terça-feira, 6 de maio de 2008

#Delíryos | Maldita!



Ela está me debelando. Desejo que ela acabe logo com esse murmúrio de vida que me resta. Não sei, parece que ela se realiza ao me achacar. Ela me leva a um mundo que me faz sorrir, mas quando penso que vou perder o controle e dar uma gargalhada ecoante, ela me chacoalha e diz: “Seu bobo, claro que isso não é verdade. É só uma das milhões de alucinação em que você ainda vai afundar, demente”. Eu tento rechaçar as gélidas palavras dessa maldita. Eu lembro que vivi tudo o que senti, tudo o que fez germinar um escorço de sorriso no meu rosto amarrotado. Ela, atroz, concorda comigo, porém lembra-me que tudo ficou num passado remoto, que aquela cena que eu assistia e que me fazia tão bem, não voltará mais. Não há como ter um remake de todas essas lembranças. Nunca mais vou viver esses momentos. Nunca mais verei aquela pessoa tão amada, que agora habita em outro vilarejo. Esse alguém partiu, e eu fiquei aqui afogado nesse poço de consternação, nesse lamaçal de agonia, nessa clarabóia glacial. Esta é a incisiva verdade.

O desespero está preso à minha jugular. Quando estou deitado, quero me sentar. Quando estou sentado, jogo-me no chão. Mas o chão também é frio. Minhas indisposições respiratórias manifestar-se-ão e serão aliadas dessa coisa tão funesta. Pronto, isso poderá ser o meu fim. Que nada. Me dá uma vontade de correr, mas ela corre mais que eu, ela sempre me alcança. Tento ouvir uma música, mas ela fala mais alto. Não consigo. Tranco-me no quarto, no porão, no banheiro. Porém, em menos de um segundo, ouço os passos dessa excomungada. Não demora muito, ela bate à porta. Digo que não vou abrir. Ela não usa palavras para me contrariar. Arrebenta a porta e dá um sorrisinho sevo. Não adianta, pirado. Você nunca se desvencilhará de mim. Sou eterna. Eu não repouso. Quanto mais o tempo passa, mais eu cresço. Chegará uma hora em que você será menor que um inseto. E não pense que ficarei irritada com os seus zumbidos. Não tem jeito, você está encurralado. Só a morte pode te salvar, só a morte pode curá-lo de mim. Mas não vou apresentar-lhe a ela. Eu nunca faço isso, não consigo ver graça na morte. Sou aliada da tortura. Isso mesmo. Tortura, sofrimento. Esses serão seus fiéis escudeiros até suas últimas contorções.

Eu me levanto. Salto em cima dela. Ela, violenta, joga-me contra a parede. Ela não demonstra furor no seu olhar. Nem ao menos está ofegante. Ri. E eu choro muito. Dou-lhe um empurrão. Sinto-a tremular. Cai mas não cai. Caiu! Caiu dentro da privada. Eu consigo rascunhar um sorrisinho. Não sei como, mas sinto que estou forte. Aperto a descarga. Vejo-a sendo sugada pela água tingida de desinfetante. Que alívio. Ela foi para os quintos. Logo sinto alguém acariciar minha nuca. Viro-me depressa. Lá está ela novamente. Infame! Como ressurgiu assim? Pego o rodo. Vou escorrê-la para o ralo novamente. Ela se fixa no chão. Abro a porta. Tranco-a no banheiro. Acho que vou para o quarto. Quero ouvir Vivaldi, Chopin, Caetano, Marisa, não sei mais quem. Corro para o quarto. Enquanto corro, olho freneticamente para trás. Ela não pode me acompanhar. No entanto, quando olho, ela já está à porta. Ela me espera. Mostra-me minha cama. Deito-me. A cama já está aquecida. Encolho-me entre os lençóis. Posição fetal. Cubro minha face com o travesseiro de penas. Seria bom transformar-me num pássaro. Quem sabe conseguiria fugir. Voaria para o Nepal, para a China, para Budapeste. Sinto-a afagando minhas mãos. Parece que cochicha uma canção. Tomo forças e a encaro. Ela sorri delicadamente. Põe o dedo indicador na ponta do meu nariz. Diz-me: Durma um pouco. Há muita desesperança pela frente. Não tente matar a Saudade. Saudade não se mata. Saudade se vive. Vive-se à flor da pele. Ouço essas palavras com a impressão de que elas vêm de muito longe. Durmo sentindo o calor da maldita Saudade a queimar minhas vísceras e a atassalhar meu acirrado coração.
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Um comentário:

  1. Saudade é um câncer incurável...


    Márcia Werner

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