava a classe artística à condição de marginais. Mas Dercy nunca se abalou. Tanto que , em uma de suas apresentações, orgulhosamente declarou: “sou a maior marginal do Brasil”.

Os 101 anos – ou 102, segundo ela dizia – foram escritos pela mais casta liberdade. Dercy escarnecia dos protocolos, e ‘repressão’ era palavra desconhecida no seu torpe e delicioso vocabulário. Mais do que isso, talvez ela tenha sido a única artista do mundo a sustentar um personagem por tanto tempo, porque Dercy Gonçalves era uma personagem que acabou respirando mais forte que Dolores, seu nome de batismo.

A mordacidade do seu olhar, as gargalhadas arrebatadoras, seus palavrões, que se tornaram “culturais”, conforme ela mesma avaliava, e a imponência do seu talento ficarão para sempre. Dercy se foi, mas o frescor do seu humor continuará fazendo cócegas em muitas gerações. A morte não lhe tirou a mais alta posição no cânone da comédia brasileira.

Dercy, a majestade do escândalo, foi e continuará sendo, sem dúvidas, um dos lenitivos para esta causa tão trágica chamada vida. Gargalhemos todos!
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quarta-feira, 16 de julho de 2008

#Delíryos | Os Senhores das Armas



Não, os jornais e noticiários não estão repetindo suas manchetes policiais. Esse segmento jornalístico jamais sofrerá uma crise. Provas disso são as duas últimas semanas em que lemos, ouvimos ou assistimos o mesmo caso, com personagens diferentes. Contudo, tornar-se-á clichê nas páginas policiais a funesta notícia que relata a morte de inocentes pelas armas de policiais militares, os poderosos senhores das armas?

O que acontece com os tais? Será que estão sofrendo uma lesão irreparável no sistema nervoso? Foram vitimados por uma nova doença, que atinge só a classe policial, a síndrome do “dedo que gosta de apertar gatilho”. Ou, talvez, momentaneamente, os exterminadores do futuro são acometidos por um estrabismo insano – ‘pensam’ que estão mirando em delinqüentes (matá-los também não é a solução) e exterminam inocentes, como Daniel Duque, João Roberto, Rafaelli Ramos Lima, e o último – noticiado – Luiz Carlos da Costa – este vítima de um seqüestrador que não precisou dar cabo de sua vida, porque, no cenário do seqüestro, surgiram os ‘confusos’ PMs, que fizeram o trabalho do criminoso.

Talvez por estas e por mais uma série de ‘debilidades’ que afligem alguns ‘eficientes’ PMs, é que juízes do naipe de Sidney Rosa da Silva, do 3º Tribunal do Júri do Rio, que libertou Marcos Parreira - acusado de matar Daniel Duque - com o argumento da falta de flagrante, são tão solidários com os algozes das últimas e, infelizmente, reais tramas policiais.

Faço minhas as palavras de Daniela Duque, mãe do jovem Daniel, que desabafou: “a lei é tão severamente cumprida a favor do assassino, e, a favor das vítimas, temos que implorar para a lei ser cumprida”. No entanto, também pondero que nossas súplicas são inaudíveis aos ouvidos dessa ‘lei’. Estamos quase roucos, e a mímica dos nossos lábios são invisíveis à míope visão do ‘severo sistema’. Isso pode explicar as 221 mortes de inocentes por policiais em São Paulo, e 502 no Rio de Janeiro, entre janeiro e maio deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de SP e RJ e da Corregedoria da PM de SP.

A verdade é que estamos vivendo sob a ‘guarda’ de um sistema de segurança, que, geralmente, transforma seu ofício em um grotesco cenário de velho oeste, onde mocinhos são eliminados do filme, bandidos vencem triunfantes, e xerifes fazem de conta que são xerifes. Em suma, vivemos a banalização da vida, a regressão da espécie humana. Tornamo-nos primatas do futuro doente.

Como canta o sábio Caetano, “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial...”
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terça-feira, 8 de julho de 2008

#Delíryos | Cafonice tecnológica


Alguém poderia fazer uma listinha com pelo menos dez irritantes cafonices provocadas pela tal da tecnologia? Antes que alguém se habilite a redigir o terrível ranking, sugiro que os 'Djs de trem' ou 'Djs de buzão' (já explico quem são esses) sejam os cabeças dessa infeliz classificação.

Hoje em dia é muito comum estarmos presos num ônibus abarrotado, ou espremidos num trenzão e, em meio a essa agonia, ouvirmos o duelo de uns cinco celulares disputando a audiência dos passageiros. Incrível, ou terrível, é que os estridentes celulares irradiam sempre os hits do Rhythm and Blues comercial dos grandes nomes do atual estilo, como Beyoncé, Rihana e outros. Engraçada, para não dizer patética, é a cara dos “DJs”, que carregam, a tiracolo, seus celulares musicais. As expressões faciais desses psêudo-disc jockeys causam-me a impressão de que os tais se sentem um desses famosos Djs que tocam nas ferventes festas raves. São mesmo um bando de ‘patifes’. Logo os apinhados ‘buzão’ e ‘trenzão’ transformam-se numa subdesenvolvida rave, com participantes pra lá de estáticos, ‘acomodados’ na posição que lhe seja mais adequada ou não, até o fim do sofrido itinerário.

A situação é estarrecedora. Que estejamos amarrotados dentro de um ônibus ou trem, fazer o quê se não integramos a pedante classe média? Mas que não sejamos obrigados a aturar a festa pobre dos ‘doentes tecnológicos’. Tudo bem que vivemos num país dito democrático, e por esta mesma condição é que não temos a obrigação de agüentarmos aquelas pleonásticas batidinhas com uma ‘vozinha’ externando uma prosaica sensualidade em versos que, traduzidos para o português, soam burlescos.

Essas decadentes ‘raves’ tornam-se impositivas à grande massa, que, em sua esmagadora maioria, adora esse evento. E como ficam aqueles caras que são ultra-segmentados, musicalmente falando, como eu? E aqueles beatos, coitados? Sabe aqueles que consideram profanas todas as músicas que não trazem nenhum verso que fale de céu, cruz ou, sei lá, castidade? São obrigados a pecar, e os culpados são os malditos ‘Djs de trem’, que, no juízo final, prestaram contas por esta perversidade.

Este texto não se trata de um esbravejo de pobre recalcado ou discurso de um extremista de esquerda, nem protesto de um alienado com ojeriza à tecnologia. No entanto, minha grande vontade é de antecipar o juízo final para os amantes desse tecnológico pecado capital. Imagina a cena grotesca: os esfarrapados Djs sendo atirados pela janela do trenzão ou do buzão, atônitos, indagando-me o motivo de tanta insanidade, e eu, com olhos esbugalhados, rangendo os dentes, esbravejando: “Apartai-vos de mim, seres abjetos! O pecado da cafonice tecnológica os acompanharão às profundezas!”

Porém, como a violência também é um pecado que pode nos acompanhar às profundezas, requebremo-nos com o samba, com o pagode, com a black music e com o calypso de ‘buzão’. Só não vale cantar. Deixe que o pecado da cafonice tecnológica seja o único incendiário das nossas lastimáveis viagens


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