sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Os Bandidos

Domingo (21), a trupe do Teatro Oficina encenou os últimos atos da temporada de “Os Bandidos”, tragikomédiorgya de Friedrich Schiller, transformada, escandalosamente, em uma ópera de carnaval pelo diretor José Celso Martinez Corrêa. Mas, no sábado, eu - como sempre atrasado - ainda tive a chance de assistir o espetáculo.


Não quero tecer nenhuma crítica à ‘primeira novela das oito do UzynaUzona’, como a montagem é definida pelos seus idealizadores, pois não tenho envergadura alguma para isso. Porém, não poderia deixar de registrar esta experiência, embora todas as palavras sejam incapazes de vencer a gama de impressões que passeiam velozmente sobre os olhos do expectador, ainda que ele seja pueril, como eu.

E, como “nada se cria, tudo se copia” - como ponderou outro velho tropicalista, Chacrinha, - (disse se referindo à TV. Trago a máxima para os blogs) - , sem fazer gêneros, roubo as palavras do ator Pascoal da Conceição, que depois de assistir a peça escreveu: “[Durante o espetáculo] pra onde você olhar estará tendo visões inacreditáveis”

No meu caso, uma dessas visões retratava ninguém mais ninguém menos que um arcaico EU. Sim, cai na realidade de que integro o grupo das pessoas da sala de jantar, aqueles que só são ocupados em nascer e morrer. Em outras palavras: SOU CARETA! Mas não atuo sozinho nesta tragédia. Afinal, diante da anarquia hedonista do carnavalesco espetáculo do Oficina, quem não é?

Talvez esta impressão só corrobore a minha ignorância, pois, a partir da peça, refleti e cheguei à conclusão de que o teatro é a fuga da representação; o teatro desnuda o ser humano; o teatro dá vida aos nossos olhos para que possamos enxergar o que está dentro da nossa casca; ele dá aquela chacoalhada e diz: “Hei, Ser: existem mais elementos dentro de você e ao seu redor”.

Tudo explica porque o teatro é o coração, a artéria pulsante da dramaturgia e da vida também – porque não? Não terei medo em dizer ou escrever que a TV e o cinema, ainda que ofereçam ‘espetáculos’ talhados com o maior esmero artístico, diante das arenas do teatro, ficarão perdidos no fantástico mundo das representações. Esta constatação, agora, está repleta de empirismo.

Para que este post não se transforme em um novelão das oito, encerro por aqui. Deixem-me ir soltar os panos sobre os mastros no ar; soltar os tigres e os leões nos quintais e, com o luminoso punhal de puro aço. matar o bandido SER que, de repente, por ser tão apaixonado por mim, não me deixa transcender às outras esferas.


Zé-Celso-até-a-próxima



Share |

domingo, 21 de dezembro de 2008

Crise e oportunidade



Recebi esta mensagem da Editora Contexto. Apaixonado por ideogramas, resolvi dividi-lo com aqueles que tiverem o azar de cair nesta página.



"A História é um processo construído com continuidades e mudanças. A crise é uma oportunidade de mudar para melhor".
Share |

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

#Delíryos | Tudo parece óbvio demais

Neste natal brasileiro, a popularidade do Papai Noel, sem dúvidas, aterrissou. O motivo para a queda no 'ibope' do bom velhinho? A chegada de Madonna às terras brasileiras. Quer mais?

Não se fala em outra pessoa. Mesmo aqueles que não morrem de amores pela 'diva' (tipo eu), ficam tentados a ler pelo menos alguma notinha narrando mais uma excentricidade da moça. E não passam vontade. A 'rainha' tem espaço cativo em jornais, revistas, páginas virtuais, rádio e noticiários televisivos. Ela é mesmo 'poderosa', não é?

Apesar da curiosidade, confesso: não aguento mais. Porém, acho que não vou mais abrir essa boca que Deus me deu para falar mal da pop star. O motivo? Além de não querer dar mais audiência à 'divindade', também não quero apanhar - porque isso quase aconteceu em todas as vezes que ousei esbravejar contra a 'deusa'. Descer a lenha na Madonna perto de algum fã enlouquecido (porque todos são - direito deles) pode ser arriscado. Mas vou falar a última: a mulher está - com perdão da expressão - "cagando e andando" para o mundo, enquanto o mundo se contorce em cólicas pela cantora de 'Like a Virgin'. Nem quero entender. Será que eu sou o único chato?


Bem, mas voltando à abordagem que os meios de comunicação estão fazendo da loira fenomenal, hoje a Nina Lemos publicou um texto fantástico no Folha de S.Paulo - "Tudo parece óbvio demais" - (vale a pena ler).

Nina, não te conheço, nunca de vi, mas sou seu fã (daqueles que se contorcem, sabe?). Agora vou falar a última de verdade: a Madonna é mesmo muito 'careta', como você a descreveu em sua crônica. Ah, desculpe-me pelo roubo do título.
Share |

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Preciso ler!

No último domingo, vi uma propaganda no Folha de S.Paulo sobre o livro-biografia da Leila Diniz, escrito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, e publicado pela Companhia das Letras. Fiquei instigado.

Hoje, quase agorinha, visitando alguns blogs, fui parar na página do DJ Zé Pedro (?), e lá estava um post sobre a obra de Joaquim. Não vou passar vontade: ainda nessa semana terei o tal livro na minha estante (ou melhor: nas minhas mãos).



Share |

MIS - Museu da Imagem e do Som

Tenho que contar. Sexta-feira passada, por acaso, fui ao MIS – Museu da Imagem e do Som. Estava eu perdido no Jardins, envolvido em uma reportagem malfadada, passo em frente ao museu e, para não perder a viagem, entrei.

Há tempo estava com vontade de conhecer o MIS, mas, confesso, sou muito preguiçoso, apesar de curtir esses lugares.

Eu tinha outra imagem do museu (que nem tenho coragem de postá-la aqui, porque - na boa – era muito inocente...).

Ao entrar, a primeira frase que consegui balbuciar foi: “que hospício (bom) é esse?”. Confesso que fiquei atordoado com as não-sei-quantas plasmas que exibiam não-sei-quantos curtas. Tive vontade de sentar e assistir a todos, porem estava sem tempo – acabei assistindo apenas O Fim do Homem Cordial (que valeu muito!).

O filme de Daniel Lisboa é uma narração jornalística do seqüestro de um líder político baiano. As imagens mostram os seqüestradores bradando (com mil e um palavrões) contra o ‘coronelismo’ da terra de Jorge Amado

O mais irônico: o crime se passa na Bahia, o noticiário é baiano, mas o âncora do telejornal (Casemiro Neto), do BaTV, no curta, tem a língua enrolada. A impressão é que estamos diante de um boletim árabe. Muito intrigante o link terrorista que o Daniel fez.

Bem, e se juntar as peças ‘líder político da Bahia’ mais ‘rede de TV’ qual será a peça final. Como diz a nossa amiga Lucianta Gimenez: “abafa o caso” afinal de contas, a tal peça nem integra mais essa dimensão.

Até fiz umas fotos (na encolha) lá no MIS, porém, não sei o que aconteceu. Blog, computador, os arquivos das imagens, navegador e não-sei-quem-mais não se entenderam, por isso não rolou a postagem.

Share |

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

#Delíryos | Pó pará com o pó

HAHAHAHA. Todos estão comentando, mas me faltava tempo de ver o vídeo da Jake - cantora católica, uma espécie de Daniela Mercury e Ivete Sangalo da igreja. Sem comentários. A perfomance da moça é hilária (e deliciosa, por que não?).


Jake, se lançar esse vídeo no You Tube fazia parte de uma estratégia de marketing - afinal o carnaval está às portas -, você foi feliz! Ó paí ó: seu hit vai levar o carnaval da Bahia ao delírio. Até Caetano já pediu: "QUERO “PÓ PARÁ COM O PÓ” CANTADO POR IVETE, DANIELA, CHICLETE, ASA, JAMIL E QUEM MAIS".




Aproveitando: talvez só o Marcelo Silva não tenha visto o seu clip. O moço não quis esperar o carnaval, para se perder nos confetes e serpentinas ao som de 'Pó pará com o pó'.





Share |

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

#Delíryos | Poetas da incompreensão

Escrevi este artigo depois de assistir o documentário “Aqui favela: o rap representa”, de Junia Torres e Rodrigo Freitas.

Paula Veneroso, professora de redação, disse que dá pra ler o texto. Então lá vai!

Os estreitos becos das favelas são embalados pelas mixagens dos scratchs, animados pelas acrobacias dos passos de break, coloridos pelos traços do ‘grafitti’ e eletrizados pelas rimas pulsantes que cantam a poesia dos marginalizados. Isto é rap, isto é arte. Mas há quem diga que o rap é uma filosofia de vida. Outros preferem afirmar que rap é compromisso. Alguns o definem como “música de bandido”.

Este é um dos debates do documentário “Aqui ‘favela’ o rap representa” - de Junia Torres e Rodrigo Freitas - que retrata o cotidiano de rappers de São Paulo e Belo Horizonte e a luta desses artistas, que só querem sustentar suas identidades.

Na favela, quando se trata do tema ‘identidade’, o beco é sem saída: no asfalto, à espreita, está um bicho chamado preconceito, que se apresenta com três cabeças: social, racial e musical. E esse bicho, com suas enormes garras, ocupa todos os espaços, esmagando os difusores do estilo suburbano.

Na vida social, a cor da pele, a falta de estudos, o ‘morar’ na favela são os principais bloqueios para o tão sonhado lugar ao sol. Na vida artística, além da ojeriza que suas rimas ainda causam à sociedade, o problema também gira em torno dos aromáticos ‘pratos de lentilhas’, oferecidos por produtores ensandecidos para levá-los às prateleiras fonográficas. Os poetas da incompreensão, preocupados com suas ideologias culturais, se deparam com outro impasse: é preciso vender a alma ao diabo para conquistar o ‘lugar ao sol’?

A resposta otimista seria: não. Mas, segundo os ‘manos’, é o que faz a maioria dos expoentes do movimento, deixando-os revoltados. Bons exemplos são as mc’s que protagonizaram o seriado ‘Antônia’, exibido pela TV Globo. As personagens, assim como suas intérpretes, tinham como maior preocupação o estrelato, uma contradição ao gênero, que, além de evidenciar a arte da favela, tem como primazia o discurso contra a desigualdade social. Eis outro motivo para tanta rejeição. Mesmo com programas como ‘Manos e Minas’ (TV Cultura) - que mostra, para muitos, um lado mais ‘pacífico’ do rap - apresentado por Rappin’ Hood (um dos maiores expoentes do gênero)– tido como “gozolândia”, como os ‘manos’ do movimento adjetivam os que “vendem a alma ao diabo” - as pessoas nunca vão entender e aprender que música, independente do gênero, transcende todas as linhas traçadas pela tal sociedade. No entanto, sempre será válida a máxima do velho cientista: “é mais fácil quebrar um átomo do que o preconceito”.

Por que não aceitar o rap e os seus ‘revoltantes’ protestos? O rap é a voz da favela. Simples assim. Como a bossa nova é a voz da zona sul carioca, assim como o forró representa o nordeste; a moda de viola, que canta o sertão; o samba de raiz, que fez ecoar o lamento do morro, que agora sorri com o funk; o rock, que trepidou as garagens dos bairros mais abastados e tantos outros estilos que representam diversos guetos.

Contudo, vale também adotar as outras definições atribuídas ao gênero musical. O rap também é uma filosofia, que tem o compromisso de bradar contra os desatinos de um sistema tacanho, que repugna a arte de seus versos à infeliz demarcação “música de bandido”. E mesmo com as vozes abafadas pelo preconceito, suas batidas não se cansam de ritmar a poesia do saudoso malandro que diz “a favela nunca foi reduto de marginais. Ela só tem gente humilde, marginalizada e essa verdade não sai nos jornais”.

Share |

domingo, 7 de dezembro de 2008

#Delíryos | Twitter


Acabei de aderir o Twitter, porém - que dó - tô mais perdido que cueca em porta de motel. Como eu já esperava, estou desesperadp. Aceito umas aulas!


,

Share |

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

#Delíryos | Baby...



...desde que você partiu, estamos envoltos em uma grande tempestade...
Nossas lágrimas são como chuva torrencial, que molham nossos rostos e mergulham nossas almas em um infindável mar de tristeza ...

O brilho dos nossos olhos só irradia a melancolia, e nossos sorrisos sempre são apagados por uma violenta dor, chamada ‘falta de você’...

Todas as noites, ao deitarmos, sentimos a saudade ainda mais forte aconchegada aos nossos ardidos peitos, que pulsam com as batidas dos nossos cansados corações, transformados em uma grande e incurável ferida. A dor nos embala e, tristes, dormimos.

Mas, ao amanhecer, somos novamente torturados, é mais um dia sem você.

É difícil aceitar essa verdade, mas não há como fugir... Então nosso lamento se renova. É mais uma dia sem o seu sorriso, sem as suas gargalhadas, sem aqueles olhares tão cômicos, sem o seu perfume, sem a sua beleza, sem a sua grandiosidade humana...

Então ficamos perdidos em pensamentos e em questionamentos que nunca serão respondidos...

Baby, você nasceu, floresceu, mas não morreu. Você estará sempre viva em nossas memórias, estará para sempre tatuada nos nossos corações...

Teremos para sempre a sua imagem tão perfeita cintilando nos nossos olhos, que sempre serão banhados pelas lágrimas da saudade, da tristeza e também da alegria, porque você deixou incontáveis momentos maravilhosos.

Baby, o desalento é descomunal... Que vontade de sair correndo, gritando seu nome, na esperança de te encontrar, te abraçar e trazer você de volta para o nosso convívio...
Mas tudo fica só no desespero...

Queremos te dizer - embora você não vai ouvir, pois, agora, seus ouvidos são para as mais belas melodias, para o cantar dos pássaros, para o sussurrar da brisa que te faz companhia - que não suportamos mais tua ausência...Já pedimos a Deus, paciência...

Baby, a vida quis assim, mas nada vai levar você de nós, porque a distância não existe, e todos os caminhos nos levam até você...

Descanse em paz...

Os fortes braços de Deus são os teus castelos, onde para sempre vais morar...

Sua família, que sempre vai te amar



Share |

sábado, 11 de outubro de 2008

Oswaldo Martins

Faz uma semana que desejo passar por aqui, mas o tempo e o meu ferrenho cotidiano têm me feito refém de suas tiranias.
E por falar em tirania, domingo (5) li um das maiores no caderno mais! Dessa vez, o tempo e o cotidiano não foram os algozes, mas, sim, pais de alunos de uma escola de classe média do RJ que, depois de ficarem “excitados” com a poesia erótica do professor Oswaldo Martins, reivindicaram a demissão do poeta. A instituição de ensino, rapidamente, tratou de realizar o “desejo” da horda.

Pensei: aonde esses ”zelosos” pais pretendem levar os filhos com esse conservadorismo coberto por teias de aranha e esverdeado pelo musgo do mofo?

Pior capítulo do drama poético: “psicólogos” e juristas, segundo a direção da escola, que não quis prestar maiores declarações, alegaram incompatibilidade entre licenciatura e poesia... (querido Freud, por favor, explique!).

Não pude deixar de visitar o blog do poeta, além de deixar minha pequena solidariedade. Cheguei a ficar emocionado ao me deparar com a letra de uma música que compunha o último post de Oswaldo – “Meu mundo é hoje”, lindo samba de Wilson das Neves (uma das trilhas sonoras da minha vida)
"Tenho pena daqueles
Que se agacham até o chão
Enganando a si mesmos
por dinheiro ou posição
Eu nunca tomei parte
Desse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai no caixão"

Pois é, caro Oswaldo, a hipocrisia é o grande e incurável câncer dessa sociedade. Os remédios estão aí, mas ela prefere alimentar este mau.
Faltam outras coisas a esses pais, mas eles não desejam esse restante...

Sei que eles nunca vão acessar este blog, mas, para aqueles que compartilham a mesma travada ideologia, e que tiverem a infeliz sorte de passar por aqui, além da paciência de ler este post, gostaria de dedicar uma das poesias oswaldiana.

a alice no país das baboseiras
é uma garota esperta
prefere foder com a coleguinha
usar celular
batom
cortar as cabeças
dos mendigos

(Do livro “Cosmologia do Impreciso”)

Para quem gostou, um abraço; para quem detestou, um conselho: corra à farmácia e escolha o melhor tarja preta.

P.S: Ao terminar de redigir este post, encontrei uma notícia de que um grupo de pais protestaram a demissão do professor. Leia aqui.



Share |

Atenção!

Atenção
Essa vida contém cenas explícitas de tédio
Nos intervalos da emoção

Atenção
Quem não gostar que conte outra,
encontre, corra atrás,
enfrente, tente, invente
sua própria versão

Aqui não tem
segunda sessão
Aqui não tem
segunda sessão

Composição: Arnaldo Antunes/João Bandeira/ Alice Ruiz
Share |

Bicho-preguiça




Que preguiça, Uél Uél...



Share |

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

#Delíryos | Paulo Coelho

Não sou fã do moderno escritor mais lido do mundo, nunca consegui ler nenhuma de suas obras - já tentei, mas não passei das cinco primeiras páginas. Não se trata de receio intelectual, jamais. Todo tipo de leitura é válido. Porém, hoje, ao abrir o G1, me deparei com uma chamada do blog do Paulo - "Deus está atrás de toda a agonia e êxtase da vida". Rapidamente, cliquei no link e novamente me deparei com um texto simples, nada de novo, eu já sabia de tudo o que estava escrito ali, mas eu gostei da intertextualidade que o Mago usou no post. Fiquei mexido. As palavras falaram muito do meu momento. Vale a pena compartilhá-las.


Da tela

Postado por Paulo Coelho em 03 de Outubro de 2008 às 00:23

O espírito de Deus presente em nós pode ser descrito como sendo uma tela de cinema. Por ali passam várias situações - pessoas amam, pessoas se separam, tesouros são descobertos, países distantes se revelam.

Não importa, entretanto, qual o filme que está sendo projetado: a tela permanece sempre a mesma. Não importa se as lágrimas rolam ou se o sangue escorre - porque nada pode atingir a brancura da tela.

Assim como a tela de cinema, Deus está ali - atrás de toda a agonia e êxtase da vida. Todos nós vamos vê-lo quando o nosso filme terminar.


Share |

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Flertando com a fotografia

Sempre gostei mais de escrever, porém, ultimamente, tenho flertado com a fotografia. Esse inicio de paixãozinha me fez sair à caça de imagens legais. Olha um pouco do que eu encontrei.
Ahn?

Arregalou os olhetos? Eu também. Nunca ouvi falar do caso dessa menina, Lina Medina, peruana, que na época do foto (1938) tinha 5 anos, e já esperava o seu primeiro baby.


Na falta de um parceiro...





Maravilhas femininas, meus docinhos de pavê...
Hillary, você também assusta criançinhas?






Pensei que fosse a Britney...






Mamãe, ma-mamãe natureza!
Em tempos de photoshop, dá até pra duvidar, né?









Crianças no êxodo
Estas fotos, apesar da triste temática, na minha opinião, são as mais belas deste post















Fotos de Sebastião Salgado


Falando, ou melhor, olhando crianças...
As tórridas imagens são de um zoológico.











Share |

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

#Delíryos | Alegrias e tristezas


Hoje faz 10 meses que minha família sofreu um violento desfalque. Perdemos uma grande referência, não só de beleza, mas de ser humano, que partiu inesperadamente. Desde então, vivemos asfixiados pela saudade, e nossos olhares só trazem o brilho da melancolia.

Domingo, lendo o Folha de S.Paulo, me deparei com um texto maravilhoso da Danuza Leão, que fala um pouco do nosso drama. Chamou muito minha atenção o olho (chamada) da crônica: "Numa reunião familiar, por mais alegre que ela seja, a presença maior é a dos ausentes", por isso resolvi postá-la aqui.


Eu não gosto muito de reuniões familiares, e por isso sempre me achei diferente dos outros – no pior sentido, claro. Como a maioria das pessoas se prepara para os aniversários, os Natais (ah, os Natais!), como curtem, com que prazer fazem a lista dos presentes, compram as comidas natalinas, sempre as mesmas, e curtem o dia em que a família estará toda reunida. Tenho inveja dessas pessoas e culpa por, diante dos meus filhos e netos, nunca ter feito um Natal de verdade, isto é, por não ter sido (e continuar não sendo) uma boa mãe. Mas é acima das minhas forças. No meu aniversário eu me escondo, se puder viajo, e se alguém me disser parabéns, sou capaz de ter uma coisa.

Aliás, já passei dessa fase. Podem me desejar todos os parabéns que quiserem que não estou nem aí.

Sempre achei que isso tinha a ver com a maneira como fui criada. Na casa dos meus pais sempre foi assim, não se ligava para outras datas. No meu casamento compareceram apenas minha mãe, meu pai e meu marido, evidentemente, que só levou dois amigos ao cartório. Me casei com uma saia xadrez e um suéter, e não houve bolo, champagne, nem lua-de-mel. Para mim isso me pareceu – e ainda parece – absolutamente natural e nada me faz falta.

Mas existem ocasiões das quais não se escapa. O casamento de um filho ou de um neto, por exemplo. Como não há como escapar, entro no clima, e durante a festa fico até bem feliz de ver a família reunida, todos alegres de estarem juntos. E reflito sobre quantas pessoas ali são fruto de um casamento simples, como foi o meu. Fazendo as contas, dez pessoas. Inacreditável.

Todos nós abraçamos, nos beijamos, brindamos, nos emocionamos, e depois que chego em casa, sozinha, me vem uma enorme tristeza. Uma tristeza que não consigo compreender e que dura dias, semanas. Mais do que uma tristeza, entro quase em depressão. Penso. Penso, lembro de como estavam todos tão felizes, inclusive eu, e não sei por que estou tão mal. Mas da última vez de tanto pensar, acho que entendi.

Numa reunião familiar, por mais alegre que ela seja, por mais que estejam todos reunidos, a presença maior é a dos ausentes. Os que deviam estar lá mas não estão porque já se foram, e mesmo quie não se esteja pensando neles, é a falta que eles fazem que nos faz ficar tão tristes.

Alegria e tristeza juntas não dão certo, e as lágrimas de emoção, inevitáveis, vêm mais da tristeza do que da simples emoção de ver um dos seus se casando, começando uma vida.

Não dá para compartilhar essa tristeza com alguém, para não contaminar a alegria dos outros. Você sofre, e sofre só.

Outros casamentos e aniversários vão vir, e a cada vez essa tristeza vai se repetir. Mas agora eu sei a razão pela qual não gosto – e evito quando posso, o que não é sempre – as reuniões familiares. Já sei que não é porque sou diferente dos outros, apenas porque me protejo do sofrimento inevitável, que vem depois.

E como agora – e só agora - descobri isso, me sinto mais livre para, pelo menos no Natal, tomar um avião e ir para bem longe, sem culpa, porque evitar o sofrimento é permitido e recomendável.

E se não puder fazer isso, um bom comprimido para dormir, e no dia seguinte já passou.
Share |

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Marisa Monte & Velha Guarda da Portela

Perdi esse episódio relicário...





Sesc Pinheiros - 26.Ago.2008
Share |

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

#Delíryos | O 'estranho'


O pensador Hegel postulou sobre o conceito de identidade. Segundo o filósofo, “eu sou ‘eu’ porque sou diferente do ‘outro’ ”. E, às vezes, como é estranha a diferença do ‘outro’.

Lembro-me que, ainda garoto, muito garoto, no bairro onde eu morava havia um tipo extremamente bizarro. Pode até ser preconceito usar qualquer termo depreciativo às diferenças de alguém, mas eu o considerava exacerbadamente “estranho”. Era o que me vinha à cabeça todas as vezes que me deparava com ele

Imagine que o sujeito, vivendo nos impetuosos anos 80, era um personagem no bairro. E isso se dava por sua indumentária e outras esquisitices que ele imprimia. Parecia aquela velha história de filme: o cara que ficou anos em coma e quando acordou, claro, estava inteiramente empacado no tempo. Não sei o seu verdadeiro nome, mas todos o chamavam de Boa Gente. O caricato Boa Gente ostentava um charmoso cabelo black power, vestia-se com camisas de seda ultra-estampadas, que brilhavam de longe, carregava uma dúzia de medalhões no pescoço e, para completar o arrojado figurino, trajava justíssimas calças boca-de-sino e enormes saltos cavalo-de-aço. Pensando bem, o homem não deixava de ser impetuoso

Não havia como não parar quando aquele pedaço dos anos 70 passava. E parecia que ele se sentia o “famoso” – naquela época não era comum o termo “celebridade”. Chegava a acenar às pessoas. Mas eu, confesso, morria de medo daquele individuo. Aquele ‘diferente’ era muito estranho para o garoto que não tinha nem 10 anos ainda.

O impressionante é que Boa Gente fazia-se presente mesmo quando não estava estampado à nossa frente. O bairro de uma só vez podia visualizá-lo. Quando menos esperávamos, podíamos ouvir o infinito sonoro “Ôooooooooooooooooooooooooooooooooô!!!!! Boa Gente colocava a boca num microfone e gritava por horas a vogal “o”. Ninguém entendia. Só restava-nos, em nossa vã consciência, chamá-lo de louco.

O díspar Boa Gente causava a impressão de que só havia vindo ao mundo para irradiar espanto.

Boa Gente era barbeiro – o cabeleireiro de homem. Ainda alcancei essa época. Uma vez passei em frente a sua barbearia e o flagrei em cima de um banquinho, segurando um microfone. Olhava para o teto, talvez tendo alguma visão, e gritava o quase infindável “Oooooooooô!!” . Não conseguia imaginar como alguém tinha coragem de entregar os cabelos àquele indivíduo. Se desse a louca, ele poderia ser capaz de retalhar seu cliente. Era o que eu pensava. E, se eu estivesse desacompanhado de um adulto, mudava de calçada, só para não passar perto de Boa Gente. Contudo, que estranho, eu adorava vê-lo.

Numa manhã, o bairro inteiro já estava sabendo do triste fim de Boa Gente. Aconteceu o contrário do que eu pensava. Por uma máquina de escrever, trucidaram Boa Gente. Foi o que se comentou. O assassino utilizou a própria navalha do ‘estranho’ para retalhar-lhe o corpo. O ‘famoso estranho’ foi o assunto nas rodas da feira, nos balcões das padarias, nas filas dos supermercados, nas mesas dos bares, e, quem sabe, em outras barbearias.

Por muito tempo foi difícil cruzar uma esquina e não dar de cara com o 'cabide setentista'. Foi estranho não ouvir mais aquela gritaria de quase todas as tardes. Pensar em tudo isso, estranhar a falta do ‘estranho’, trazia-o de volta. Como se fosse mágica, Boa Gente se materializava na minha frente. Eu não sentia mais medo, só queria encontrá-lo, ouvir seus brados. Mas o cara, que era diferente porque ele era ele, havia levado sua exótica figura a outro lugar. Talvez para o estranho mundo dos estranhos.

Share |

quarta-feira, 23 de julho de 2008

#Delíryos | Dercy, a maior marginal do Brasil




Olha só que paradoxo perfeito: morre Dercy, contudo seus admiradores, ao prestarem depoimentos e as últimas homenagens à eterna rainha do escracho, esboçam, ao invés de lágrimas, sorriso no rosto. Foi o que vimos nos noticiários que abordaram o óbito da debochada artista. E não poderia ser diferente. Lágrimas, quando se refere a esta notável mulher, só mesmo de tanto rir.

Não sou do tempo em que Dercy era a grande estrela das chanchadas brasileiras, apesar de ter assistido alguns de seus filmes. A primeira vez que a vi destilando o seu humor tão peculiar foi numa novela, ‘Quem Rei Sou Eu?’, e, desde então, muito criança, tornei-me um fã ensandecido da carioca mais zombeteira que o Rio de Janeiro já teve.

Dercy, apesar de ser a grande mestra da nossa comédia, talvez não tenha visto muitos frutos de sua licenciatura, porque o humor, na maioria de suas manifestações, foi vulgarizado. Hoje temos uma epidemia de ‘humoristas’ que utilizam os recursos mais facetos para extraírem um ‘sorrisinho de favor’ ou uma lacônica gargalhada de seus expectadores. Dercy primava pela originalidade, não se valia de fórmulas e a ocasião foi a única ferramenta que, magistralmente, utilizou em oito décadas de militância ao riso.

Dercy foi uma mulher que enfrentou ferozmente as fases mais ardis que um artista pode vivenciar, como, por exemplo, aquela em que mulher artista era sinônimo de puta; aquela em que o conservadorismo tirano e tacanho da nossa sociedade debelava a classe artística à condição de marginais. Mas Dercy nunca se abalou. Tanto que , em uma de suas apresentações, orgulhosamente declarou: “sou a maior marginal do Brasil”.

Os 101 anos – ou 102, segundo ela dizia – foram escritos pela mais casta liberdade. Dercy escarnecia dos protocolos, e ‘repressão’ era palavra desconhecida no seu torpe e delicioso vocabulário. Mais do que isso, talvez ela tenha sido a única artista do mundo a sustentar um personagem por tanto tempo, porque Dercy Gonçalves era uma personagem que acabou respirando mais forte que Dolores, seu nome de batismo.

A mordacidade do seu olhar, as gargalhadas arrebatadoras, seus palavrões, que se tornaram “culturais”, conforme ela mesma avaliava, e a imponência do seu talento ficarão para sempre. Dercy se foi, mas o frescor do seu humor continuará fazendo cócegas em muitas gerações. A morte não lhe tirou a mais alta posição no cânone da comédia brasileira.

Dercy, a majestade do escândalo, foi e continuará sendo, sem dúvidas, um dos lenitivos para esta causa tão trágica chamada vida. Gargalhemos todos!
Share |

quarta-feira, 16 de julho de 2008

#Delíryos | Os Senhores das Armas



Não, os jornais e noticiários não estão repetindo suas manchetes policiais. Esse segmento jornalístico jamais sofrerá uma crise. Provas disso são as duas últimas semanas em que lemos, ouvimos ou assistimos o mesmo caso, com personagens diferentes. Contudo, tornar-se-á clichê nas páginas policiais a funesta notícia que relata a morte de inocentes pelas armas de policiais militares, os poderosos senhores das armas?

O que acontece com os tais? Será que estão sofrendo uma lesão irreparável no sistema nervoso? Foram vitimados por uma nova doença, que atinge só a classe policial, a síndrome do “dedo que gosta de apertar gatilho”. Ou, talvez, momentaneamente, os exterminadores do futuro são acometidos por um estrabismo insano – ‘pensam’ que estão mirando em delinqüentes (matá-los também não é a solução) e exterminam inocentes, como Daniel Duque, João Roberto, Rafaelli Ramos Lima, e o último – noticiado – Luiz Carlos da Costa – este vítima de um seqüestrador que não precisou dar cabo de sua vida, porque, no cenário do seqüestro, surgiram os ‘confusos’ PMs, que fizeram o trabalho do criminoso.

Talvez por estas e por mais uma série de ‘debilidades’ que afligem alguns ‘eficientes’ PMs, é que juízes do naipe de Sidney Rosa da Silva, do 3º Tribunal do Júri do Rio, que libertou Marcos Parreira - acusado de matar Daniel Duque - com o argumento da falta de flagrante, são tão solidários com os algozes das últimas e, infelizmente, reais tramas policiais.

Faço minhas as palavras de Daniela Duque, mãe do jovem Daniel, que desabafou: “a lei é tão severamente cumprida a favor do assassino, e, a favor das vítimas, temos que implorar para a lei ser cumprida”. No entanto, também pondero que nossas súplicas são inaudíveis aos ouvidos dessa ‘lei’. Estamos quase roucos, e a mímica dos nossos lábios são invisíveis à míope visão do ‘severo sistema’. Isso pode explicar as 221 mortes de inocentes por policiais em São Paulo, e 502 no Rio de Janeiro, entre janeiro e maio deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de SP e RJ e da Corregedoria da PM de SP.

A verdade é que estamos vivendo sob a ‘guarda’ de um sistema de segurança, que, geralmente, transforma seu ofício em um grotesco cenário de velho oeste, onde mocinhos são eliminados do filme, bandidos vencem triunfantes, e xerifes fazem de conta que são xerifes. Em suma, vivemos a banalização da vida, a regressão da espécie humana. Tornamo-nos primatas do futuro doente.

Como canta o sábio Caetano, “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial...”
Share |

terça-feira, 8 de julho de 2008

#Delíryos | Cafonice tecnológica


Alguém poderia fazer uma listinha com pelo menos dez irritantes cafonices provocadas pela tal da tecnologia? Antes que alguém se habilite a redigir o terrível ranking, sugiro que os 'Djs de trem' ou 'Djs de buzão' (já explico quem são esses) sejam os cabeças dessa infeliz classificação.

Hoje em dia é muito comum estarmos presos num ônibus abarrotado, ou espremidos num trenzão e, em meio a essa agonia, ouvirmos o duelo de uns cinco celulares disputando a audiência dos passageiros. Incrível, ou terrível, é que os estridentes celulares irradiam sempre os hits do Rhythm and Blues comercial dos grandes nomes do atual estilo, como Beyoncé, Rihana e outros. Engraçada, para não dizer patética, é a cara dos “DJs”, que carregam, a tiracolo, seus celulares musicais. As expressões faciais desses psêudo-disc jockeys causam-me a impressão de que os tais se sentem um desses famosos Djs que tocam nas ferventes festas raves. São mesmo um bando de ‘patifes’. Logo os apinhados ‘buzão’ e ‘trenzão’ transformam-se numa subdesenvolvida rave, com participantes pra lá de estáticos, ‘acomodados’ na posição que lhe seja mais adequada ou não, até o fim do sofrido itinerário.

A situação é estarrecedora. Que estejamos amarrotados dentro de um ônibus ou trem, fazer o quê se não integramos a pedante classe média? Mas que não sejamos obrigados a aturar a festa pobre dos ‘doentes tecnológicos’. Tudo bem que vivemos num país dito democrático, e por esta mesma condição é que não temos a obrigação de agüentarmos aquelas pleonásticas batidinhas com uma ‘vozinha’ externando uma prosaica sensualidade em versos que, traduzidos para o português, soam burlescos.

Essas decadentes ‘raves’ tornam-se impositivas à grande massa, que, em sua esmagadora maioria, adora esse evento. E como ficam aqueles caras que são ultra-segmentados, musicalmente falando, como eu? E aqueles beatos, coitados? Sabe aqueles que consideram profanas todas as músicas que não trazem nenhum verso que fale de céu, cruz ou, sei lá, castidade? São obrigados a pecar, e os culpados são os malditos ‘Djs de trem’, que, no juízo final, prestaram contas por esta perversidade.

Este texto não se trata de um esbravejo de pobre recalcado ou discurso de um extremista de esquerda, nem protesto de um alienado com ojeriza à tecnologia. No entanto, minha grande vontade é de antecipar o juízo final para os amantes desse tecnológico pecado capital. Imagina a cena grotesca: os esfarrapados Djs sendo atirados pela janela do trenzão ou do buzão, atônitos, indagando-me o motivo de tanta insanidade, e eu, com olhos esbugalhados, rangendo os dentes, esbravejando: “Apartai-vos de mim, seres abjetos! O pecado da cafonice tecnológica os acompanharão às profundezas!”

Porém, como a violência também é um pecado que pode nos acompanhar às profundezas, requebremo-nos com o samba, com o pagode, com a black music e com o calypso de ‘buzão’. Só não vale cantar. Deixe que o pecado da cafonice tecnológica seja o único incendiário das nossas lastimáveis viagens


Share |

segunda-feira, 30 de junho de 2008

#Delíryos | A mulher apaixonada e o homem devasso




As súplicas da mulher apaixonada foram vencidas pelo desapreço do homem devasso. O algoz tanto fez que trucidou o coração da mulher apaixonada. De nada adiantaram as mais castas declarações que a mulher apaixonada teceu na velha carta amarelada, que já não exprime nenhuma emoção ao homem devasso.. O olor que perfuma o homem devasso não mais embebedará a mulher apaixonada. O calor da boca do homem devasso nunca mais aquecerá os lábios da mulher apaixonada. O chamejar do olhar do homem devasso nunca mais alumiará as noites sem luar da mulher apaixonada. A mulher apaixonada viverá perenemente a desejar a generosidade do sorriso do homem devasso, que à outra mulher apaixonada ele dará. As pernas da mulher apaixonada fraquejam, mas ela vai continuar. Resignada, a mulher apaixonada há de clamar a presença da estrela que os banhou. Talvez os astros acompanhem a mulher apaixonada. A mulher apaixonada seguirá sorrindo um sorriso de languidez. Essa paixão é o seu desatino. Lembrar do homem devasso é como ouvir aquele velho disco. Ela já não pode mais no piano aquela música tocar. Parece que as teclas não cantam. O peito da mulher apaixonada, dolente, não pode agüentar...
Share |

#Delíryos | Os irmãos José



*O texto é longo, mas vale a pena lê-lo!

Quase não convivi com a família do meu pai, composta por tipos esdrúxulos, personagens quase ‘mazzaropianos’. Mas tem um tio, que por sinal tem o mesmo nome do meu pai, Jose Luís, que supera todos. Fazendeiro em Alagoas, uma vez por ano ele vem desfilar a sua caipirice na terra da garoa. E sempre vem visitar meu pai, é claro.

Quando ele aponta no portão, é fácil saber qual será o próximo destino do roceiro: DJUNQUERÓPI. Eu sei que ninguém nunca ouviu falar dessa cidade, e nem a encontram no mapa. Mas eu explico o porquê. Ele, ao invés de pronunciar ‘Junqueirópolis’, cidade do interior de São Paulo, sempre diz sorridente: “Rapaizi, amanhã tô indo pra DJUNQUERÓPI!!” É costume deles anexar o tal ‘izi’ no final de palavras terminadas com ‘z’ e ‘s’.

Outro dia, estava eu em casa, cansado, pois tinha entrado de bico numa coletiva de imprensa, quando menos esperamos – estava com minha irmã mais velha e uma prima – surge a figura agresteira do tio Djunquerópi, como o chamamos. Quase caímos de costas. O coitado até destila certa simpatia, mas sofre de ablutofobia, traduzindo: foge de um banho como o diabo foge da cruz, numa expressão de avó.

Lembro-me que quando eu e minhas irmãs éramos crianças, ficávamos atentos aos talheres e copos que ele utilizava, quando pernoitava em casa. No outro dia, insistíamos para que minha mãe jogasse os tais utensílios no lixo – que pecado – mas minha mãe não atendia as nossas medíocres insistências.

Mas dessa vez não veio só. Trouxe com ele a sua senhora. Uma mulherzinha magrinha, que merecia ganhar o papel de Olívia Palito, se o clássico desenho do Popeye fosse parar na telona.

Minha irmã ficou apavorada. Estava com o cabelo emplastrado de tinta, e faltava pouco para a retirada da química. Minha mãe não estava em casa. O jeito foi minha irmã passar mais de uma hora com a cabeça feito uma aquarela... Fez sala para a sósia de Olívia, que aproveitou para assistir mais um capítulo de sua novela preferida, que passava bem na hora em que chegou.

Meu pai já havia chegado. Juntou-se ao mano, e, juntos, pareciam que brigavam, ou talvez duelassem para ver quem falava mais alto. “Mas rapaizi!!!”, “Homi!!”.

Eu, morto de cansaço, pra não dizer de preguiça, tive que ir para a garagem. Não agüentava o odor do tio Djunquerópi, aproveitei para terminar de ler um livro de García Márquez.

Entretido com a leitura, me deparo com duas figuras hilariantes vindo de encontro ao portão. Eram os irmãos José. De cabeça baixa, não tive como não reparar. Meu pai gentilmente cedeu suas velhas sandálias, compradas no final da década de 90, ao irmão boiadeiro, que exibia suas enegrecidas unhas. Enquanto meu pai, com sua pregueada calça social já chegando ao pescoço, exibia suas unhas enormes, unhas amareladas nuns chinelos Havaianas. “Meu Deus!”, pensei eu. “Aonde vão esses protagonistas de chanchadas da Atlântida?”.

Enquanto isso, minha prima mostrando-se muito simpática com a Olívia do sertão, oferecia-lhe um banho. “Não, minha fia! Se eu tumá um banho agora, eu morro de tosse. Sou doente, minha fia”. Minha prima, claro, se controlou para não gargalhar na frente da frágil senhora.
Tive que ceder meu quarto para o casal rural. Nem pude assistir ao filme que passaria naquela noite, porque, além da fetidez que pairava na sala, o duelo entre meu pai e meu tio ainda não havia cessado.

Pela madrugada, vi quando a pobre Olívia desceu as escadas em apuros. No outro dia, a ouvi contar para minha mãe. “Aí, muié... me deu uma caganeira, Deve ter sido do calor dos ônibus”.
Minha mãe lhe ofereceu um banho. A senhora quis resistir, mas quando menos esperamos, ela sai do banheiro com suas ralas madeixas molhadas.

Agora, todos devem estar se perguntando: “e o tio Djunquerópi, tomou um banhinho?” Que nada! Nem os dentinhos escovou. Desde cedo eu ouvia meu pai perguntar-lhe da gente que deixou há mais de 30 anos, quando veio para São Paulo. A resposta era quase sempre a mesma. “Morreu, rapaizi!!” “E morreu?, e morreu? E o marido da dona Maricotinha? E é homi?” Meu pai é assim: você fala alguma coisa, ele questiona mais umas três vezes. Sem contar que sempre inicia suas frases com a vogal ‘e’.

Depois do café, partiram para DJUNQUERÓPI. “E até o ano que vem!”, despediu-se o irmão do meu pai, sorrindo brejeiramente, com seu bigodinho de bode faceiro. “E tem que vim mesmo! E o Lula paga!”, respondeu meu pai, lembrando da benesse concedida pelo presidente Lula aos aposentados.

Esta foi mais uma história protagonizada pelos irmãos José. Nos dias de hoje, seria um bom argumento para o roteiro de um sitcom.
Share |

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Para ver as meninas

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos, para ver as meninas e nada mais nos braços...





Viva a poesia do mestre Paulinho! Viva Marisa, maravilhosa Marisa!
Share |

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Paulo Freire











“O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação” Paulo Freire




Share |

sexta-feira, 16 de maio de 2008

#Delíryos | Memórias Infantis




Parece que quando a gente é criança tudo acontece. Talvez a vida permita os vários acontecimentos, sejam bons ou ruins, por dois motivos. O primeiro é algo natural: temos que vivenciar situações. Não tem para onde correr. O segundo motivo, no caso dos bons, talvez seja um presente da vida: todas as situações hilárias que vivemos na infância ficam guardadas numa caixinha de memórias, muito especial. Quando atingimos a fase adulta da nossa nada mole vida, a vida, ironicamente, nos traz à tona as engraçadas reminiscências infantis como uma espécie de catarse para aliviar o inferno de ter “crescido”, ter virado “adulto”, ter atingido a tão esperada “maioridade”, ter “amadurecido”.

Até hoje, minhas memórias infantis estão mais vivas e claras do que nunca. O tempo passou, mas elas não perderam a qualidade. Muito pelo contrário: saíram da fase analógica e estão na digital. Tomara que permaneçam evoluindo. Não quero perdê-las.

Lembro-me que na minha rua tinha um barranco enorme, que dava para um terreno baldio da rua de baixo. Eu, minha irmã mais nova, e outros diabinhos vizinhos, pegávamos caixas de papelão, uns pegavam aquele colchão velho que não usavam mais, e não contávamos história: descíamos derrapando uns dez metros abaixo. Só enfastiávamos da brincadeira quando estávamos feitos uns brigadeiros, de tanto rolar na terra.

Outra vez, na tão deliciosa corrida de carrinho de rolimã, fui eu e minha irmã mais nova, de novo. Eu estava no comando. Minha irmã, vestida apenas num shortinho parecido com os que os craques do futebol usavam até os anos 80, cabelão esvoaçante, ia à garupa. Mais uma vez, com a trupe de capetinhas, virávamos a nossa rua pelo avesso. Os vizinhos deveriam ficar ensandecidos com a sonoridade dos rolimãs. Sem contar nos motoristas que, com certeza, já sabiam que teriam que pisar leve quando passassem na nossa famosa rua.

Numa dessas corridas de rolimã, não me lembro se foi a primeira, nosso carrinho ia a todo vapor, enquanto meu joelho gastava-se no asfalto, e minha irmã tinha seu cotovelo carcomido pela agressiva pavimentação. Na hora do banho, não preciso nem escrever, não é? Amaldiçoávamos os nossos ‘velozes e furiosos’.
Mas terrível mesmo foi uma vez em que fui nadar na piscina de um amigo que morava duas casas depois da minha. A piscina era aquela de plástico azul, com desenho de peixinhos jubilosos. Estava eu e mais uns quatro garotos. Nesse dia, meu pai tinha me falado que eu não iria, e eu, teimoso, fui. O pior, quem sabe, não foi a minha teimosia. Eu estava com uma diarréia ferina. Mas fui.

Chegando lá meu intestino comportou-se como um lorde. Brinquei muito, era água para tudo quanto é lado, e todas aquelas brincadeiras que sempre improvisamos na água. Mas, com tanta agitação, o meu intestino ficou nervoso, e começou a me ameaçar. Bastava um pum para aliviar sua sanha. Até que não suportei mais: sai correndo para a minha casa. Entrei no quintal todo ensopado de água, por enquanto.

E agora, como eu entraria em casa naquelas duas situações, molhado e prestes a dar uma saraivada de merda? Além disso, meu pai estava em casa, pois trabalhava á noite. Fui salvo por um dos banheiros que ficava no lado de fora, na lavanderia. Porém, nem tudo foi perfeito. Não deu tempo de eu abaixar a bermuda. Em segundos, o chão do banheiro se transformou numa poça marrom. Que alívio...

Não pensei duas vezes, sai correndo para a piscina. A bermuda era de cor bege, ninguém perceberia. Cai na quase límpida piscina azul, que ficou marronzinha também. Normal. E, para a minha surpresa, me safei de novo. O dono da piscina, num momento brusco de racismo, expulsou um dos garotos, acusando-o de ter feito aquela merda na piscina dele. “sai daqui, seu nego fedido!”, excomungou o garoto, muito possesso.

Eu havia feito a pior ‘cagada’. Estraguei a brincadeira de todos, fiz os dois amigos brigarem e um sair execrado da nossa diversão. Ou todos saíram?
Ao chegar em casa, ri muito. Por pouco não tive outra crise diarréica, correndo o risco de me desmanchar em bosta.

Quando a gente é criança, até uma diarréia vira diversão. Quando tornamos-nos adultos, ela não tem outra característica: é merda mesmo.

Share |

Astronauta




Astronauta, você está sentindo falta da terra? Que falta que essa terra te faz? A gente aqui em baixo continua em guerra, olhando aí pra lua, implorando por paz. Então me diz por que você quer voltar? Você não está feliz onde você está, observando tudo à distancia, vendo como a terra é pequeninha, como é grande a nossa ignorância e como a nossa vida é mesquinha? A gente aqui no bagaço, morrendo de cansaço, DE TANTO LUTAR POR ALGUM ESPAÇO. E você , com todo esse espaço na mão, querendo voltar aqui pro chão? Ah, não, meu irmão... Que bicho te mordeu?

Ah, não meu irmão... Qual é a tua? Que bicho te mordeu ai na lua? Fica por ai que é o melhor que você faz. A vida por aqui está difícil de mais. Aqui no mundo o negocio está feio. Todo mundo está feito cego em tiroteio, olhando pro alto, procurando a salvação, ou pelo menos uma orientação. Você já está perto de Deus, Astronauta. Então me promete que pergunta pra Ele as respostas de todas as perguntas e me manda pela internet.

É tanto progresso que eu pareço criança. Essa vida de internauta me cansa. Astronauta, você volta e deixa eu dar uma volta na nave. Passa chave, porque eu estou de mudança. Seja bem-vindo! Faça o favor de tomar conta do meu computador, porque eu estou de mala pronta, estou de partida, e a passagem é só de ida. Estou preparado para a decolagem. Vou seguir viagem, vou me desconectar, porque eu já estou de saco e não quero receber nenhum e-mail com notícia dessa merda de lugar.

Eu vou pra longe, onde não exista gravidade, pra me livrar do peso da responsabilidade de viver nesse planeta doente e ter que achar a cura da cabeça e do coração da gente. Chega de loucura, chega de tortura. Talvez, aí no espaço, eu ache alguma criatura inteligente. Aqui tem muita gente, mas eu só encontro solidão, ódio, mentira, ambição. Estrela por aí é o que não falta, Astronauta. A terra é um planeta em extinção.

Eu vou pro mundo da lua, que é feito um motel,
Aonde os deuses e deusas se abraçam e beijam no céu...
Valeu, Pensador!
Share |

terça-feira, 6 de maio de 2008

#Delíryos | Maldita!



Ela está me debelando. Desejo que ela acabe logo com esse murmúrio de vida que me resta. Não sei, parece que ela se realiza ao me achacar. Ela me leva a um mundo que me faz sorrir, mas quando penso que vou perder o controle e dar uma gargalhada ecoante, ela me chacoalha e diz: “Seu bobo, claro que isso não é verdade. É só uma das milhões de alucinação em que você ainda vai afundar, demente”. Eu tento rechaçar as gélidas palavras dessa maldita. Eu lembro que vivi tudo o que senti, tudo o que fez germinar um escorço de sorriso no meu rosto amarrotado. Ela, atroz, concorda comigo, porém lembra-me que tudo ficou num passado remoto, que aquela cena que eu assistia e que me fazia tão bem, não voltará mais. Não há como ter um remake de todas essas lembranças. Nunca mais vou viver esses momentos. Nunca mais verei aquela pessoa tão amada, que agora habita em outro vilarejo. Esse alguém partiu, e eu fiquei aqui afogado nesse poço de consternação, nesse lamaçal de agonia, nessa clarabóia glacial. Esta é a incisiva verdade.

O desespero está preso à minha jugular. Quando estou deitado, quero me sentar. Quando estou sentado, jogo-me no chão. Mas o chão também é frio. Minhas indisposições respiratórias manifestar-se-ão e serão aliadas dessa coisa tão funesta. Pronto, isso poderá ser o meu fim. Que nada. Me dá uma vontade de correr, mas ela corre mais que eu, ela sempre me alcança. Tento ouvir uma música, mas ela fala mais alto. Não consigo. Tranco-me no quarto, no porão, no banheiro. Porém, em menos de um segundo, ouço os passos dessa excomungada. Não demora muito, ela bate à porta. Digo que não vou abrir. Ela não usa palavras para me contrariar. Arrebenta a porta e dá um sorrisinho sevo. Não adianta, pirado. Você nunca se desvencilhará de mim. Sou eterna. Eu não repouso. Quanto mais o tempo passa, mais eu cresço. Chegará uma hora em que você será menor que um inseto. E não pense que ficarei irritada com os seus zumbidos. Não tem jeito, você está encurralado. Só a morte pode te salvar, só a morte pode curá-lo de mim. Mas não vou apresentar-lhe a ela. Eu nunca faço isso, não consigo ver graça na morte. Sou aliada da tortura. Isso mesmo. Tortura, sofrimento. Esses serão seus fiéis escudeiros até suas últimas contorções.

Eu me levanto. Salto em cima dela. Ela, violenta, joga-me contra a parede. Ela não demonstra furor no seu olhar. Nem ao menos está ofegante. Ri. E eu choro muito. Dou-lhe um empurrão. Sinto-a tremular. Cai mas não cai. Caiu! Caiu dentro da privada. Eu consigo rascunhar um sorrisinho. Não sei como, mas sinto que estou forte. Aperto a descarga. Vejo-a sendo sugada pela água tingida de desinfetante. Que alívio. Ela foi para os quintos. Logo sinto alguém acariciar minha nuca. Viro-me depressa. Lá está ela novamente. Infame! Como ressurgiu assim? Pego o rodo. Vou escorrê-la para o ralo novamente. Ela se fixa no chão. Abro a porta. Tranco-a no banheiro. Acho que vou para o quarto. Quero ouvir Vivaldi, Chopin, Caetano, Marisa, não sei mais quem. Corro para o quarto. Enquanto corro, olho freneticamente para trás. Ela não pode me acompanhar. No entanto, quando olho, ela já está à porta. Ela me espera. Mostra-me minha cama. Deito-me. A cama já está aquecida. Encolho-me entre os lençóis. Posição fetal. Cubro minha face com o travesseiro de penas. Seria bom transformar-me num pássaro. Quem sabe conseguiria fugir. Voaria para o Nepal, para a China, para Budapeste. Sinto-a afagando minhas mãos. Parece que cochicha uma canção. Tomo forças e a encaro. Ela sorri delicadamente. Põe o dedo indicador na ponta do meu nariz. Diz-me: Durma um pouco. Há muita desesperança pela frente. Não tente matar a Saudade. Saudade não se mata. Saudade se vive. Vive-se à flor da pele. Ouço essas palavras com a impressão de que elas vêm de muito longe. Durmo sentindo o calor da maldita Saudade a queimar minhas vísceras e a atassalhar meu acirrado coração.
Share |