quinta-feira, 29 de maio de 2008

Para ver as meninas

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, para ver as meninas e nada mais nos braços...





Viva a poesia do mestre Paulinho! Viva Marisa, maravilhosa Marisa!
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Paulo Freire











“O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação” Paulo Freire




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sexta-feira, 16 de maio de 2008

#Delíryos | Memórias Infantis




Parece que quando a gente é criança tudo acontece. Talvez a vida permita os vários acontecimentos, sejam bons ou ruins, por dois motivos. O primeiro é algo natural: temos que vivenciar situações. Não tem para onde correr. O segundo motivo, no caso dos bons, talvez seja um presente da vida: todas as situações hilárias que vivemos na infância ficam guardadas numa caixinha de memórias, muito especial. Quando atingimos a fase adulta da nossa nada mole vida, a vida, ironicamente, nos traz à tona as engraçadas reminiscências infantis como uma espécie de catarse para aliviar o inferno de ter “crescido”, ter virado “adulto”, ter atingido a tão esperada “maioridade”, ter “amadurecido”.

Até hoje, minhas memórias infantis estão mais vivas e claras do que nunca. O tempo passou, mas elas não perderam a qualidade. Muito pelo contrário: saíram da fase analógica e estão na digital. Tomara que permaneçam evoluindo. Não quero perdê-las.

Lembro-me que na minha rua tinha um barranco enorme, que dava para um terreno baldio da rua de baixo. Eu, minha irmã mais nova, e outros diabinhos vizinhos, pegávamos caixas de papelão, uns pegavam aquele colchão velho que não usavam mais, e não contávamos história: descíamos derrapando uns dez metros abaixo. Só enfastiávamos da brincadeira quando estávamos feitos uns brigadeiros, de tanto rolar na terra.

Outra vez, na tão deliciosa corrida de carrinho de rolimã, fui eu e minha irmã mais nova, de novo. Eu estava no comando. Minha irmã, vestida apenas num shortinho parecido com os que os craques do futebol usavam até os anos 80, cabelão esvoaçante, ia à garupa. Mais uma vez, com a trupe de capetinhas, virávamos a nossa rua pelo avesso. Os vizinhos deveriam ficar ensandecidos com a sonoridade dos rolimãs. Sem contar nos motoristas que, com certeza, já sabiam que teriam que pisar leve quando passassem na nossa famosa rua.

Numa dessas corridas de rolimã, não me lembro se foi a primeira, nosso carrinho ia a todo vapor, enquanto meu joelho gastava-se no asfalto, e minha irmã tinha seu cotovelo carcomido pela agressiva pavimentação. Na hora do banho, não preciso nem escrever, não é? Amaldiçoávamos os nossos ‘velozes e furiosos’.
Mas terrível mesmo foi uma vez em que fui nadar na piscina de um amigo que morava duas casas depois da minha. A piscina era aquela de plástico azul, com desenho de peixinhos jubilosos. Estava eu e mais uns quatro garotos. Nesse dia, meu pai tinha me falado que eu não iria, e eu, teimoso, fui. O pior, quem sabe, não foi a minha teimosia. Eu estava com uma diarréia ferina. Mas fui.

Chegando lá meu intestino comportou-se como um lorde. Brinquei muito, era água para tudo quanto é lado, e todas aquelas brincadeiras que sempre improvisamos na água. Mas, com tanta agitação, o meu intestino ficou nervoso, e começou a me ameaçar. Bastava um pum para aliviar sua sanha. Até que não suportei mais: sai correndo para a minha casa. Entrei no quintal todo ensopado de água, por enquanto.

E agora, como eu entraria em casa naquelas duas situações, molhado e prestes a dar uma saraivada de merda? Além disso, meu pai estava em casa, pois trabalhava á noite. Fui salvo por um dos banheiros que ficava no lado de fora, na lavanderia. Porém, nem tudo foi perfeito. Não deu tempo de eu abaixar a bermuda. Em segundos, o chão do banheiro se transformou numa poça marrom. Que alívio...

Não pensei duas vezes, sai correndo para a piscina. A bermuda era de cor bege, ninguém perceberia. Cai na quase límpida piscina azul, que ficou marronzinha também. Normal. E, para a minha surpresa, me safei de novo. O dono da piscina, num momento brusco de racismo, expulsou um dos garotos, acusando-o de ter feito aquela merda na piscina dele. “sai daqui, seu nego fedido!”, excomungou o garoto, muito possesso.

Eu havia feito a pior ‘cagada’. Estraguei a brincadeira de todos, fiz os dois amigos brigarem e um sair execrado da nossa diversão. Ou todos saíram?
Ao chegar em casa, ri muito. Por pouco não tive outra crise diarréica, correndo o risco de me desmanchar em bosta.

Quando a gente é criança, até uma diarréia vira diversão. Quando tornamos-nos adultos, ela não tem outra característica: é merda mesmo.

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Astronauta




Astronauta, você está sentindo falta da terra? Que falta que essa terra te faz? A gente aqui em baixo continua em guerra, olhando aí pra lua, implorando por paz. Então me diz por que você quer voltar? Você não está feliz onde você está, observando tudo à distancia, vendo como a terra é pequeninha, como é grande a nossa ignorância e como a nossa vida é mesquinha? A gente aqui no bagaço, morrendo de cansaço, DE TANTO LUTAR POR ALGUM ESPAÇO. E você , com todo esse espaço na mão, querendo voltar aqui pro chão? Ah, não, meu irmão... Que bicho te mordeu?

Ah, não meu irmão... Qual é a tua? Que bicho te mordeu ai na lua? Fica por ai que é o melhor que você faz. A vida por aqui está difícil de mais. Aqui no mundo o negocio está feio. Todo mundo está feito cego em tiroteio, olhando pro alto, procurando a salvação, ou pelo menos uma orientação. Você já está perto de Deus, Astronauta. Então me promete que pergunta pra Ele as respostas de todas as perguntas e me manda pela internet.

É tanto progresso que eu pareço criança. Essa vida de internauta me cansa. Astronauta, você volta e deixa eu dar uma volta na nave. Passa chave, porque eu estou de mudança. Seja bem-vindo! Faça o favor de tomar conta do meu computador, porque eu estou de mala pronta, estou de partida, e a passagem é só de ida. Estou preparado para a decolagem. Vou seguir viagem, vou me desconectar, porque eu já estou de saco e não quero receber nenhum e-mail com notícia dessa merda de lugar.

Eu vou pra longe, onde não exista gravidade, pra me livrar do peso da responsabilidade de viver nesse planeta doente e ter que achar a cura da cabeça e do coração da gente. Chega de loucura, chega de tortura. Talvez, aí no espaço, eu ache alguma criatura inteligente. Aqui tem muita gente, mas eu só encontro solidão, ódio, mentira, ambição. Estrela por aí é o que não falta, Astronauta. A terra é um planeta em extinção.

Eu vou pro mundo da lua, que é feito um motel,
Aonde os deuses e deusas se abraçam e beijam no céu...
Valeu, Pensador!
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terça-feira, 6 de maio de 2008

#Delíryos | Maldita!



Ela está me debelando. Desejo que ela acabe logo com esse murmúrio de vida que me resta. Não sei, parece que ela se realiza ao me achacar. Ela me leva a um mundo que me faz sorrir, mas quando penso que vou perder o controle e dar uma gargalhada ecoante, ela me chacoalha e diz: “Seu bobo, claro que isso não é verdade. É só uma das milhões de alucinação em que você ainda vai afundar, demente”. Eu tento rechaçar as gélidas palavras dessa maldita. Eu lembro que vivi tudo o que senti, tudo o que fez germinar um escorço de sorriso no meu rosto amarrotado. Ela, atroz, concorda comigo, porém lembra-me que tudo ficou num passado remoto, que aquela cena que eu assistia e que me fazia tão bem, não voltará mais. Não há como ter um remake de todas essas lembranças. Nunca mais vou viver esses momentos. Nunca mais verei aquela pessoa tão amada, que agora habita em outro vilarejo. Esse alguém partiu, e eu fiquei aqui afogado nesse poço de consternação, nesse lamaçal de agonia, nessa clarabóia glacial. Esta é a incisiva verdade.

O desespero está preso à minha jugular. Quando estou deitado, quero me sentar. Quando estou sentado, jogo-me no chão. Mas o chão também é frio. Minhas indisposições respiratórias manifestar-se-ão e serão aliadas dessa coisa tão funesta. Pronto, isso poderá ser o meu fim. Que nada. Me dá uma vontade de correr, mas ela corre mais que eu, ela sempre me alcança. Tento ouvir uma música, mas ela fala mais alto. Não consigo. Tranco-me no quarto, no porão, no banheiro. Porém, em menos de um segundo, ouço os passos dessa excomungada. Não demora muito, ela bate à porta. Digo que não vou abrir. Ela não usa palavras para me contrariar. Arrebenta a porta e dá um sorrisinho sevo. Não adianta, pirado. Você nunca se desvencilhará de mim. Sou eterna. Eu não repouso. Quanto mais o tempo passa, mais eu cresço. Chegará uma hora em que você será menor que um inseto. E não pense que ficarei irritada com os seus zumbidos. Não tem jeito, você está encurralado. Só a morte pode te salvar, só a morte pode curá-lo de mim. Mas não vou apresentar-lhe a ela. Eu nunca faço isso, não consigo ver graça na morte. Sou aliada da tortura. Isso mesmo. Tortura, sofrimento. Esses serão seus fiéis escudeiros até suas últimas contorções.

Eu me levanto. Salto em cima dela. Ela, violenta, joga-me contra a parede. Ela não demonstra furor no seu olhar. Nem ao menos está ofegante. Ri. E eu choro muito. Dou-lhe um empurrão. Sinto-a tremular. Cai mas não cai. Caiu! Caiu dentro da privada. Eu consigo rascunhar um sorrisinho. Não sei como, mas sinto que estou forte. Aperto a descarga. Vejo-a sendo sugada pela água tingida de desinfetante. Que alívio. Ela foi para os quintos. Logo sinto alguém acariciar minha nuca. Viro-me depressa. Lá está ela novamente. Infame! Como ressurgiu assim? Pego o rodo. Vou escorrê-la para o ralo novamente. Ela se fixa no chão. Abro a porta. Tranco-a no banheiro. Acho que vou para o quarto. Quero ouvir Vivaldi, Chopin, Caetano, Marisa, não sei mais quem. Corro para o quarto. Enquanto corro, olho freneticamente para trás. Ela não pode me acompanhar. No entanto, quando olho, ela já está à porta. Ela me espera. Mostra-me minha cama. Deito-me. A cama já está aquecida. Encolho-me entre os lençóis. Posição fetal. Cubro minha face com o travesseiro de penas. Seria bom transformar-me num pássaro. Quem sabe conseguiria fugir. Voaria para o Nepal, para a China, para Budapeste. Sinto-a afagando minhas mãos. Parece que cochicha uma canção. Tomo forças e a encaro. Ela sorri delicadamente. Põe o dedo indicador na ponta do meu nariz. Diz-me: Durma um pouco. Há muita desesperança pela frente. Não tente matar a Saudade. Saudade não se mata. Saudade se vive. Vive-se à flor da pele. Ouço essas palavras com a impressão de que elas vêm de muito longe. Durmo sentindo o calor da maldita Saudade a queimar minhas vísceras e a atassalhar meu acirrado coração.
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