sexta-feira, 16 de maio de 2008

#Delíryos | Memórias Infantis




Parece que quando a gente é criança tudo acontece. Talvez a vida permita os vários acontecimentos, sejam bons ou ruins, por dois motivos. O primeiro é algo natural: temos que vivenciar situações. Não tem para onde correr. O segundo motivo, no caso dos bons, talvez seja um presente da vida: todas as situações hilárias que vivemos na infância ficam guardadas numa caixinha de memórias, muito especial. Quando atingimos a fase adulta da nossa nada mole vida, a vida, ironicamente, nos traz à tona as engraçadas reminiscências infantis como uma espécie de catarse para aliviar o inferno de ter “crescido”, ter virado “adulto”, ter atingido a tão esperada “maioridade”, ter “amadurecido”.

Até hoje, minhas memórias infantis estão mais vivas e claras do que nunca. O tempo passou, mas elas não perderam a qualidade. Muito pelo contrário: saíram da fase analógica e estão na digital. Tomara que permaneçam evoluindo. Não quero perdê-las.

Lembro-me que na minha rua tinha um barranco enorme, que dava para um terreno baldio da rua de baixo. Eu, minha irmã mais nova, e outros diabinhos vizinhos, pegávamos caixas de papelão, uns pegavam aquele colchão velho que não usavam mais, e não contávamos história: descíamos derrapando uns dez metros abaixo. Só enfastiávamos da brincadeira quando estávamos feitos uns brigadeiros, de tanto rolar na terra.

Outra vez, na tão deliciosa corrida de carrinho de rolimã, fui eu e minha irmã mais nova, de novo. Eu estava no comando. Minha irmã, vestida apenas num shortinho parecido com os que os craques do futebol usavam até os anos 80, cabelão esvoaçante, ia à garupa. Mais uma vez, com a trupe de capetinhas, virávamos a nossa rua pelo avesso. Os vizinhos deveriam ficar ensandecidos com a sonoridade dos rolimãs. Sem contar nos motoristas que, com certeza, já sabiam que teriam que pisar leve quando passassem na nossa famosa rua.

Numa dessas corridas de rolimã, não me lembro se foi a primeira, nosso carrinho ia a todo vapor, enquanto meu joelho gastava-se no asfalto, e minha irmã tinha seu cotovelo carcomido pela agressiva pavimentação. Na hora do banho, não preciso nem escrever, não é? Amaldiçoávamos os nossos ‘velozes e furiosos’.
Mas terrível mesmo foi uma vez em que fui nadar na piscina de um amigo que morava duas casas depois da minha. A piscina era aquela de plástico azul, com desenho de peixinhos jubilosos. Estava eu e mais uns quatro garotos. Nesse dia, meu pai tinha me falado que eu não iria, e eu, teimoso, fui. O pior, quem sabe, não foi a minha teimosia. Eu estava com uma diarréia ferina. Mas fui.

Chegando lá meu intestino comportou-se como um lorde. Brinquei muito, era água para tudo quanto é lado, e todas aquelas brincadeiras que sempre improvisamos na água. Mas, com tanta agitação, o meu intestino ficou nervoso, e começou a me ameaçar. Bastava um pum para aliviar sua sanha. Até que não suportei mais: sai correndo para a minha casa. Entrei no quintal todo ensopado de água, por enquanto.

E agora, como eu entraria em casa naquelas duas situações, molhado e prestes a dar uma saraivada de merda? Além disso, meu pai estava em casa, pois trabalhava á noite. Fui salvo por um dos banheiros que ficava no lado de fora, na lavanderia. Porém, nem tudo foi perfeito. Não deu tempo de eu abaixar a bermuda. Em segundos, o chão do banheiro se transformou numa poça marrom. Que alívio...

Não pensei duas vezes, sai correndo para a piscina. A bermuda era de cor bege, ninguém perceberia. Cai na quase límpida piscina azul, que ficou marronzinha também. Normal. E, para a minha surpresa, me safei de novo. O dono da piscina, num momento brusco de racismo, expulsou um dos garotos, acusando-o de ter feito aquela merda na piscina dele. “sai daqui, seu nego fedido!”, excomungou o garoto, muito possesso.

Eu havia feito a pior ‘cagada’. Estraguei a brincadeira de todos, fiz os dois amigos brigarem e um sair execrado da nossa diversão. Ou todos saíram?
Ao chegar em casa, ri muito. Por pouco não tive outra crise diarréica, correndo o risco de me desmanchar em bosta.

Quando a gente é criança, até uma diarréia vira diversão. Quando tornamos-nos adultos, ela não tem outra característica: é merda mesmo.

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