segunda-feira, 30 de junho de 2008

#Delíryos | Os irmãos José



*O texto é longo, mas vale a pena lê-lo!

Quase não convivi com a família do meu pai, composta por tipos esdrúxulos, personagens quase ‘mazzaropianos’. Mas tem um tio, que por sinal tem o mesmo nome do meu pai, Jose Luís, que supera todos. Fazendeiro em Alagoas, uma vez por ano ele vem desfilar a sua caipirice na terra da garoa. E sempre vem visitar meu pai, é claro.

Quando ele aponta no portão, é fácil saber qual será o próximo destino do roceiro: DJUNQUERÓPI. Eu sei que ninguém nunca ouviu falar dessa cidade, e nem a encontram no mapa. Mas eu explico o porquê. Ele, ao invés de pronunciar ‘Junqueirópolis’, cidade do interior de São Paulo, sempre diz sorridente: “Rapaizi, amanhã tô indo pra DJUNQUERÓPI!!” É costume deles anexar o tal ‘izi’ no final de palavras terminadas com ‘z’ e ‘s’.

Outro dia, estava eu em casa, cansado, pois tinha entrado de bico numa coletiva de imprensa, quando menos esperamos – estava com minha irmã mais velha e uma prima – surge a figura agresteira do tio Djunquerópi, como o chamamos. Quase caímos de costas. O coitado até destila certa simpatia, mas sofre de ablutofobia, traduzindo: foge de um banho como o diabo foge da cruz, numa expressão de avó.

Lembro-me que quando eu e minhas irmãs éramos crianças, ficávamos atentos aos talheres e copos que ele utilizava, quando pernoitava em casa. No outro dia, insistíamos para que minha mãe jogasse os tais utensílios no lixo – que pecado – mas minha mãe não atendia as nossas medíocres insistências.

Mas dessa vez não veio só. Trouxe com ele a sua senhora. Uma mulherzinha magrinha, que merecia ganhar o papel de Olívia Palito, se o clássico desenho do Popeye fosse parar na telona.

Minha irmã ficou apavorada. Estava com o cabelo emplastrado de tinta, e faltava pouco para a retirada da química. Minha mãe não estava em casa. O jeito foi minha irmã passar mais de uma hora com a cabeça feito uma aquarela... Fez sala para a sósia de Olívia, que aproveitou para assistir mais um capítulo de sua novela preferida, que passava bem na hora em que chegou.

Meu pai já havia chegado. Juntou-se ao mano, e, juntos, pareciam que brigavam, ou talvez duelassem para ver quem falava mais alto. “Mas rapaizi!!!”, “Homi!!”.

Eu, morto de cansaço, pra não dizer de preguiça, tive que ir para a garagem. Não agüentava o odor do tio Djunquerópi, aproveitei para terminar de ler um livro de García Márquez.

Entretido com a leitura, me deparo com duas figuras hilariantes vindo de encontro ao portão. Eram os irmãos José. De cabeça baixa, não tive como não reparar. Meu pai gentilmente cedeu suas velhas sandálias, compradas no final da década de 90, ao irmão boiadeiro, que exibia suas enegrecidas unhas. Enquanto meu pai, com sua pregueada calça social já chegando ao pescoço, exibia suas unhas enormes, unhas amareladas nuns chinelos Havaianas. “Meu Deus!”, pensei eu. “Aonde vão esses protagonistas de chanchadas da Atlântida?”.

Enquanto isso, minha prima mostrando-se muito simpática com a Olívia do sertão, oferecia-lhe um banho. “Não, minha fia! Se eu tumá um banho agora, eu morro de tosse. Sou doente, minha fia”. Minha prima, claro, se controlou para não gargalhar na frente da frágil senhora.
Tive que ceder meu quarto para o casal rural. Nem pude assistir ao filme que passaria naquela noite, porque, além da fetidez que pairava na sala, o duelo entre meu pai e meu tio ainda não havia cessado.

Pela madrugada, vi quando a pobre Olívia desceu as escadas em apuros. No outro dia, a ouvi contar para minha mãe. “Aí, muié... me deu uma caganeira, Deve ter sido do calor dos ônibus”.
Minha mãe lhe ofereceu um banho. A senhora quis resistir, mas quando menos esperamos, ela sai do banheiro com suas ralas madeixas molhadas.

Agora, todos devem estar se perguntando: “e o tio Djunquerópi, tomou um banhinho?” Que nada! Nem os dentinhos escovou. Desde cedo eu ouvia meu pai perguntar-lhe da gente que deixou há mais de 30 anos, quando veio para São Paulo. A resposta era quase sempre a mesma. “Morreu, rapaizi!!” “E morreu?, e morreu? E o marido da dona Maricotinha? E é homi?” Meu pai é assim: você fala alguma coisa, ele questiona mais umas três vezes. Sem contar que sempre inicia suas frases com a vogal ‘e’.

Depois do café, partiram para DJUNQUERÓPI. “E até o ano que vem!”, despediu-se o irmão do meu pai, sorrindo brejeiramente, com seu bigodinho de bode faceiro. “E tem que vim mesmo! E o Lula paga!”, respondeu meu pai, lembrando da benesse concedida pelo presidente Lula aos aposentados.

Esta foi mais uma história protagonizada pelos irmãos José. Nos dias de hoje, seria um bom argumento para o roteiro de um sitcom.
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